Languishing, o filho do meio negligenciado na saúde mental, pode entorpecer a nossa motivação e foco - e pode bem ser a emoção dominante em 2021. Languishing pode ser traduzido do inglês como “apatia”, “definhamento”, “desalento”, “desamparo”, “desânimo”, “sensação de estagnação e vazio” ou até “lânguido”. O termo ganhou grande destaque após ser utilizado pelo psicólogo organizacional americano Adam Grant em abril deste ano, num artigo do New York Times intitulado “There’s a Name for the Blah You’re Feeling: It’s Called Languishing” (“Há um nome para isso que está a sentir durante a pandemia: chama-se languishing”). Tal define a sensação de mal-estar vivenciada por muitas pessoas ao longo deste período, uma sensação de estagnação e vazio, que nos dá a ideia de desperdiçar os dias sem um rumo certo ou, como compara o artigo, seria a sensação de ver “a vida através de um vidro embaciado”. O oposto de languishing é outro termo mencionado no artigo de Grant que tem vindo a ganhar popularidade, o flourishing, ou florescimento, que se refere à sensação elevada de bem-estar, emoções positivas, esperança e propósito. Daí o título deste meu post. E, por não possuir uma tradução que melhor o defina, irei usar o termo languishing no original.

Segundo especialistas, a incerteza e o luto trazidos pela pandemia são os principais factores que desencadeiam o languishing atualmente, pois não estamos a vivenciar apenas o luto pelas vítimas da Covid-19, mas por todas as perdas simbólicas que tivemos neste período — como o convívio social, a liberdade, as possibilidades de lazer — e de algo que é essencial ao ser humano: o toque.

No início, podemos não reconhecer os sintomas que possamos ter em comum. Certamente, ao falarmos com amigos e familiares sobre os últimos meses de confinamento, a conversa terá acabado por desembocar no modo como muitos se sentem: cansados, desmotivados e até perdidos. Talvez alguns tenham manifestado mais dificuldade em concentrar-se, no trabalho ou em tarefas, enquanto outros, apesar da chegada das vacinas, não depositam grandes esperanças em 2021. Podemos ficar acordados até tarde para vermos um filme novamente, embora o saibamos de cor. E, em vez de saltarmos da cama às 6 da manhã, ficamos deitados até as 7h a olhar para o telemóvel... Não, não se trata de esgotamento, pois ainda possuímos energia. Também não é depressão, pois não nos sentimos desesperados. Nós apenas nos sentimos um tanto ou quanto sem alegria e sem objetivo. E há mesmo um nome para isso: languishing.



Enquanto cientistas e médicos trabalham para tratar e curar os sintomas físicos da interminável Covid-19, muitas pessoas lutam com a longa duração emocional da pandemia. Alguns de nós até ficámos despreparados quando o medo intenso e a dor do ano passado se dissiparam... Nos primeiros dias incertos da pandemia, é provável que o sistema de deteção de ameaças do nosso cérebro estivesse em alerta máximo para lutar ou fugir. Como aprendemos que as máscaras ajudam a nos proteger, provavelmente fomos desenvolvendo rotinas que aliviaram a nossa sensação de pavor. Mas a infame pandemia arrastou-se e o estado agudo de angústia deu lugar a uma condição crónica de languishing. Com o segundo confinamento, chegou uma nova forma de esgotamento. As pessoas já se encontram tão cansadas de lutar para se adaptar às circunstâncias que ficam nesta lassidão, com menos vontade de trabalhar, de estar com outras pessoas ou de terem cuidado com a sua alimentação.


Mas, então, o que é isto que estamos a sentir? Apesar de um certo torpor, ainda temos energia e não nos sentimos propriamente desesperados, o que exclui o burnout e a depressão. Ainda assim, parece existir uma certa falta de motivação e objetivos...



 

Em psicologia, aborda-se a saúde mental num espectro que vai da depressão ao florescimento. Florescer é o auge do bem-estar: temos um forte sentido de significado, domínio e importância para os outros. A depressão é o vale do mal-estar: sentimo-nos desanimados, esgotados e sem valor. E languishing, conforme foi dito ao início, é o filho do meio negligenciado da saúde mental. É o vazio entre a depressão e o florescimento - a ausência de bem-estar. Não temos sintomas de doença mental, mas também não somos a imagem da boa saúde mental, pois não estamos a funcionar em total capacidade. Languishing enfraquece a motivação, atrapalha a capacidade de concentração e triplica as hipóteses de diminuição de trabalho. Parece ser mais comum do que a depressão grave e, de certa forma, pode ser um factor de risco maior para desenvolver outro tipo de doenças mentais.

 

O termo em si foi atribuído por um sociólogo chamado Corey Keyes, que ficou surpreso ao ver que muitas pessoas que não estavam deprimidas também não estavam a prosperar. Foi em 2002 que Keys publicou, no Journal of Health and Social Behavior, o seu estudo que, além de cunhar o termo languishing, constatou que 12,1% de um grupo de adultos, com idades compreendidas entre os 25 e os 74 anos, preenchia os critérios para se encontrar neste estado. A sua pesquisa sugere que as pessoas com maior probabilidade de sofrer de depressão grave ou serem diagnosticadas com um transtorno de ansiedade na próxima década não são as que apresentam já sintomas desses problemas, mas as que sofrem atualmente de languishing agora. E novas evidências de trabalhadores de saúde em Itália mostram que aqueles que estavam a padecer de languishing na primavera de 2020 tinham três vezes mais probabilidades do que seus pares de serem diagnosticados com transtorno de stress pós-traumático. Languishing é apatia, uma sensação de inquietação ou uma falta geral de interesse pela vida ou pelas coisas que normalmente trazem alegria. Segundo o mesmo estudo, este estado consome a motivação e interfere com a capacidade de concentração, tornando três vezes mais provável que as pessoas que dele sofrem se desleixem no trabalho, em comparação com adultos moderadamente saudáveis.

 

Parte do perigo é que, quando estamos em modo languishing, podemos não notar o entorpecimento da motivação ou a diminuição do impulso. Não nos vemos a deslizar lentamente para a solidão; tornamo-nos indiferentes à nossa própria indiferença. Quando não conseguimos ver o nosso próprio sofrimento, não procuramos ajuda, nem fazemos grande coisa para nos ajudarmos a nós próprios. E mesmo se não estivermos em modo languishing, provavelmente conhecemos pessoas que o estão, pelo que entendê-lo melhor pode ajudar-nos a ajudá-las.



Ao contrário de um transtorno de pânico ou depressão, languishing é uma série de emoções, não uma doença mental. “Languishing envolve sentimentos angustiantes de estagnação, monotonia e vazio”, afirma a Dra. Leela R. Magavi, psiquiatra infantil, adolescente e adulta, e diretora médica regional da Community Psychiatry, a maior organização ambulatória de saúde mental da Califórnia.

 

Os psicólogos descobriram que uma das melhores estratégias para controlar as emoções é atribuir-lhes um nome. Na primavera de 2020, durante a angústia aguda da pandemia, o post mais viral da história da Harvard Business Review foi um artigo a descrever o nosso desconforto colectivo como dor. Juntamente com a perda de entes queridos, estávamos de luto pela perda da normalidade. Num longo pesar. E tal deu-nos um vocabulário familiar para entender o que parecia ser uma experiência desconhecida. Embora não tenhamos enfrentado uma pandemia antes, a maioria de nós já enfrentou perdas. Isso ajudou-nos a cristalizar lições da nossa própria resiliência no passado - e a ganhar confiança na nossa capacidade de enfrentar as adversidades presentes.

Ainda temos muito que aprender sobre o que causa o languishing e como curá-lo, mas dar-lhe um nome pode ser um primeiro passo. Isso poderia ajudar a desobstruir a nossa visão, dando-nos uma janela mais clara para o que tinha sido uma experiência “embaciada”. E não estamos sozinhos: infelizmente, languishing é comum e compartilhado. Estarmos sempre insatisfeitos, olharmos ao espelho e não gostar do que vemos, sem que isso nos dê motivação para cuidar de nós, ou termos a sensação de estarmos a ser “arrastados” pelos dias podem ser sinais de um estado de languishing.

Portanto, quando adicionamos languishing ao nosso léxico, começamos a notá-lo mais ao nosso redor. Ele aparece quando nos sentimos desapontados ao final da tarde. Está em “Os Simpsons” cada vez que uma personagem diz “Meh”. É o ficar acordado até tarde da noite para recuperar a liberdade que se perdeu durante o dia. Não tanto uma retaliação contra a perda de controlo, mas um acto de desafio silencioso contra o enfraquecimento. Uma busca por felicidade num dia sombrio, por uma conexão numa semana solitária ou desalento por uma pandemia perpétua.




Diferença entre languishing e depressão

Languishing não é depressão ou tristeza, mas sim “a ausência de se sentir bem com a sua vida”, defende Keyes. “Languishing é também a falta de sentido, propósito ou pertença à vida, o que leva ao vazio, à falta de emoção e à estagnação”, afirma.

“A depressão, por outro lado, é um distúrbio clínico. O interesse pela vida desaparece e a tristeza é sentida de forma aguda”, explica Keyes. Também existem sinais claros de depressão, como dormir muito ou pouco e expressar desesperança ou pensamentos suicidas. Porém, “languishing não é sentir-se bem nem triste”, diz. “É mais o não se estar a sentir realmente nada.”

A principal diferença entre languishing e depressão é “quando alguém se sente deprimido, muitas vezes não quer sair da cama”, adianta. “Quando uma pessoa se sente languishing, ela prossegue com os movimentos da vida. É quase como se nos colocássemos em suspenso e estivéssemos à espera de algo bom acontecer”, prossegue Keyes. Na sua pesquisa, ele descobriu que o estado de languishing pode levar a um alto risco de desenvolver depressão e ansiedade, bem como riscos elevados de tentativas de suicídio e mortalidade prematura. As pessoas afetadas pela condição de languishing não estão clinicamente deprimidas, mas também não estão felizes. Experienciam uma sensação de um estado “nim”. Falta-lhes motivação e tudo parece assumir-se como algo difícil de levar a cabo como, por exemplo, realizar tarefas, planear uma viagem ou conviver com a família ou com os amigos.




Um antídoto para languishing?

Então, o que nós podemos fazer sobre isso? Um conceito chamado “fluxo” pode ser um antídoto para o languishing. O fluxo é aquele estado indescritível de absorção num desafio significativo ou um vínculo momentâneo, onde o sentido de tempo, lugar e do “eu” se desvanece. Durante os primeiros dias da pandemia, o melhor indicador de bem-estar não era o otimismo ou atenção plena - era o fluxo. Pessoas que se tornaram mais imersas nos seus projetos conseguiram evitar o languishing e mantiveram a sua felicidade pré-pandêmica. Um jogo de palavras matinal pode catapultar-nos para o fluxo. Uma maratona noturna da Netflix às vezes também ajuda - ela transporta-nos para uma história na qual nos sentimos ligados às personagens e preocupados com o bem-estar delas.

Embora encontrar novos desafios, experiências agradáveis e trabalho significativo sejam todos os remédios possíveis para evitar o languishing, é difícil encontrar o tal fluxo quando não nos conseguimos concentrar. Esse era um problema muito antes da pandemia, quando as pessoas costumavam verificar e-mails 74 vezes por dia e trocar de tarefas a cada 10 minutos. A atenção fragmentada é inimiga do engajamento e da excelência. Num grupo de 100 pessoas, apenas duas ou três são capazes de dirigir e memorizar informações ao mesmo tempo, sem que o seu desempenho seja prejudicado numa ou duas tarefas. Os computadores podem ser feitos para o processamento paralelo, mas os humanos são melhores com o processamento serial. Demos a nós mesmos algum tempo sem interrupções.




Como ultrapassar o languishing?

A pandemia foi uma grande perda. Para transcender o languishing, tentemos começar com pequenas vitórias, como o pequeno triunfo de descobrir um mistério policial ou a pressa de jogar uma palavra de sete letras. Um dos caminhos mais claros para fluir é uma dificuldade administrável: um desafio que amplia as nossas habilidades e aumenta a nossa determinação. Isso significa reservar um tempo diário para nos concentrarmos num desafio que é importante para nós - um projeto interessante, uma meta que vale a pena, uma conversa significativa. Temos de tentar evitar que o torpor cinzento se apodere do nosso iluminado dia-a-dia, apostando no auto-cuidado, em sair de casa para aproveitar os dias de sol, dormir bem, alimentarmo-nos de forma saudável, beber água e, dentro do possível, procurarmos apoio social e emocional junto da família e dos amigos. Tentar fazer com prazer coisas que parecem até corriqueiras, agarrar-se a pequenos confortos e valorizar o que há de bom também pode ajudar a ultrapassar este “pseudo-adormecimento”. Agarrarmo-nos aos pequenos prazeres como pintar, ler um livro, ver séries, remodelar a casa, investir na culinária ou na jardinagem são algumas das hipóteses. Às vezes, é um pequeno passo para redescobrir um pouco da energia e do entusiasmo que perdemos durante todos estes meses. Porque o languishing não está apenas nas nossas cabeças - está nas nossas circunstâncias. Não se pode curar uma cultura doente com curativos básicos. Ainda vivemos num mundo que normaliza os desafios da saúde física, mas estigmatiza os desafios da saúde mental. Enquanto nos dirigimos para uma nova realidade pós-pandemia, é hora de repensar a nossa compreensão da saúde mental e do bem-estar. “Não deprimidos” não significa que não estejamos a lutar. “Não burnout” não significa que se esteja entusiasmado. Ao reconhecermos que muitos de nós estejamos a sofrer de languishing, podemos começar a dar voz ao desespero silencioso e iluminar um caminho para sairmos do vazio...

Portanto, é importante reconhecer que as coisas não estão bem e que este problema emocional surge em função quase exclusiva da pandemia. Procurar elevar a motivação suprimida, não nos autodiagnosticarmos como “fracassados” ou depressivos (pelo estado de paralisação que o languishing provoca), procurarmos fazer as coisas que mais gostamos, não perder a esperança, mesmo parecendo muito difícil, e acreditar em dias melhores é primordial Para tentar evitar esse tipo de apatia é importante mantermo-nos activos. Controlar o humor, procurar ter uma ótima noite de sono, preencher o tempo livre com atividades, não alterar negativamente a rotina, dar valor aos actos realizados, aumentar a interação social (mesmo que virtual), cuidarmo-nos fisicamente e resgatar a alegria pode bem combater o estado apatia provocada pelo languishing.



 

Se quiserem saber mais, pesquisem no New York Times, o artigo de Adam Grant intitulado “There’s a Name for the Blah You’re Feeling: It’s Called Languishing”, no qual me baseei livremente, e na na Vogue UK: “Still Languishing? Here’s How To Overcome It”.

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“Bem Bom", o filme sobre as Doce já está em exibição nas salas de cinema e que alegria foi poder reviver canções que fizeram parte da minha infância e inicio de adolescência. Bom, eu disse “já está”, mas deveria ter dito “finalmente”, pois este biopic musical de Patrícia Sequeira, um dos filmes nacionais mais aguardados dos últimos tempos, teve a estreia adiada várias vezes devido à infame pandemia de Covid-19. O filme inspira-se “livremente” em factos reais para contar a história das Doce, uma das mais icónicas bandas portuguesas.

Com Carolina Carvalho, Bárbara Branco, Ana Marta Ferreira e Lia Carvalho nos papéis principais, “Bem Bom” retrata a história da formação da girl band portuguesa. Além de se focar nos primórdios da banda e em todos os obstáculos que, enquanto mulheres, ultrapassaram na indústria musical portuguesa da época, é também mostrada a vitória do grupo no Festival da Canção 1982, com a canção que dá título ao filme. No fundo, é a história de como Fátima Padinha, Helena Coelho, Teresa Miguel e Laura Diogo se juntaram para formar aquela que foi uma das primeiras bandas femininas da Europa e a primeira – e sem dúvida a mais icónica – de Portugal.

As Doce originais (imagem de 1982)

Tudo começou pelas mãos do cantor e compositor Tozé Brito e do brasileiro Cláudio Condé, presidente da Polygram, uma das maiores editoras musicais do mundo à época, que surgiram com a ideia de criar um grupo musical diferente. Assim, quatro jovens são contratadas para formar o quarteto feminino Doce, que se estreou em 1980 com o single "Amanhã de manhã", o primeiro entre vários sucessos do grupo. Com quatro mulheres fortes, mas com personalidades muito diferentes, o início não foi o mais fácil – nem sequer o resto do trajeto – porém, conseguiram alcançar um sucesso desmedido e uma popularidade ímpar. O filme expõe os diversos obstáculos que as Doce foram ultrapassando ao longo da carreira, até à vitória no Festival da Canção de 1982. Apenas se centra neste período específico, pois as Doce não terminaram neste ano, ficando activas até 1986, mas consegue mostrar como, ao longo do seu percurso, conseguiram alterar completamente o panorama musical e social português, no início dos anos 80. Isto porque seguir de forma fiel a premissa do filme, a de contar a história do início da banda e da importância que a mesma teve no panorama musical e no contexto social do país, foi mais importante do que centrar-se em todos os pormenores, de todos os anos, da existência do grupo. Em Portugal, as Doce marcaram – e muito - a primeira metade da década de 1980, tendo contado com quatro participações no Festival da Canção. Apenas saíram vencedoras da edição de 1982, à qual concorreram com "Bem bom", canção que levaram ao Festival Eurovisão (realizado no Reino Unido) e que veio dar o nome ao filme.


No seguimento de um considerável número de filmes biográficos sobre artistas, tanto portugueses – “Variações”, como estrangeiros “Rocket Man” (Elton John) ou “Bohemian Rhapsody” (Freddie Mercury), “Bem Bom” também chega com a difícil missão de fazer jus ao trabalho de quatro mulheres que encantaram (e chocaram) todo um país. No entanto, esta longa-metragem de Patrícia Sequeira – a mesma cineasta de "Snu" e "Jogo de Damas", bem como de séries televisivas como "Conta-me Como Foi", "Terapia” ou "Depois do Adeus" –, consegue, de forma livre, fazer isso e muito mais, ao retratar a realidade portuguesa da época. O casting não poderia estar mais perfeito: a actriz Carolina Carvalho surge como Helena Coelho, Bárbara Branco como Fátima Padinha, Lia Carvalho como Teresa Miguel e Ana Marta Ferreira como Laura Diogo. Para desempenhar as Doce neste seu filme, Patricia Sequeira queria actrizes muito especiais. E conseguiu! O seu trabalho conjunto é a grande riqueza de “Bem Bom”, para além do ritmo muito bem conseguido e de uma fotografia sublime. José Raposo, Ana Padrão, João Vicente e José Mata também fazem parte do excelente elenco.

Não percam este filme que recria muito bem o nascimento e afirmação do saudoso grupo pop “Doce”, que interpreta as histórias e dramas das quatro mulheres que deram vida àquele grupo ousado que veio a chocar tanto puritanos, quanto feministas. De tudo o que foram e representam, e do seu legado, que merece ser respeitado e celebrado, como faz este “Bem Bom”. E, acreditem, vão sair de lá a cantar, a dançar e muito bem-dispostos. Pelo menos foi isso que aconteceu na minha sala de cinema...



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Já era sem tempo... Grupo Lego e Mattel, dois dos maiores fabricantes de brinquedos do mundo, estão a encorajar as crianças a brincar sem fazer mal ao ambiente. Isto porque, no âmbito da indústria de brinquedos, o consumidor está a ficar cada vez mais preocupado com o futuro e a tornar-se mais amigo do ambiente. Daí que os fabricantes estejam a começar a intensificar os seus esforços e a tentar não prejudicar o ambiente. Ora vejamos...

O Grupo Lego apresentou um protótipo de um tijolo Lego criado de plástico reciclado, o último passo para tornar os produtos da marca feitos de materiais sustentáveis. Este novo protótipo, que usa plásticos PET de garrafas recicladas, é o primeiro tijolo feito de materiais reciclados a cumprir os elevados padrões de qualidade e de segurança do Grupo Lego. O novo protótipo, que usa plástico PET (polyethylene terephthalate) de garrafas descartadas, é o primeiro tijolo feito de material reciclado a atender aos rígidos requisitos de qualidade e segurança da empresa.


Uma equipa de mais de 150 pessoas está a trabalhar para encontrar opções sustentáveis para os produtos do Grupo. Ao longo dos últimos três anos, cientistas e engenheiros testaram mais de 250 combinações de variações de materiais PET e centenas de outras fórmulas de plástico. O resultado é um protótipo que reúne vários dos requisitos de segurança, qualidade e funcionalidade – incluindo o poder de encaixe!

Levará ainda algum tempo até que os tijolos feitos de plástico reciclado apareçam nas caixas dos produtos Lego. Esta equipa prosseguirá a testar e a desenvolver a fórmula para animais de estimação e, em seguida, avaliará se deve passar para a fase de produção piloto. Para que se tenha uma noção, esta próxima fase de testes deve levar, pelo menos, um ano. O protótipo é feito de plástico reciclado, proveniente dos Estados Unidos da América, em cumprimento com as normas da FDA (Food & Drug Administration) e da AESA (Autoridade Europeia da Segurança Alimentar) para garantia de qualidade. Em média, um litro de plástico é suficiente para produzir dez tijolos 2x4.

Sobre o processo, Tim Brooks, Vice-Presidente de Responsabilidade Ambiental do Grupo Lego, defende: “Sabemos que as crianças se preocupam com o ambiente e queremos fazer os nossos produtos mais sustentáveis. Mesmo sabendo que ainda vai demorar algum tempo até sermos capazes de produzir tijolos feitos de plástico reciclado, queremos que as crianças saibam que estamos a trabalhar para isso e que os queremos nesta viagem connosco. Tentativa e erro é uma parte importante na aprendizagem e na inovação. Tal como as crianças constroem, desconstroem e voltam a construir com tijolos Lego em casa, nós estamos a fazer o mesmo no nosso laboratório.”


Este processo inovador usa uma tecnologia de composição sob medida para combinar o PET reciclado com aditivos de reforço. O protótipo de tijolo reciclado é o mais recente desenvolvimento para tornar os produtos do Grupo Lego mais sustentáveis. Em 2020, a empresa anunciou que começaria a remover o plástico descartável das suas caixas. E em 2018, passou a produzir elementos de Biopolietileno (Bio-PE), feito a partir de cana-de-açúcar de origem sustentável. Muitos sets Lego contêm elementos feitos de Bio-PE, que são perfeitos para fazer peças menores e mais suaves, como árvores, galhos, folhas e acessórios para minifiguras. Porém, o Bio-PE não é adequado para fazer elementos mais duros e mais fortes, como os icónicos blocos da Lego.


E em jeito de concluão, Tim Brooks, afirma: “Estamos muito entusiasmados com este avanço. O nosso maior desafio no caminho para a sustentabilidade é repensar e recriar materiais que sejam tão duráveis, resistentes e de tanta qualidade como os dos tijolos existentes – e que continuem a encaixar na perfeição com os tijolos criados nestes 60 anos. Com este protótipo podemos mostrar os progressos alcançados.”



A Lego não está apenas preocupada com o ambiente, mas também com os valores sociais. Assim e de modo a celebrar a diversidade, o Grupo lançou o LEGO® Todos São Incríveis, o modelo de construção inspirado na bandeira arco-íris, um símbolo de amor e aceitação pela comunidade LGBTQIA+, contendo 11 minifiguras monocromáticas, cada uma com uma cor do arco-íris e um estilo de penteado único. Este set, composto por 346 peças, possui dimensões (10,24 cm de altura e 12,80 cm de largura) pensadas para que se possa orgulhosamente exibi-lo numa prateleira ou num peitoril de uma janela. Sobre este original set Matthew Ashton, Vice-Presidente de Design afirmou: “Eu queria criar um set que simbolizasse a inclusão e celebrasse toda a gente (..) Todos são únicos e com um pouco mais de amor, aceitação e compreensão no mundo, nós podemos sentir-nos mais à vontade para ser o nosso “eu” verdadeiramente incrível!”



Por seu turno, a Mattel acabou de lançar uma coleção de bonecas Barbie feita de plástico 90% reciclado do oceano. Apelidada de Barbie Loves The Ocean, esta coleção representa um grande passo na meta da Mattel em atingir materiais plásticos 100% reciclados, recicláveis ou de base biológica em todos os seus produtos e embalagens até 2030.


Segundo Richard Dickson, Presidente e Diretor de Operações da Mattel: “Este novo lançamento Barbie é mais uma adição ao portfólio crescente da Mattel de marcas voltadas para um propósito que inspiram a consciência ambiental com o nosso consumidor como um foco principal”. E acrescenta: “Na Mattel, capacitamos a próxima geração a explorar as maravilhas da infância e atingir todo o seu potencial. Levamos esta responsabilidade a sério e continuamos a fazer a nossa parte para garantir que as crianças também herdem um mundo cheio de potencial”.



A coleção Barbie Loves The Ocean traz três bonecas cujos corpos são feitos de 90% de peças plásticas recicladas e vem acompanhada do playset de cabana de praia também feito de plástico 90% reciclado. A marca também garante que os seus elevados padrões de fabrico entregarão a mesma qualidade esperada de uma boneca de renome mundial.





Já Lisa McKnight, Vice-Presidente Sénior e Diretora Global de Barbie e Bonecas da Mattel, defende que “O nosso legado de 62 anos está repleto de evolução, à medida que impulsionamos de forma consistente iniciativas projetadas para refletir melhor o mundo que as crianças veem ao seu redor. Barbie Loves The Ocean é um excelente exemplo de inovações sustentáveis que faremos como parte da criação de um futuro ambiente onde as crianças possam prosperar". E finaliza: “Somos apaixonados por alavancar o escopo e o alcance de nossa plataforma global para inspirar as crianças a fazerem parte da mudança que desejam ver no mundo”.




 

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Sabem porque o Dia Internacional do Orgulho LGBT é assinalado a 28 de junho? Eu explico! O Dia do Orgulho, ou Pride Day, é celebrado nessa data por comemorar os distúrbios de Stonewall, considerado o evento mais importante do movimento de libertação gay nos Estados Unidos (e do mundo). Isto porque 1969, ano em que nasci, foi emblemático a vários níveis. Não só se chegou à lua, como se assinalou, de forma infeliz, o movimento gay. Tudo aconteceu no “Stonewall Inn”, um bar de Greenwich Village em Manhattan, Nova Iorque, popular na época entre a comunidade LGBT. As manifestações começaram no início da manhã de 28 de junho de 1969, após a polícia ter invadido o “Stonewall Inn”.

Quando meia dúzia de policias invadiu este bar gay mal eles sabiam que as suas ações iriam desencadear um movimento que remodelaria as vidas das gerações futuras. Cerca de 200 pessoas - lésbicas, gays, transgéneros e drag queens - foram forçosamente empurradas para a Christopher Street. Porém, subitamente, uma multidão voltou-se contra os policias, que se retiraram para sua segurança. Os gays estavam habituados a fugir da polícia, porém, desta vez eram eles que avançavam e os uniformizados que se retiravam.

O movimento pelos direitos dos homossexuais não começou apenas na noite daquele dia, mas foi revigorado pelo que aconteceu horas e dias depois. E todos os avanços feitos desde então, como a igualdade no casamento e uma sociedade mais receptiva, devem muito aos jovens que lutaram contra a polícia e aos activistas que se organizaram depois.

Stonewall foi descrito como o momento Rosa Parks pelos direitos dos homossexuais. E tal como a recusa de Parks em ceder o seu lugar, num autocarro do Alabama, a um homem branco teve o efeito de animar o movimento pelos direitos civis 14 anos antes, Stonewall “eletrificou” o impulso pela igualdade gay. Na América dos anos 1960, gays e lésbicas eram, efectivamente, fora da lei, vivendo em segredo e com medo. Eles foram rotulados de loucos por médicos, imorais por líderes religiosos, desempregados pelo governo, predatórios por programas de televisão e criminosos pela polícia. Na época, as relações sexuais consensuais entre homens ou mulheres eram ilegais em todos os estados dos EUA, exceto Illinois. Os Gays não podiam trabalhar para o governo federal ou militar, e assumir a homossexualidade negaria a licença em muitas profissões, incluindo direito e medicina.



Apesar de um número crescente de homens e mulheres gays se terem mudado para a cidade de Nova Iorque vindos de todos os Estados Unidos, milhares eram presos todos os anos na cidade por "crimes contra a natureza", aliciamento ou comportamento obsceno. Alguns tiveram os seus nomes publicados em jornais, o que significava que perderam os seus empregos. Até o facto de alguém possuir menos de três peças de roupa podia colocá-lo em algemas. O ambiente que se vivia era tal como um barril de pólvora à espera de pegar fogo. E foi isso que aconteceu no dia 27 de Junho de 1969. Na noite mais quente do verão, tudo o que essa caixa de pólvora precisava era de uma simples faísca.


Cerca de seis policias - incluindo aqueles que lideravam a divisão de moral pública do NYPD - atravessaram a Christopher Street e entraram no bar, onde colegas disfarçados já se encontravam dentro. As luzes acenderam-se, a música parou e a polícia instruiu as pessoas a mostrarem as suas identidades ao saírem. Os clientes expulsos espalharam-se pela rua. No início, a atmosfera era calma, até festiva. Porém, o clima mudou quando uma lésbica foi maltratada pela polícia enquanto tentavam colocá-la num carro. E o que começou com moedas a serem arremessadas contra a polícia, logo se transformou em pedras e garrafas.


As rusgas em bares gay eram uma ocorrência regular, mas desta vez os agentes agressivos foram desafiados por clientes furiosos e perderam o controlo da cena. Clientes e transeuntes começaram a se reunir do lado de fora do bar e a situação transformou-se num tumulto total. Seguiram-se mais três noites de agitação.

 

Como já havia dito, tal evento é considerado um marco na defesa da comunidade LGBT nos Estados Unidos, uma resposta coletiva à frustração gerada pela homofobia da época, em particular a hostilidade da aplicação da lei e a ausência de qualquer lei para proteger os gays. Em 2016, o ex-presidente dos EUA, Barack Obama, estabeleceu o Monumento Nacional Stonewall na área, como um lembrete do poder de permanecerem juntos contra aqueles que procuravam dividir.



Portanto, os motins de Stonewall foram protestos importantes que ocorreram em 1969 nos Estados Unidos e que mudaram os direitos dos homossexuais para muitas pessoas na América e em todo o mundo. E hoje, quando se fala de “Orgulho” (Pride) trata-se de referir a celebração de pessoas que se unem em amor e amizade, para mostrar o quão longe os direitos LGBT chegaram e como em alguns lugares, infelizmente, ainda há trabalho a ser feito.

 

Por isso, Junho é mês do “Orgulho” por excelência, sobre aceitação, igualdade, celebração do trabalho das pessoas LGBT, educação na história LGBT e aumento da conscientização sobre as questões que afetam a comunidade LGBT. Também lembra as pessoas como a homofobia foi e ainda pode ser prejudicial...

 

A sugestão de chamar o movimento de “Orgulho” veio de L. Craig Schoonmaker que em 2015 disse: “Muitas pessoas eram muito reprimidas, estavam em conflito interno e não sabiam se expor e se orgulhar. É assim que o movimento foi mais útil, porque eles pensaram: Talvez eu deva ficar orgulhoso.” Porque “Orgulho” é ter orgulho de quem se é, sem importar quem se ame.



Já agora, convém clarificar o que a denominação LGBT significa. Esta é a mais usada, assim como a LGBTQ+. Contudo, há algum tempo, o movimento passou a usar a sigla LGBTQIA+, mais composta e que irei esclarecer abaixo. Ela é uma versão reduzida de LGBTT2... 

 

Portanto, LGBT, LGBTQ+, LGBTQI+, LGBTT2QQIAAP… afinal, o que significam todas essas letras que designam a comunidade de pessoas com orientação sexual e identidade de género que divergem da heterossexual/cisgénero?

 

Antes da explicação, é importante entender por que esta sigla existe e como se deu a sua evolução. O seu principal objetivo é unir as pessoas que fazem parte da comunidade para que se sintam reconhecidas e representadas.

 

A primeira sigla a tornar-se conhecida foi a GLS, que significa gays, lésbicas e simpatizantes. Criada em 1994, ela logo caiu em desuso, pois "simpatizantes" poderia designar qualquer pessoa, inclusive quem fosse hétero e apoiasse a causa, tirando o protagonismo da comunidade. Então, a sigla passou a ser GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgéneros), até finalmente se tornar LGBT pela pressão feita por mulheres que sofriam desigualdade de género e invisibilidade dentro do movimento.

 

De alguns anos para cá, o Q e o + foram acrescentados para englobar também outras identidades de género, e a sigla LGBTQ+ passou a tornar-se a mais conhecida (e correcta) para designar a comunidade. Mas o que significa: 

Esta sigla tem duas partes. A primeira, LGB se refere à orientação sexual do indivíduo, que pode ser:

L: lésbica, mulher que se identifica como mulher e tem preferências sexuais por outras mulheres.

G: gays, homens que se identificam como homem e têm preferências por outros homens.

B: bissexuais, que têm preferências sexuais por ambos os géneros.



A segunda parte, TQI+, diz respeito ao género em si:

T: transexuais, travestis e transgéneros, que são pessoas que não se identificam com os géneros masculino ou feminino atribuídos no nascimento com base nos órgãos sexuais.

Q: questionando ou Queer, palavra em inglês que significa “estranho” e, em alguns países, ainda é usado como termo pejorativo. É usado para representar as pessoas que não se identificam com padrões impostos pela sociedade e transitam entre os géneros, sem concordar com tais rótulos, ou que não saibam definir o seu género/orientação sexual.

I: intersexuais, que apresentam variações em cromossomos ou órgãos genitais que não permitem que a pessoa seja distintamente identificada como masculino ou feminino. Antes, eram chamadas de hermafroditas.

+: todas as outras letras do LGBTT2QQIAAP, que não pára de crescer — os “as”, por exemplo, significam assexuais (pessoas que não sentem atração sexual) e aliados (pessoas que se consideram parceiras da comunidade).



E com o fim do mês do “orgulho” (hoje termina Junho), não se pense que a causa fica adormecida até por um ano. Nada disso! O “Orgulho Gay” não só é comemorado pelo público gay, como também por todas as pessoas que apoiam a diversidade e respeitam o amor. E isso prossegue, não tem fim. E além disso, há uma mobilização constante para consciencializar a população mundial sobre a importância da inclusão, da igualdade e do combate à LGBTfobia. Porque é muito mais do ser-se apenas gay, é um sentir orgulho por poder ser-se quem é sem qualquer medo ou constrangimento. E lembrar que somos todos iguais, que todos devemos ter direitos iguais, acesso e respeito iguais.




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Numa altura difícil para todos, com a pandemia a acelerar o fim de grande parte da imprensa escrita um pouco por todo o mundo, a F Luxury sobrevive estoicamente e lança a sua nova edição. E que edição!

Sem dúvida, temos assistido ao fim progressivo de edições impressas que afeta toda a cadeia de produção: dos jornalistas aos pontos de venda, passando pelas gráficas e distribuidores. Desde o início da crise do infame Coronavírus, o declínio da imprensa escrita acelerou e a audiência digital dos meios disparou. Era expectável tal acontecer, com inúmeros confinamentos a obrigar a ficar em casa. E, por isso, a “mítica” Elle portuguesa foi descontinuada, um ano após a Máxima se ter extinguido. E a GQ passou a trimestral... sem dúvida, tem havido profundas transformações no mercado de revistas, aceleradas pela pandemia, o que é de lamentar.

 

Quanto à F Luxury, acaba de sair para bancas selecionadas a sua Edição Especial de Verão, com o actor José Fidalgo na capa. Um sonhador que se tornou galã em vários episódios da dramaturgia portuguesa ao longo de 20 anos, deixando também a sua marca no Brasil e Angola.



Ao folhear a revista, poderão também ver uma sublime e glamourosa produção marítima com a Chanel a bordo do barco da Happy Dream. E porque evadir está na ordem do dia, com tantas viagens adiadas devido à Covid-19, a revista propõe alguns dos principais destinos de luxo a conhecer ainda este ano, a desfrutar da Grécia, a experienciar um jantar sob a estrelas ou a incorrer num roteiro gastronómico pelo mundo e descobrir a riqueza culinária de vários países, com o nosso país incluído, num artigo por mim assinado.




Mostrando sempre o lado mais belo da vida, muito mais há para descobrir na nova F Luxury, ou não tivesse a revista 132 páginas. Uma verdadeira coffee table magazine por excelência, que se quer ler e reler sem fim. E fazendo eu parte de tão ilustre projeto editorial, esta é mais uma edição que me traz grande contentamento, por continuar bonita por dentro e por fora, e por, mais uma vez, brilhar e marcar presença nas bancas para que todos possam desfrutar da sua leitura. Espero que a comprem, assim como outras revistas, pois ao fazê-lo não só estão a adquirir uma ótima companhia para as vossas férias, como também a contribuir para a boa saúda da imprensa em Portugal.




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Eis um filme que certamente vai marcar o nosso verão. Quando fui à antestreia, não sabia bem ao que ia, mas saí do cinema maravilhado. Saibam porquê...

O criador do musical da Broadway “Hamilton” e o realizador de filmes como “Asiáticos Doidos e Ricos” juntaram-se para dar vida a um evento cinematográfico, onde os pequenos sonhos se tornam gigantes e as ruas se enchem de música... “Ao Ritmo de Washington Heights” é uma fusão da música e letras de Lin-Manuel Miranda com a visão animadora e autêntica do realizador Jon M. Chu.

As luzes acendem-se em Washington Heights, um bairro da periferia de Nova Iorque… o cheiro a café quente (cafecito caliente) paira no ar mesmo à porta do metro da 181st Street, onde uma miríade de sonhos se reúne entre uma comunidade latina unida. Na intersecção de tudo isto, Usnavi de la Vega (Anthony Ramos), dono de uma simpática e magnética mercearia, trabalhador e prestável, vive esperançoso, cantando e almejando por uma vida melhor. Mas se Usnavi é o principal protagonista, o filme é ainda formado por diversas e carismáticas personagens que ganham espaço na narrativa. Nina (Leslie Grace), é uma jovem universitária que sente pressão para voltar à faculdade, mas não sabe bem se é issso que realmente deseja. Por sua vez, ela é alvo da paixão de Benny (Corey Hawkins), um operador de tráfego automóvel que é empregado na empresa do pai (Jimmy Smits) da jovem que ama. Ainda temos Vanessa (Melissa Barrera), que trabalha no salão de beleza da comunidade latina, mas sonha em sair do bairro e fazer carreira no mundo da moda, enquanto vive um "quase romance" num eterno flirt com Usnavi.



Quando estreou na Broadway em 2008, o primeiro quadro de “In the Heights” mencionava Donald Trump como um exemplo de sucesso financeiro na canção "96,000". Para a adaptação que chega agora aos cinemas, uma das primeiras mudanças foi a retirada do nome do ex-presidente norte-americano. Mas para quem viu o musical original, existem outras mudanças significativas no enredo. A ordem das canções resulta diferente, Nina perdeu a sua mãe, enquanto as animadas Carla (Stephanie Beatriz) e Daniela (Daphne Rubin-Vega) formam um casal. E apaga a questão financeira central da Abuela Claudia, a matriarca da comunidade latina, que era o fio condutor da peça. Porém, Quiara Alegría Hudes, a mesma argumentista do musical, mostra como soube adaptar o seu próprio texto para os ecrãs, sem perder a alma da história, nem relevância política, numa sociedade que, infelizmente, ainda ignora as minorias.



Existem tantos elementos que fazem parte do original de palco que é de se tirar o chapéu a este realizador por ter conseguido encaixar tanta coisa no ecrã: a celebração da herança latina, de uma área em Nova Iorque, do fenómeno migratório, de diferentes sentimentos, relações, culturas... Jon M. Chu é o realizador responsável por esta adaptação ao cinema do musical da Broadway passado na zona de Washington Heights, em Nova Iorque, e as cenas musicais de “Ao Ritmo de Washington Heights” são verdadeiramente de tirar o fôlego, transbordando energia, cheias de pirotecnias, grandes figurinos e malabarismos visuais. E existe uma coreografia incrível - atentem bem - na cena da piscina, que remonta para os musicais aquáticos de Esther Williams.



Mas é precisamente no visual mais comum das ruas do bairro e das personagens centrais que reside a alma deste filme. São as sensacionais danças, fiestas, bandeiras coloridas de Porto Rico, México, Cuba, Brasil e muitas outras alçadas com energia por moradores que cantam “Carnaval del Barrio” e protagonizam coreografias vibrantes ao som da batida latina das canções de Lin-Manuel Miranda que fazem desta experiência cinematográfica, singular e épica. Com “Ao Ritmo de Washington Heights”, Lin-Manuel Miranda consegue imprimir o DNA latino nos musicais. O filho de porto-riquenhos assume-se como um interessante (e caliente) sopro de vida no género. Inclusive, participa no filme como Mr. Piragüero. Este jovem adentrou o universo dos musicais com o pé direito, pois “In the Heights” ganhou o Tony — o Oscar do teatro — em 2008, e o Grammy no ano seguinte. Também aqui, as músicas são outro dos atrativos, onde Lin-Manuel inusitadamente mistura hip-hop, pop, salsa, bolero e outros ritmos de todas as Américas para compor diálogos, declarações de amor e discussões, mas também quadros que são puro espetáculo. Tratando-se de um musical, onde as partes cantadas tomam boa parte do tempo de tela, há também muitos diálogos falados, o que pode constituir um alívio para quem ainda não se sinta muito confortável com o género.




Sendo um delírio otimista, “Ao Ritmo de Washington Heights” não deixa de chamar a atenção para a infeliz realidade que subsiste, das dificuldades enfrentadas pela comunidade latina do bairro de Washington Heights. E embora sejamos guiados pelo sonho de Usnavi em voltar para a terra dos seus pais, na República Dominicana, cada uma das personagens ao seu redor é guiada pelo seu próprio sueñito - seja de se encaixar, de conseguir uma educação, de mudar de casa ou de se legalizar.



“Ao Ritmo de Washington Heights” tem tudo para agradar e tornar-se o filme deste verão. Sem vilões, drogas ou crime, é uma história contada por latinos com muito amor pela sua cultura. Um filme que é um deleite para os olhos, mas que é também um convite para sonhar. Quebrando estereótipos, trata-se de um grito poético, mas também político contra a marginalização das comunidades imigrantes nos Estados Unidos. Um musical latino, feito por latinos, sobre o sonho americano.




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Quem, como eu, tem acompanhado o mundo da pop e da moda nas últimas décadas, certamente já se deparou com trabalhos do fotógrafo americano David LaChapelle. Afinal, ele já fez registos fenomenais dos maiores artistas mundiais, como Madonna, Gisele Bündchen, Moby, Mariah Carey, Uma Thurman, Elton John, Whitney Houston, No Doubt, entre outros. Além disso, realizou videoclipes de Jennifer Lopez, Macy Gray, Avril Lavigne, Christina Aguilera, Blink-182, Moby – o aclamado “Natural Blues”, vencedor de um prémio MTV para Melhor Vídeo do Ano –, entre muitos outros. O pop e a moda, certamente, ganharam novos contornos graças ao trabalho de LaChapelle.

 

Nascido em Connecticut, EUA, em 1963, LaChapelle estudou Belas Artes na North Carolina School of the Arts. Após concluir o curso, foi para Nova Iorque, onde estudou simultaneamente na Arts Student League e na School of Visual Arts, tendo trabalhado como empregado no antigo Studio 54, de Nova Iorque. Foi lá, no começo dos anos 80, que conheceu Andy Warhol, um dos mais celebres artistas plásticos das últimas décadas. Impressionado com o seu trabalho, Warhol convidou-o para trabalhar como fotógrafo na Interview Magazine, tinha ele 18 anos. Também o apresentou aos seus amigos famosos, dando ainda mais destaque ao trabalho do recente fotógrafo. David acabou por fazer registos de celebridades de Hollywood, como Tori Spelling, Drew Barrimore, Leonardo DiCaprio e Cher, por exemplo. As suas fotos de celebridades na seção de entrevistas da Interview renderam-lhe bons comentários, e logo ele viu-se a tirar fotografias para as melhores editoras...



 

No final dos anos 1980 e início de 1990, LaChapelle já era um dos fotógrafos mais requisitados dos grandes artistas e das principais publicações de moda do mundo, como a Vogue ItaliaGQVanity FairRolling StoneVogue ParisVibe e The Face. Mas também fotografou para grandes marcas, como Sky VodkaMTVFordDiesel JeansL’Oreal e muito mais. Embora vivesse fechado no seu estúdio, “a trabalhar todo o tempo”, isso não o poupou de expor em várias partes do mundo. As suas fotografias estão em vários museus e galerias de arte, como a nova-iorquina Staley-Wiseand Toni Shafrazi Galleries, a Fahey-Klein Gallery, e as europeias Art Trend, na Áustria, Camerawork, na Alemanha, Sozzaniand Palazzo delle Esposizioni, em Itália, e Barbican Museum, em Londres, onde conseguiu um recorde de visitantes.




David LaChapelle cresceu profissionalmente e afirmou-se como fotógrafo comercial, fotógrafo de belas-artes, realizador de videoclipes, realizador de cinema e artista americano. Porém, ele sempre foi mais conhecido pela sua fotografia, que geralmente faz referência à história da arte e que, por vezes, transmite fortes mensagens sociais. O seu estilo fotográfico é comummente descrito como "hiper-real e subversivamente astuto" ou "surrealismo pop kitsch". Um artigo de 1996 apelidou-o de "Fellini da fotografia", uma frase que lhe assenta como uma luva e que continua a ser-lhe aplicada. E tal deve-se à forma como mistura os ingredientes numa sua produção, colocando as personagens em situações e em cenários insólitos, com cores exageradas, poses imprevistas e composições caóticas.




Durante anos, as fotografias de David LaChapelle seguiram uma receita viciante: alguma doçura, muito sexo e uma pitada de espiritualidade. O seu amor descarado por todas as coisas artificiais transformou celebridades em seres divinos. Quer tenha sido Kanye West como Jesus, Courtney Love como Virgem Maria ou Michael Jackson como um arcanjo, LaChapelle frequentemente funde o sagrado e o profano.

 

"Eu acredito numa linguagem visual que deve ser tão forte quanto a palavra escrita." afirmou um dia David LaChapelle. “As minhas imagens visam ficar o mais longe possível da realidade. Os sonhos devem fazer parte da nossa vida quotidiana”, acrescentou.



 

kitsch e o exagero abundam em David LaChapelle, que fez o seu nome a fotografar celebridades que colidiam com os detritos do consumidor: bugigangas, flores e fama recombinando-se em delirantes explosões de cor. O seu trabalho possui grande reconhecimento devido ao inusitado das imagens que cria, onde acaba por revelar um mundo surreal, por meio de imagens ultrassaturadas que combinam glamour com fantasia, beleza e, para alguns, até bizarro. Há algo na fotografia de David LaChapelle que, apesar de parecer estranho, parece-nos, no entanto, familiar. Parece que nas suas fotografias, o familiar se tornou estranho.




Nos anos noventa e no início dos anos 2000, a sua estética engenhosa, que se erguia abundantemente entre a pompa cristã e os pintores renascentistas, era inesgotável, espalhada por editoriais de moda, anúncios e videoclipes. Em 2007, tendo sido ridicularizado em alguns sectores devido a um comercial insípido, David acabou por deixar a actividade e fugiu para Maui, onde vivia numa colónia de nudismo fechada. Numa entrevista recente ao The Guardian, ele disse que precisava de escapar da "propaganda" embutida no seu trabalho. “Eu nunca quis filmar outra estrela pop enquanto vivi”, disse ele. “Fui torturado por elas.” Porém, algo que ninguém pode questionar é a abordagem singular e inovadora de tudo o que cria. Afinal, a sua estética exageradamente colorida é única. Afinal, David LaChapelle é o único artista da fotografia em atividade até hoje. E tem conseguido manter com sucesso um profundo impacto no campo da fotografia de celebridades, bem como na notoriamente exigente intelectualidade da arte contemporânea. Apreciem, a seguir, alguns dos seus trabalhos e percebam as suas referências em arte clássica, barroca e pop.























































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