Há histórias que atravessam gerações e que julgamos conhecer de cor. Mas e se alguém decidisse reinventá-las, acrescentar-lhes uma boa dose de humor, música pop e referências aos dias de hoje? Foi precisamente isso que encontrei em “O Feiticeiro de Oz – Um Musical Pop”, uma produção da ArtFeist que tive o prazer de assistir, a convite, no passado dia 16 de outubro, no Auditório do Casino Estoril. E que bela surpresa!
Confesso que saí do teatro com um sorriso no rosto. Diverti-me imenso, ri-me e deixei-me conquistar por um espetáculo que consegue ser simultaneamente divertido, inteligente e enternecedor. E não, não é apenas para crianças. Os adultos também encontram aqui motivos de sobra para se divertirem, sobretudo graças a um humor subtil, cheio de referências contemporâneas e pequenos detalhes que tornam esta adaptação particularmente saborosa.
Dorothy trocou o Kansas pelos corredores da escola
Inspirado na obra de L. Frank Baum, publicada em 1900, este musical transporta-nos para uma realidade muito próxima da nossa: uma escola, com adolescentes, amizades, rivalidades, inseguranças e aqueles grupos de populares que todos conhecemos, seja da nossa juventude ou das inúmeras histórias que retratam o universo escolar.
É neste ambiente que encontramos Dorothy, uma jovem que enfrenta os desafios próprios da adolescência, incluindo a troça dos colegas e a dificuldade de encontrar o seu lugar. Até que chega a inevitável tempestade e, com ela, a viagem até ao extraordinário mundo de Oz.
A partir daqui, a história que conhecemos ganha novas cores, novos ritmos e, acima de tudo, uma personalidade muito própria.
Um Espantalho, uma robô e uma Leoa que nos fazem rir
Uma das coisas que mais apreciei foi a criatividade com que as personagens foram reinventadas. O Espantalho continua à procura de inteligência, mas o tradicional Homem de Lata dá lugar a uma espécie de robô, uma personagem particularmente divertida nesta era dominada pela tecnologia e pela inteligência artificial. Tem conhecimento, mas falta-lhe aquilo que nenhuma máquina consegue verdadeiramente experimentar: os sentimentos humanos.
E depois temos a Leoa! Sim, uma Leoa, que substitui o célebre Leão da história original. Uma personagem com uma personalidade muito própria, entre a aparente futilidade, a insegurança e a procura de coragem.
São precisamente estas alterações que tornam o espetáculo tão interessante. Não se trata de mudar por mudar, mas de encontrar novas formas de explorar temas universais, aproximando-os das preocupações e dos comportamentos da sociedade atual.
E as bruxas Glinda e Feiticeira do Oeste? Também elas têm personalidades fortes e momentos deliciosos, contribuindo para um conjunto de personagens que dificilmente passam despercebidas.
O mais interessante é que, por detrás de toda esta diversão, existe uma reflexão sobre a amizade, a empatia, a coragem e a importância de aceitarmos aquilo que somos.
Um elenco que canta, representa e diverte
Se há algo que merece um elogio especial é o elenco. David Gomes, Eva Stuart, Filipa Azevedo, Filipa Saavedra, Pedro Simões, Sara Brás, Sara Madeira e Tomás Eira dão vida a este universo com uma energia contagiante. E que vozes!
É um prazer assistir a um musical em que a componente vocal não é apenas um complemento à representação, mas uma das grandes forças do espetáculo. Todos demonstram uma excelente capacidade de interpretação, tanto nos momentos musicais como nos diálogos e nas situações de comédia.
Gostei particularmente da forma como conseguem dar personalidade às personagens, tornando-as divertidas, expressivas e, em determinados momentos, surpreendentemente ternurentas.
O humor merece também uma referência especial. Não estamos perante uma sucessão de piadas fáceis ou exageradas. Há subtileza, ironia, jogos de palavras e referências que os adultos reconhecem imediatamente, enquanto os mais novos se divertem com a ação e as situações caricatas. É precisamente esse equilíbrio que considero um dos grandes trunfos desta produção.
Música pop, criatividade e uma história que continua atual
Com direção artística de Henrique Feist, texto, encenação e letras de Valter Mira e música de FF e Miguel Amorim, “O Feiticeiro de Oz – Um Musical Pop” aposta numa linguagem contemporânea sem perder a ligação à obra que lhe deu origem.
A música acompanha o ritmo da narrativa, alternando momentos mais enérgicos com outros de maior sensibilidade, numa combinação que funciona particularmente bem.
E há algo que me agrada muito neste tipo de adaptações: a capacidade de recuperar uma história conhecida e mostrar que ainda tem tanto para nos dizer.
Porque, no fundo, os problemas que a Dorothy enfrenta na ficção original não são assim tão diferentes daqueles que muitos jovens vivem atualmente. A necessidade de pertencer a um grupo, o medo de ser diferente, a procura de confiança e o valor da verdadeira amizade continuam tão relevantes hoje como há mais de um século.
Tudo isto é apresentado sem discursos moralistas ou lições demasiado evidentes. A mensagem está lá, mas surge naturalmente, entre canções, gargalhadas e momentos de cumplicidade.
Uma viagem a Oz que recomendo sem hesitar
Há espetáculos que conseguem reunir vários elementos, como a dimensão da produção, música e qualidade das interpretações, e proporcionar-nos algo tão simples e tão valioso como um espetáculo genuinamente feliz. Foi isso que senti ao assistir a “O Feiticeiro de Oz – Um Musical Pop”.
Gostei da criatividade, das personagens, das vozes, do humor e, sobretudo, da forma como esta versão consegue respeitar o espírito da história original sem receio de lhe dar uma identidade completamente nova. É um espetáculo para diferentes gerações, que diverte os mais pequenos e oferece aos adultos uma segunda camada de humor e reflexão.
Saí do Auditório do Casino Estoril com aquela sensação maravilhosa de ter passado um tempo muito bem passado. E, para mim, isso é uma das melhores coisas que o teatro nos pode oferecer. Se tiverem oportunidade, sigam esta Estrada Amarela. Vale mesmo a pena!








