A história acompanha Becket Redfellow, um homem marcado pela exclusão familiar e pela obsessão de recuperar a herança que acredita ser sua por direito. A partir desse ponto, inicia uma escalada de crimes contra os próprios familiares, numa narrativa contada em retrospetiva, enquanto aguarda a execução no “corredor da morte”. Esta estrutura confessional confere ao filme um tom quase fatalista, como se a ambição fosse, desde o início, uma sentença inevitável.
O realizador John Patton Ford recupera a premissa de uma clássica comédia negra britânica de 1949, atualizando-a para a América contemporânea e para um contexto social dominado por desigualdades económicas. A intenção é clara. Mostrar que a luta por estatuto e dinheiro continua a ser um motor poderoso, capaz de corromper qualquer consciência. No entanto, ao longo da projeção, senti que o filme oscila entre tons. Há momentos em que assume um registo de thriller psicológico com forte carga moral, e outros em que tenta ser irónico e provocador.
Esse pouco equilíbrio acaba por diluir o impacto emocional da narrativa. Ainda assim, há elementos que funcionam. O elenco é sólido e o ritmo, em determinados momentos, prende a atenção. O próprio conceito de acompanhar um protagonista disposto a tudo para ascender socialmente faz ecoar temas contemporâneos muito presentes no cinema recente, como a crítica ao poder dos super-ricos e à obsessão pelo sucesso.
O que mais me ficou, no final, foi a sensação de estar perante um filme que quer dizer muito sobre a sociedade atual, mas que talvez não encontre sempre a forma mais incisiva de o fazer. Há humor, há violência, há crítica social. Mas falta, por vezes, aquela ousadia narrativa que transforma uma boa ideia numa obra memorável.
“Jogada de Mestre” não é um filme perfeito, mas tem mérito ao tentar provocar reflexão sobre o preço da ambição e sobre a forma como o dinheiro pode moldar destinos e relações humanas. Saí da sala a pensar que, no fundo, a verdadeira herança não é material. É moral. E essa, quando se perde, dificilmente se recupera.






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