Estreou no último dia do ano! "A Rapariga Dinamarquesa", um dos filmes mais aguardados dos últimos tempos, começou logo a dar que falar assim que foi anunciado que seria o actor Eddie Redmayne a interpretar o papel de Lili Elbe, considerada como o primeiro transsexual a submeter-se à cirurgia de alteração de sexo. Eu, a convite da querida Xenica Jardim, tive a oportunidade de assistir à sua ante-estreia especial no CCB, o passado dia 22 de Dezembro.

Realizado por Tom Hooper (o mesmo de «O Discurso do Rei» e «Os Miseráveis»), e baseado no livro de David Ebershoff, “A Rapariga Dinamarquesa” aborda a história verídica de Einar Wegener, um famoso pintor dinamarquês que questiona profundamente a sua identidade de género e que se tornou na primeira pessoa a submeter-se a uma intervenção de mudança de sexo. É difícil centrarmo-nos apenas no filme, quando se trata de um drama real...

Einar Wegener sempre soube que não se adaptava ao seu corpo, mas foi quando serviu de modelo feminino para um quadro da também pintora e sua mulher, Gerda Wegener, que passou a ter plena consciência do seu “eu” interior. Foi naquele momento que ele, usando roupas femininas, sentiu aflorar dentro de si algo que, com o passar do tempo, se transformaria no mais intenso desejo da sua vida: ser uma verdadeira mulher. Esta torna-se uma jornada que o leva a uma lenta transformação numa outra pessoa, obrigando-o a viver uma vida dupla enquanto Einar ou Lili. E é isso que nos é apresentado, as alterações na vida do casal, desde a descoberta dessa necessidade de dar azo a uma nova identidade, até à mudança definitiva de sexo. Portanto, todo o processo da transformação de Einar Wegener em Lili Elbe, em plena Dinamarca e Paris da década de 1920, apesar da intervenção cirúrgica, pioneira na época, ter sido realizada na Alemanha.

A luta de Einar Wegener/Lili Elbe é hoje uma referência para o movimento gay, lésbico, bissexual e transgénero, mas a verdade é que muito poucos conheciam a sua história… Agora, graças ao filme de Tom Hooper, todos ficamos a saber da sua difícil vida. E Hooper não deixa nada ao acaso: a soberba fotografia, o perfeito enquadramento da época, a música sublime de Alexander Desplat, o extraordinário figurino, etc. Sempre com simplicidade e delicadeza, o realizador dá-nos uma obra completa e intensa, desde os dramas do casal até aos preconceitos de que é alvo, já que pessoas como Lili eram, muitas vezes, internadas em manicómios ou submetidas a eletrochoques.

“A Rapariga Dinamarquesa” vive, também e principalmente, de duas grandes interpretações. Tanto Alicia Vikander como Eddie Redmayne são absolutamente exímios. Estou certo de que o filme poderia incorrer num fracasso caso tivesse havido erro de casting quanto à escolha dos seus protagonistas. Felizmente, Vikander e Redmayne completam-se e oferecem-nos dois trabalhos absolutamente avassaladores. Por isso, já vencedor de alguns prémios em pequenos festivais e com o peso de três nomeações nas principais categorias dos Globos de Ouro, dificilmente não terá nomeações para os Oscar, principalmente por estes seus dois grandes papeis.

Por último e para que conste, de referir que o rei da Dinamarca dissolveu o casamento de Lili Elbe, sendo a sua nova sexualidade posteriormente legalizada. Ao longo de dois anos, Lili Elbe foi operada cinco vezes e no final desse processo, solicitou ao rei da Dinamarca que dissolvesse o seu casamento. O pedido foi concedido em 1930, altura em que conseguiu ver legalizada a sua nova identidade. Durante todo o processo, Gerda, que acompanhou de perto toda a transformação, nunca deixou de estar ao seu lado…

Uma história dramaticamente bonita, sem dúvida. A ver num cinema perto de vocês...


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