Fui à antestreia de Street Fighter sem nunca ter jogado o videojogo que lhe deu origem. Não conhecia as personagens, os seus poderes ou a história. Talvez por isso tenha saído do cinema com uma agradável surpresa...
Na passada quarta-feira, 14 de outubro, fui assistir à antestreia de «Street Fighter», a nova adaptação cinematográfica de uma das mais conhecidas sagas de videojogos de luta. Confesso que não sabia muito bem o que esperar. Nunca fui propriamente adepto de videojogos. A minha experiência terá ficado pelos tempos do Atari, quando era miúdo, e pouco mais.
Por isso, ao contrário de muitos espectadores, não tinha qualquer ligação emocional às personagens, nem referências que me permitissem comparar o filme com o universo criado pela Capcom. Entrei na sala praticamente sem expectativas. E talvez tenha sido essa a melhor maneira de descobrir «Street Fighter». Porque gostei. E surpreendeu-me.
Uma história de rivalidade, honra e poder
Realizado por Kitao Sakurai, o filme transporta-nos para 1993 e acompanha Ryu (Andrew Koji) e Ken Masters (Noah Centineo), dois antigos companheiros de treino cuja amizade, quase irmandade, foi marcada por acontecimentos do passado.
Anos depois, os dois reencontram-se envolvidos num torneio internacional que reúne alguns dos mais poderosos lutadores do mundo. Mas aquilo que inicialmente parece ser uma competição de artes marciais esconde interesses bastante mais obscuros.
Por detrás do torneio está M. Bison, uma personagem movida pela ambição de alcançar um poder que ultrapassa as capacidades humanas. O verdadeiro objetivo da competição não é apenas encontrar o melhor lutador, mas explorar (extrair) uma força extraordinária para benefício próprio.
Foi precisamente esta dimensão da história que me despertou maior interesse. Para além dos confrontos físicos, existe uma reflexão sobre a honra, a disciplina, a amizade e a forma como o poder pode corromper quem o procura a qualquer preço.
Não sendo conhecedor das artes marciais, gostei particularmente de perceber a importância atribuída ao respeito pelo adversário e à relação entre mestre e discípulo. Há uma dimensão de lealdade e de princípios que acaba por dar sentido a muitas das decisões das personagens.
Entre a ação e o humor
Naturalmente, «Street Fighter» é um filme de ação. E há muita luta, golpes espetaculares, efeitos visuais e alguma violência, como seria de esperar numa adaptação de um videojogo construído precisamente em torno do combate.
Mas não é um filme permanentemente sombrio. Pelo contrário, há momentos de humor que ajudam a equilibrar a narrativa, sobretudo na relação entre Ken e Ryu, duas personagens com personalidades bastante diferentes.
Também gostei da forma como o filme assume o seu lado fantástico. Há poderes sobrenaturais, personagens fisicamente improváveis e situações que desafiam qualquer explicação realista. Mas estamos perante um universo de ficção e, uma vez aceite essa premissa, a história funciona.
Pessoalmente, achei que o argumento tinha coerência suficiente para me manter interessado durante as quase duas horas de projeção. Mesmo sem conhecer as referências aos jogos, consegui acompanhar a narrativa e compreender as motivações principais das personagens.
A inesperada sensibilidade de Blanka
Mas houve uma personagem que me conquistou particularmente: Blanka, interpretado por Jason Momoa. À primeira vista, surge como uma criatura monstruosa, de força desmedida e aparentemente implacável. Tudo nele parece anunciar perigo e violência.
E, no entanto, por detrás daquela aparência assustadora, descobrimos uma sensibilidade inesperada e uma enorme capacidade de amizade.
Confesso que me comoveu o momento em que Blanka regressa para salvar Ryu. É um gesto de lealdade que revela uma dimensão profundamente humana numa personagem que, fisicamente, parece tão distante de nós. E dei por mim a pensar como é curioso que um filme com tanta violência, tantos combates e tanta ação consiga surpreender-nos com momentos de verdadeira ternura.
Foi uma das cenas de que mais gostei. Não pela espetacularidade dos efeitos visuais ou pela intensidade da luta, mas pela simplicidade do gesto. Afinal, por detrás daquela força aparentemente incontrolável, estava alguém capaz de arriscar tudo por um amigo.
São estes pequenos momentos que, para mim, fazem a diferença e dão às personagens uma profundidade que nem sempre esperamos encontrar num filme deste género.
Um elenco que mistura cinema, música e luta livre
Outro dos aspetos curiosos desta produção é a diversidade do elenco. Além de Andrew Koji e Noah Centineo, encontramos Callina Liang no papel de Chun-Li, Jason Momoa como Blanka e David Dastmalchian na pele do vilão M. Bison. O filme conta ainda com a participação de figuras da luta livre profissional, como Roman Reigns, que interpreta Akuma, e Cody Rhodes, no papel de Guile. O rapper 50 Cent surge como Balrog.
Uma das participações mais inesperadas é a do cantor Orville Peck, conhecido pela sua imagem enigmática e pelas máscaras que utiliza nas atuações. Aqui interpreta Vega, um lutador igualmente mascarado, numa escolha que não deixa de ser curiosa.
Este cruzamento entre diferentes universos do entretenimento contribui para o carácter visual e, por vezes, extravagante do filme.
E quando parecia estar tudo resolvido… Não quero revelar demasiado sobre o desfecho, até porque parte do interesse está precisamente em descobrir o que se esconde por detrás do torneio.
Confesso, no entanto, que o final me deixou algumas dúvidas. A relação entre determinados poderes, as intenções do vilão e as consequências dos últimos confrontos nem sempre me pareceram inteiramente claras. Mas uma coisa ficou evidente: quando já estamos envolvidos na história, percebemos que nem todas as contas ficaram ajustadas.
O desfecho deixa a porta aberta à continuação da aventura, com as personagens aparentemente determinadas a perseguir quem esteve na origem dos nefastos acontecimentos. Será que teremos um segundo filme? Não me surpreenderia. E, curiosamente, depois desta primeira experiência, até gostaria de o ver.
Uma agradável surpresa
Sei que os fãs de «Street Fighter» terão certamente uma perspetiva diferente da minha. Conhecem os jogos, os movimentos especiais, as rivalidades e a história de cada personagem. Conseguirão identificar referências que me passaram completamente ao lado.
Também sei que as opiniões da crítica estão divididas. Há quem considere o filme demasiado confuso, com personagens em excesso e combates que poderiam ter sido mais desenvolvidos. Mas a minha experiência foi outra...
Fui ao cinema sem conhecer aquele universo e encontrei um filme divertido, visualmente apelativo e com uma história que, apesar de algumas extravagâncias e de um final que me deixou em suspenso, conseguiu prender a minha atenção.
Gostei sobretudo da importância atribuída à honra, à disciplina e à amizade, valores que nem sempre associamos imediatamente a um filme de ação baseado num videojogo. E, talvez, acima de tudo, da capacidade de encontrar gestos de ternura onde menos os esperamos
Certamente os grandes conhecedores da saga encontram motivos para discordar. Mas, para quem nunca jogou «Street Fighter», posso dizer que este filme foi uma boa surpresa. E, afinal, não é também isso que procuramos quando vamos ao cinema? Descobrir histórias e universos que não conhecíamos e sair da sala surpreendidos, com vontade de saber um pouco mais?




