
Os anos 80 estão de volta. Já repararam? Em todo o lado: na
moda, na música, no cinema, na fotografia e, agora, até através da Inteligência
Artificial, nas redes sociais. Mas o que leva toda uma nova geração a sentir
nostalgia por uma década que nunca viveu? E o que sentimos nós, que estivemos
realmente lá, ao vê-la regressar?
Nos últimos dias, também eu entrei na brincadeira. Uma
fotografia atual, algumas indicações à IA e, de repente, lá estava eu
transportado para os anos 80: blusão de cabedal, jeans, néons, máquinas de Arcade,
um boombox ao ombro e aquele ambiente entre o videoclip e o filme
adolescente que hoje sintetiza todo um imaginário. Confesso: diverti-me imenso
com o resultado.
Mas havia uma ironia incrível em tudo aquilo. Eu não
precisava que a Inteligência Artificial me “explicasse” como eram os anos 80,
porque eu estive lá. E talvez seja precisamente isso que torna tão fascinante
esta nova obsessão coletiva pela década prodigiosa. Para uns, os anos 80 são
uma estética, para outros, como eu, são memória.
A década que se recusa a desaparecer
O fenómeno está longe de se limitar à mais recente
brincadeira das redes sociais. A tendência dos retratos gerados por IA com
cabelos volumosos, roupas e acessórios retro, iluminação quente e
textura de fotografia analógica tornou-se viral. Mais uma manifestação de uma
nostalgia pelos anos 80 que há muito atravessa a cultura contemporânea. E como
bons portugueses que somos, um povo saudosista por natureza, esta viagem teve repercussões
fantásticas.
Basta olhar à nossa volta. Stranger Things
transformou a estética da década num fenómeno para novas gerações. O cinema
recupera personagens, universos e franchises que pareciam pertencer
definitivamente ao passado. A moda revisita volumes, silhuetas e peças que
julgávamos arrumadas no armário da história. O vinil regressou, em força! As
câmaras analógicas voltaram. O grão, as imperfeições, os reflexos e até aquilo
que durante anos tentámos eliminar das fotografias digitais tornaram-se
novamente desejáveis.
Curiosamente, há poucos dias o Financial Times
analisava precisamente a atração da Geração Z por objetos físicos e tecnologias
aparentemente ultrapassadas. Câmaras, suportes físicos e imagens imperfeitas
oferecem uma experiência mais tangível num mundo cada vez mais digital e
dominado pela Inteligência Artificial.
Até a fotografia vive este paradoxo: depois de décadas de
evolução tecnológica destinadas a eliminar grão, erros, limitações e
imprevisibilidade, fabricantes e aplicações procuram agora reproduzir
precisamente essas características para devolver às imagens uma suposta
“experiência de filme”. Talvez a perfeição digital nos tenha feito descobrir
que a imperfeição também pode ter alma.
Podemos sentir saudades do que nunca vivemos?
Há uma palavra particularmente específica para isso:
anemoia. É usada para descrever uma espécie de nostalgia por um tempo que não se
viveu. E ajuda a compreender por que razão alguém nascido muito depois de 1989
pode sentir uma estranha familiaridade com cassetes, Polaroids, telefones com
fio e números giratórios, sintetizadores ou máquinas de jogos.
Naturalmente, esses jovens não sentem saudades das suas
próprias memórias dos anos 80. Sentem atração por uma ideia dos anos 80
construída através da música, do cinema, das fotografias, da moda, das séries
e, agora, das redes sociais, que lhes chega. E há aqui uma distinção
importante.
Os anos 80 que hoje regressam não são necessariamente os
anos 80 que existiram. São uma versão editada, filtrada e extraordinariamente
fotogénica deles. Porque essa década não foi apenas néon, Madonna, Prince,
Michael Jackson, ombreiras, Walkmans e noites sem fim. Teve crises, conflitos,
medos, desigualdades e grandes contradições. Guerra fria, Muro de Berlim, etc. Quem
a viveu sabe disso... Mas a memória tem um extraordinário departamento de
edição.
Com o passar dos anos, ficam determinadas músicas, pessoas,
paixões, lugares, cheiros, roupas, noites e aquela sensação muito particular de
estarmos a descobrir alguma coisa pela primeira vez.
A nostalgia como porto de abrigo
Foi precisamente esta dimensão que me chamou a atenção num
texto de Rita Amzalak, publicado no Briefing. A autora recorda como a
nostalgia se tornou uma poderosa ferramenta do marketing contemporâneo e
relaciona a sua força com a procura de conforto perante crises económicas,
instabilidade social, guerras, ansiedade ambiental e um quotidiano digital
acelerado.
E a psicologia ajuda a perceber porquê. A investigação tem
associado a nostalgia a sentimentos de ligação social, continuidade entre
aquilo que fomos e aquilo que somos e, em determinadas circunstâncias, ao
otimismo, à inspiração e a um sentido para a vida.
É fácil compreender por que razão as marcas descobriram aí
um território tão poderoso. Um produto que nos recorda a adolescência não é
apenas um produto. Uma música que nos transporta imediatamente para determinado
momento não é apenas uma música. E um objeto que reconhecemos da casa dos
nossos pais ou avós transporta consigo uma história.
O marketing sabe-o e explora-o. Umas vezes com inteligência
e sensibilidade, outras limitando-se a colocar uma embalagem antiga numa
prateleira e chamar-lhe vintage. A própria investigação sobre
publicidade nostálgica mostra que parte da sua eficácia pode passar
precisamente pelo sentimento de ligação social que desperta. Mas reduzir tudo
isto a marketing seria perder a parte mais interessante do fenómeno.
Estaremos cansados de tanta perfeição?
Há algo de profundamente contraditório no momento que
estamos a viver. Nunca tivemos tanta tecnologia ao dispor. Nunca produzimos
tantas fotografias. Nunca tivemos acesso imediato a tanta música, tantos
filmes, tanta informação e tantas pessoas. E, no entanto, procuramos discos de
vinil. Compramos câmaras que produzem fotografias imperfeitas. Recuperamos
roupa antiga. Queremos objetos que podemos tocar. E aplicamos filtros às nossas
fotografias digitais para que pareçam ter sido reveladas há 40 anos.
Talvez não estejamos apenas à procura do passado, talvez
estejamos à procura daquilo que sentimos que perdemos pelo caminho. O tempo de
esperar que uma fotografia fosse revelada. De ouvir um álbum inteiro porque não
havia um botão para saltar infinitamente entre inúmeras músicas. De telefonar
para uma casa sem saber quem iria atender. De combinar um encontro e aparecer
porque ninguém podia enviar uma mensagem cinco minutos antes a dizer que estava
atrasado.
Não digo isto com o habitual “no meu tempo é que era bom”.
Não o era. A tecnologia resolveu problemas, aproximou pessoas, democratizou
conhecimento e abriu possibilidades extraordinárias. Não trocaria o presente
pelo passado. Só que ganhámos umas coisas e perdemos outras. E talvez uma
geração que cresceu permanentemente ligada a um ecrã encontre nesse mundo
analógico algo de exótico que, para nós, era simplesmente quotidiano.
Eu estive lá
É aqui que esta brincadeira com a Inteligência Artificial se
tornou inesperadamente pessoal. Ao ver aquelas versões de mim próprio nos anos
80, algumas cinematográficas, outras exageradas, todas deliciosamente
improváveis, percebi que estava a utilizar uma das tecnologias mais avançadas
do nosso tempo para reconstruir uma época profundamente analógica da minha
própria vida. E há qualquer coisa de extraordinário nisso. A IA imagina como eu
poderia ter sido. Eu lembro-me de como fui.
Lembro-me da música. Da moda. Das descobertas. Da liberdade.
Dos excessos. Da energia criativa. Da sensação de que tudo estava a mudar e de
que o futuro ainda era um território enorme por descobrir. E depois fui buscar
uma fotografia verdadeira. Nada de prompt. Nada de Inteligência Artificial.
Nada de filtros. Eu, nos anos 80. E, sim, aquele cabelo existiu mesmo. Com um
volume suficientemente ambicioso para hoje me fazer reconhecer uma certa
proximidade capilar com Rick Astley. As provas são irrefutáveis.
Diferença entre nostalgia e saudosismo
Há, contudo, um conforto perigoso em acreditar que o melhor
já aconteceu. Quando transformamos a memória num lugar permanentemente melhor
do que o presente, corremos o risco de passar mais tempo a contemplar quem
fomos do que a construir quem ainda podemos ser. E eu recuso essa ideia.
Eu não quero regressar aos anos 80. Quero recordar os anos
80. Quero celebrar tudo aquilo que me deram, reconhecer o homem que começou a
construir-se naquela época e perceber quanto desse jovem continua em mim. Mas
quero que a minha versão atual continue a ser a protagonista da minha história,
não uma espectadora fascinada pelo homem que fui.
Porque, por mais extraordinárias que sejam as memórias, a
vida não acontece para trás. O passado pode explicar-nos; não deve
aprisionar-nos. Quero continuar a avançar, quero descobrir música nova, como
uma Lola Young ou um Benson Boone, por exemplo, pessoas novas, lugares novos,
ideias novas e perceber este mundo estranho e fascinante em que uma máquina
consegue olhar para uma fotografia minha de 2026 e imaginar como eu teria sido
quatro décadas antes. Talvez seja esse, afinal, o paradoxo mais giro desta
brincadeira: usei o futuro para visitar o passado e acabei por me lembrar da
importância de continuar a olhar em frente.
Porém, isso não diminui aquilo que vivi. Pelo contrário, torna-o
parte de uma história que ainda está a ser escrita. E por isso divirto-me verdadeiramente
ao ver uma geração que não viveu os anos 80 apaixonar-se pela sua música, pelas
suas cores, pela sua moda e pelos seus objetos analógicos. Há qualquer coisa de
belo quando uma época consegue atravessar gerações e ganhar uma segunda vida.
Por isso, no meio desta enorme onda retro, fica-me,
sobretudo, um desejo: que as novas gerações tenham a sorte de viver, à sua
maneira, pelo menos um pouco da intensidade, da descoberta e da liberdade que eu
tive o privilégio de sentir e viver.
Porque os anos 80 podem estar novamente na moda. Podem ser
recriados por séries, recuperados pelas marcas, reinterpretados pela moda e,
agora, até reinventados pela Inteligência Artificial. Mas há uma pequena
diferença. Eles descobriram os anos 80, mas eu estive lá.