Digam lá se não concordam comigo: há qualquer coisa de profundamente reconfortante em estar sozinho. E digo isto sendo uma pessoa extremamente sociável, que gosta de conversar, de sair, de estar rodeado de amigos, de rir alto à mesa ou de estar num sunset rodeado de pessoas. Mas também descobri, talvez mais nos últimos anos, que há um lado meu que precisa sempre de algum silêncio, da ausência de ruído, de tempo sem notificações, sem obrigações sociais e sem a pressão constante de “ter de estar”.

 

Curiosamente, durante algum tempo, achei que isso poderia ser estranho. Vivemos numa sociedade que parece ter medo da solidão. Ir sozinho ao cinema continua a parecer estranho para muita gente. Jantar sozinho num restaurante ainda motiva olhares. Viajar sozinho, então, quase parece um sinal de tristeza para alguns. Como se estar sozinho fosse automaticamente sinónimo de abandono, de um certo fracasso social ou de falta de amigos. E não é, de todo. Há dias em que o melhor programa que posso ter é, simplesmente, estar comigo mesmo. Sem horários, sem qualquer conversa. Sem ter de agradar alguém. E isso não significa isolamento, significa equilíbrio.

 


 

O medo de parecer “sozinho”

 

A verdade é que a solidão não é uma coisa só, tipo preto no branco, que possamos rotular apenas como boa ou má. A solidão é totalmente subjetiva e não tem nada a ver com o sítio onde estamos. Por exemplo, podemos sentir-nos sozinhos no meio de uma multidão em Times Square ou sentir-nos super acompanhados isolados no meio do nada.

 

Mas há aqui um ponto importante: o escritor norte-americano David Foster Wallace alerta que, muitas vezes, isto está ligado a este individualismo moderno. É aquela mania de acharmos que somos os únicos autores de tudo o que nos acontece, dos nossos sucessos e melhorias. É o discurso típico do 'criador de conteúdos' que nos tenta vender a ideia de que só precisamos de nós próprios e de uma 'vontade de ferro' para vencer, enquanto nos cobra uma fortuna por uma mentoria ("coaching").

 

Vamos ser honestos: essa autonomia é uma falácia. Mais tarde ou mais cedo, precisamos dos outros. E quanto mais diferentes de nós eles forem, mais precisamos deles. Tudo o que conquistámos até hoje, inclusive o que esse tal criador de conteúdos conquistou, é fruto de um esforço coletivo.

 

O filósofo espanhol Omar Linares, terapeuta e autor de “La consulta del filósofo”, também vai nesse sentido. Ele liga estes discursos da 'solidão desejada' a uma moda atual de um autocuidado mal-interpretado. É aquela conversa que empurra pessoas que já são egocêntricas a priorizarem-se ainda mais, o que acaba por ter resultados terríveis. E há outro ponto sensível, que se pode tornar perigoso: quanto mais tempo passamos a viver sozinhos, mais manientos e inflexíveis ficamos, simplesmente porque nos desabituamos de ceder e ficamos viciados em fazer só o que nos apetece.

 


 

O medo de estar sozinho

 

Indo um pouco mais longe: lembrei-me de uma outra ideia de David Foster Wallace, que comentava que tinha imensos amigos inteligentes que detestavam ler, não por tédio, mas por uma espécie de pavor: o medo de serem obrigados a estar sozinhos e em silêncio. O filósofo Linares também confirma esta ideia. Ele afirma que temos uma dificuldade enorme em lidar com a solidão porque a vemos sempre através do medo. Baralhamos as coisas e confundimos 'estar sozinho' com o 'medo de estar sozinho', mesmo quando já passámos por momentos de isolamento que não nos fizeram mal nenhum.

 

O problema é que projetamos os nossos preconceitos na realidade. De alguma forma, a sociedade andou a meter-nos na cabeça que, se estamos sozinhos, é porque não valemos a pena ou não somos 'dignos' de companhia. Daí vem uma certa vergonha. No fundo, esquecemo-nos de que todos nós já nos sentimos superpreenchidos estando sós, da mesma forma que já todos nos sentimos completamente desconectados e apáticos no meio de uma festa cheia de gente.

 


 

Aprender a estar connosco

 

A verdade é que, sendo eu uma pessoa muito social, também me esgoto facilmente do excesso de estímulo. Há uma altura em que preciso de regressar a mim. E aprendi que isso não é egoísmo, nem melancolia. É quase um mecanismo de sobrevivência emocional, um refúgio, um bálsamo.

 

A solidão escolhida tem uma diferença enorme da solidão imposta. Uma dói, a outra cura. E talvez o problema esteja precisamente aí: nunca fomos ensinados a estar sozinhos. Desde pequenos, habituaram-nos à ideia de que estar acompanhado é sempre melhor. Que uma mesa para um, num restaurante, é triste. Que viajar sozinho é “corajoso”, como se fosse uma coisa extrema. Que ir sozinho a um concerto é estranho. Como se precisássemos permanentemente da validação dos outros para desfrutar da vida.

 

Eu próprio já senti isso. Já entrei num restaurante sozinho e senti quase necessidade de pegar imediatamente no telemóvel, só para parecer “ocupado”. Como se o simples acto de observar o espaço, de jantar calmamente ou de estar em silêncio fosse desconfortável. Mas hoje vejo isso de outra forma. Hoje, há qualquer coisa de quase luxuosa em conseguir estar sozinho, sem ansiedade.

 

E não, não estou a falar de isolamento total. Gosto demasiado de pessoas para isso. Gosto de conversas, de amigos, de encontros inesperados, de eventos, de viagens partilhadas. Mas também adoro aquele momento em que chego a casa, fecho a porta e o mundo parece abrandar. Aquela sensação de, finalmente, não precisar de ser ou representar nada para ninguém.

 

 

O prazer de estar comigo mesmo

 

Talvez seja isso que os entendidos chamam de “treinar o músculo da solidão”. Aprender a estar connosco sem desconforto, sem culpa. Sem achar que temos constantemente de preencher todos os vazios com barulho, mensagens ou companhia.

 

Porque, no fundo, estar bem sozinho é provavelmente uma das maiores formas de liberdade emocional que podemos conquistar. E talvez também uma das mais raras...

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Todos os anos falamos do 25 de Abril. E, ainda assim, nunca é demais. Porque não é apenas uma data. É um símbolo. De liberdade. De conquista. De tudo aquilo que hoje tomamos como garantido, mas que, durante muito tempo, simplesmente não existia.

E talvez por isso me faça cada vez mais confusão ouvir aquela frase tão repetida:
“no passado é que era…” Eu olho para trás e penso: será mesmo?



Quando se percebe que… não, não era melhor

 

Antes do 25 de Abril, a liberdade não era um direito. Era uma exceção. Coisas que hoje nos parecem absolutamente normais eram, na altura, proibidas. E não estamos a falar de grandes actos de rebeldia. Estamos a falar da vida.

 

Beijar em público? Era proibido.
Usar minissaia no liceu? Impensável.
Ajuntamentos com mais de três pessoas? Não eram permitidos.
Entrar numa igreja com a cabeça descoberta, sendo mulher? Não, impossível.
Beber Coca-Cola? Também não.
Jogar às cartas num comboio? Ridículo, mas proibido.

 


E depois há aquilo que, hoje, talvez pese ainda mais quando pensamos: o controlo sobre o corpo das mulheres. Coisas tão simples como ir à praia implicava regras rígidas. O biquíni era interdito. O que vestir, como estar, como existir, tudo era condicionado. Não era só o país que não era livre. Eram as pessoas. Os corpos. As vozes.




A liberdade não é um detalhe

 

Contudo e preocupante, há uma tendência perigosa para romantizar o passado. Para confundir ordem com liberdade. Para esquecer o que significava viver com medo, com limites impostos, com censura. Sim, havia outras coisas. Outros ritmos. Outras formas de viver. Mas não havia escolha. E é precisamente isso que hoje temos.

 


 

E depois há um gesto simples que ficou na história

 

No meio de tudo isto, há algo que sempre me fascinou no 25 de Abril: a simplicidade com que um símbolo nasce.

 

Celeste Caeiro não tinha um cigarro para oferecer a um soldado. O que tinha eram flores, cravos, que estavam a ser distribuídas num restaurante que acabou por não abrir naquele dia. E foi isso que deu. O soldado colocou o cravo no cano da espingarda.
Outros fizeram o mesmo. E, sem planeamento, sem estratégia, nasceu um dos símbolos mais bonitos da nossa história. A chamada Revolução dos Cravos.



No fundo, é isto

 

Portanto, falar do 25 de Abril não é olhar para trás com nostalgia. É olhar com consciência.

É perceber que aquilo que hoje temos, e tantas vezes criticamos ou damos como garantido, vem de um lugar onde não havia voz, não havia escolha, não havia liberdade. E eu penso nisto tudo sempre que alguém me diz que “antes é que era”. Porque, afinal, antes… não era.

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Mesmo depois do Dia da Mulher já ter passado, há coisas que não fazem sentido serem celebradas apenas numa data. O talento, a força, a ambição, o percurso das mulheres: isso não cabe num dia. E talvez por isso este lançamento, embora ocorrido no dia 8 de março, me faça tanto sentido falar dele ainda agora. Porque as mulheres não se celebram num único dia. Celebram-se sempre.

 

Quanto à Barbie, durante anos, foi reduzida a um símbolo estético, quase superficial. Mas, na verdade, esta boneca sempre acompanhou, e muitas vezes antecipou, a evolução do papel da mulher na sociedade. E agora, em 2026, essa transformação ganha uma nova dimensão com o lançamento do Barbie Dream Team, um verdadeiro coletivo de mulheres reais que inspiram, desafiam e abrem caminho.

 

Um grupo de mulheres que fazem história

 

A Mattel reuniu nomes de várias áreas, do desporto à ciência, passando pela cultura, todas com algo em comum: serem pioneiras. Entre elas:

 

Serena Williams, empreendedora e um nome incontornável do ténis mundial

 


 

Kellie Gerardi, astronauta e investigadora, rosto da exploração espacial

 


Chloe Kelly, uma das figuras mais marcantes do futebol feminino

 


 

Stephanie Gilmore, múltipla campeã mundial de surf

 


 

Regina Sirvent, piloto de automóveis profissional

 


 

Helene Fischer, artista influente de música pop

 



Zoja Skubis, conhecida e respeitada escaladora




Smriti Mandhana, uma das maiores estrelas do críquete feminino

 


 


Cada uma foi transformada numa Barbie única. Não apenas como objeto, mas como símbolo. Um reflexo de conquistas reais, com impacto real. Portanto, mais do que bonecas, são histórias reais.

 

Muito além do brincar

 

Este projeto está ligado ao compromisso da marca com o chamado “Dream Gap”, um fenómeno que mostra que, desde muito cedo, muitas raparigas começam a duvidar do seu potencial. A Barbie, que já representou centenas de profissões ao longo da sua história, continua, assim, a reforçar uma ideia simples, mas poderosa: não há limites para aquilo que uma mulher pode ser. Por isso, é tudo menos superficial.

 


 

Quando um ícone entra para a lista das mais poderosas

 

E, pasmem-se, em 2023, a própria Barbie foi incluída na lista da Forbes das mulheres mais poderosas do mundo, tornando-se a primeira personagem fictícia a alcançar esse reconhecimento. Pode parecer inesperado, mas faz todo o sentido.

 

Porque a Barbie nunca foi apenas uma boneca. Foi sempre um espelho cultural. Um símbolo que ajudou a moldar ambições e imaginários ao longo de gerações.

 

Hoje, esse papel está mais consciente, mais inclusivo e mais próximo da realidade. E o que mais me interessa neste Dream Team não é apenas o conceito, é a intenção. Não é sobre perfeição, é sobre representatividade. Sobre diversidade de percursos. Sobre dar palco a mulheres que, cada uma à sua maneira, estão a fazer história.

 

Vivemos numa altura em que tudo é questionado, e ainda bem. Num tempo em que se fala tanto de autenticidade e propósito, até os ícones mais clássicos, como uma simples boneca, mostram que conseguem evoluir sem perder relevância.

 

E talvez seja isso que torna este projeto tão interessante. Porque, no fundo, não se trata de bonecas. Foi sempre sobre aquilo que elas representam. Trata-se de inspiração. E se hoje representam mulheres reais, com histórias reais, com conquistas reais, então talvez este seja o momento em que a Barbie faça mais sentido do que nunca.

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Confesso que acompanhei a missão Artemis II quase como quem segue uma história em capítulos. Não apenas pela tecnologia ou pela promessa de voltar à Lua, mas por aquilo que representa e pelas magnificas imagens que iam sendo partilhadas. E na sexta-feria, dia 10 de abril, chegou, finalmente, o momento mais tenso de todos. O regresso à Terra. E, felizmente, correu bem.

 

Depois de cerca de dez dias em missão, a cápsula Orion regressou à Terra num daqueles momentos que parecem saídos de um filme, mas que são tudo menos ficção. A reentrada na atmosfera aconteceu a velocidades na ordem dos 40 mil km/h, com temperaturas extremas e aquele inevitável silêncio de comunicações que dura minutos, mas parece uma eternidade. E depois… o alívio.

 


A cápsula desacelerou, abriu os paraquedas e caiu no Pacífico com uma precisão quase cirúrgica, num “splashdown” que a própria NASA descreveu como exemplar. É curioso como, mesmo sabendo que tudo foi calculado ao detalhe, há sempre uma parte de mim que prende a respiração nestes momentos. Porque isto não é apenas tecnologia. É risco real.

 

Durante dias, li que este regresso era a fase mais crítica. E é mesmo. Aquele instante em que tudo o que foi testado ao longo da missão é colocado à prova. O escudo térmico. A trajetória. Os sistemas. A própria resistência humana. Felizmente, passou no teste.

 


Mas esta missão nunca foi apenas sobre regressar. Uma das coisas que mais me fascinou ao longo destes dias foi perceber que a Artemis II não foi à Lua para aterrar. E isso, à primeira vista, ate pode até soar anticlimático. Mas não é. Na verdade, esta missão é o verdadeiro ponto de viragem.

 

Estamos a falar do primeiro voo tripulado do programa Artemis, mais de meio século depois das missões Apollo levarem humanos além da órbita terrestre. Quatro astronautas, a bordo da cápsula Orion, lançados pelo poderoso Space Launch System, numa viagem de cerca de dez dias à volta da Lua e de regresso à Terra.

 

 

Mas o mais importante não é o percurso. É tudo o que está a ser testado. A Artemis II é, no fundo, o momento em que a NASA passa da teoria para a realidade humana. Tudo o que foi validado sem tripulação na missão anterior é agora colocado à prova com pessoas a bordo. Sistemas de navegação, comunicações em espaço profundo, suporte de vida, resistência da cápsula, comportamento da tripulação. Há variáveis que simplesmente não podem ser simuladas em terra.

 

E depois há a própria viagem. A Orion não entrou em órbita lunar. Em vez disso, fez um sobrevoo numa trajetória de retorno livre, contornando a Lua e usando a sua gravidade para regressar à Terra. Uma manobra elegante, quase coreografada, que permite testar tudo sem comprometer a segurança da tripulação.



Durante esse percurso, os astronautas viajaram mais longe da Terra do que qualquer ser humano nas últimas décadas. Viram o lado oculto da Lua. E, talvez mais impactante do que tudo, viram a Terra à distância. Pequena. Frágil. Quase irreal.

 

E é aqui que tudo ganha sentido. Porque a Artemis II não é o objetivo final. É a ponte, o ensaio geral para aquilo que vem a seguir: o regresso efetivo à superfície lunar, a construção de uma presença sustentável e, no horizonte mais ambicioso, a viagem até Marte. Às vezes, o progresso não se faz com grandes gestos visíveis. Faz-se com missões como esta. Silenciosas no impacto imediato, mas absolutamente decisivas.

 

 

E, no meio de tudo isto, há um nome que fica: Christina Koch, a primeira mulher a viajar até à órbita da Lua. E isso, para mim, tem uma importância enorme. Não é apenas um marco histórico. É um sinal. Durante décadas, o espaço foi um território quase exclusivamente masculino. Hoje, começa finalmente a refletir uma realidade mais diversa. Ainda longe do ideal, mas já diferente. Esta foi também a primeira missão com um afroamericano a bordo, Victor Glover, bem como a primeira pessoa estrangeira, o canadiano Jeremy Hansen. Todos sob o comando de Reid Weiseman.

 

Voltando a Christina Koch, há algo que me tocou particularmente: ninguém lhe disse que não podia quando, em pequena, dizia que queria ser astronauta. Deixaram-na acreditar nisso. E às vezes é só isso que muda tudo.

 


Sabemos que ainda há um longo caminho a percorrer. As mulheres continuam sub-representadas nas áreas científicas, enfrentam obstáculos invisíveis e, muitas vezes, desistem antes de chegar ao topo. Mas missões como esta fazem mais do que avançar na exploração espacial. Inspiram. Abrem caminho. Talvez isso seja tão importante como qualquer conquista tecnológica.

 

No final, a Artemis II regressou à Terra com sucesso. Os astronautas estão bem. A missão cumpriu o seu objetivo e, mais do que isso, devolveu-nos uma sensação que talvez estivesse adormecida: voltámos a olhar para o céu com intenção. E eu, pelo menos, fiquei com a sensação de que isto é só o começo. Porque, no fundo, há algo profundamente humano nisto tudo. Ir. Arriscar. Voltar. E querer sempre mais.

 


 

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Fui assistir, em antestreia, ao espetáculo da UAU, “Sr. Engenheiro – Alegadamente um Musical”, no Teatro Tivoli BBVA, e saí com aquela sensação rara de não saber bem se estive a ver uma comédia… ou um espelho. Porque sim, ri muito. Ri bastante. Mas não foi um riso leve...

 

A peça parte de algo que todos conhecemos, ou pelo menos reconhecemos. Um dos casos mais mediáticos da política portuguesa serve de ponto de partida para um musical que nunca pretende ser uma reconstituição fiel, mas antes uma sátira assumida, exagerada, quase absurda. E é precisamente aí que reside a sua força.

 

 

Quando a realidade já parece ficção

 

Há uma ideia que não me saiu da cabeça durante todo o espetáculo: esta história já é, por si só, tão surreal que talvez só pudesse mesmo acabar num musical.

 

A narrativa percorre várias fases da vida de uma figura que nunca é nomeada diretamente, mas cuja identidade é evidente para todos. Da infância nas Beiras ao auge do poder, passando pelos episódios mais polémicos, tudo é reinterpretado com humor, música e um certo exagero quase caricatural. E, no entanto, aquilo que vemos em palco não é apenas sobre uma pessoa.

 


Mais do que política, é sobre nós

 

O que mais me surpreendeu foi perceber que o espetáculo não é apenas sobre o “Sr. Engenheiro”. É sobre Portugal. Sobre a nossa forma de ver o poder, de lidar com o sucesso, com o dinheiro, com a justiça… e, talvez acima de tudo, com aquela tendência tão nossa para o “chico-espertismo”.

 

Há momentos em que nos rimos pela genialidade das letras, pelo ritmo, pela energia em palco. E há outros em que o riso fica meio preso, porque percebemos que aquilo não está assim tão longe da realidade. E torna-se algo desconfortável. Mas é também isso que torna o espetáculo relevante.

 

 

Um musical tecnicamente impressionante

 

Há ainda um lado que não posso deixar de referir: a dimensão e a exigência do próprio espetáculo. Tudo acontece a um ritmo quase vertiginoso. Mudanças de cenário, coreografias, música ao vivo, múltiplas personagens… há uma energia constante que não deixa espaço para distrações. É daqueles espetáculos em que sentimos o esforço coletivo por trás de cada segundo. E isso vê-se. E sente-se.

 


Rir como forma de libertação

 

No final, fiquei a pensar que talvez este seja o verdadeiro papel da cultura. Não apenas entreter, mas provocar. Questionar. Obrigar-nos a olhar para aquilo que, muitas vezes, preferimos ignorar.

 

“Sr. Engenheiro – Alegadamente um Musical” consegue fazer isso com inteligência, humor e uma certa irreverência que, honestamente, já fazia falta. E talvez seja esse o maior mérito deste espetáculo: mostrar-nos que, às vezes, a única forma de lidar com certas realidades… é rir delas. Mesmo quando esse riso nos diz mais sobre nós do que gostaríamos.

 

 


 

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Nos últimos meses, comecei a ver cada vez mais conteúdos nas redes sociais sobre pessoas que se identificam com animais. Vídeos, debates, memes, opiniões extremas. Confesso que, numa primeira fase, senti alguma estranheza. Mas também curiosidade. Porque por detrás de cada fenómeno viral existe sempre algo mais profundo do que aquilo que parece à superfície.

 

É neste contexto que surge o termo “therian”, associado a pessoas que afirmam sentir uma ligação psicológica, espiritual ou simbólica a um animal específico, algo que descrevem como parte integrante da sua identidade.

 

Embora hoje o tema esteja a ganhar visibilidade, sobretudo através das redes sociais, a verdade é que não é novo. O conceito começou a circular em comunidades online nos anos 90 e está ligado a uma tradição cultural muito antiga, onde a fusão simbólica entre humano e animal já aparecia em mitos, rituais e narrativas de várias civilizações. Mais do que uma “moda”: identidade, emoção e pertencimento

 

Uma das ideias mais interessantes apontadas por especialistas é que a identificação com um animal pode funcionar como uma linguagem simbólica para expressar emoções ou características internas difíceis de traduzir de outra forma. A escolha de um lobo, de um felino ou de uma ave pode representar força, liberdade, instinto ou necessidade de proteção.

 

Alguns investigadores sugerem ainda que pessoas com maior sensibilidade sensorial ou uma perceção corporal mais intensa podem sentir experiências físicas e emocionais profundas que acabam por ser interpretadas como “sentir-se animal”. Nesse sentido, a identidade “therian” seria uma forma intuitiva de dar nome a estados interiores complexos.

 

É importante compreender que, para muitos, não se trata de fantasia ou de brincadeira. Trata-se de uma tentativa de autocompreensão, de aceitação pessoal ou de procura de comunidade. Numa sociedade cada vez mais digital, onde o sentimento de isolamento cresce, estas identidades podem funcionar como pontes de ligação entre pessoas que partilham experiências semelhantes.

 


O papel das redes sociais e a amplificação do fenómeno

 

Se este tema ganhou tanta visibilidade recentemente, deve-se sobretudo ao efeito multiplicador das plataformas digitais. O interesse disparou em vários países e transformou-se rapidamente num debate público intenso, alimentado tanto pela curiosidade como pela crítica e pelo humor.

 

Este ciclo de “viralidade” revela algo fundamental sobre o nosso tempo: as redes sociais não apenas mostram fenómenos sociais, mas também os amplificam e, por vezes, simplificam-nos em excesso. Entre vídeos de jovens a correr em quatro patas e discussões polarizadas, corre-se o risco de reduzir um tema complexo a um espetáculo superficial.

 


Entre a empatia e o exagero

 

Especialistas em psicologia alertam para a importância de distinguir entre expressão simbólica saudável e situações em que possa existir sofrimento emocional ou necessidade de acompanhamento clínico. Nem tudo deve ser patologizado, mas também nem tudo deve ser romantizado.

 

Talvez a questão central não seja saber se alguém “é” ou “não é” um animal. Talvez a verdadeira questão seja: o que leva alguém a procurar essa identidade?

 

Solidão, necessidade de pertença, dificuldade de integração social, sensibilidade emocional intensa, influência cultural. Tudo isto pode desempenhar um papel.

 

Portanto, há quem olhe para o fenómeno com preocupação, sobretudo quando comportamentos extremos surgem associados à identidade “therian”. Outros defendem que patologizar automaticamente estas experiências pode aumentar o estigma e aprofundar o sentimento de exclusão de quem já se sente diferente.

 

Talvez a abordagem mais sensata esteja algures no meio. Nem romantizar tudo, nem ridicularizar. Nem negar o impacto psicológico possível, nem ignorar a necessidade humana de expressão e pertença.

 

 

Afinal, o que este fenómeno diz sobre nós?

 

Mais do que sobre pessoas que se identificam com animais, este debate fala sobre algo profundamente humano: a busca por identidade. Ao longo da história, o ser humano sempre procurou símbolos para se compreender, seja na religião, na arte, na cultura pop ou na natureza.

 

Talvez o fenómeno “therian” seja apenas mais uma forma contemporânea dessa procura. Uma tentativa de encontrar sentido num mundo acelerado, hiperconectado e, paradoxalmente, solitário.

 

No fundo, obriga-nos a olhar para uma pergunta essencial: até que ponto estamos realmente a escutar as novas formas de expressão das gerações mais jovens?

 

Porque antes de julgar qualquer fenómeno social, talvez seja mais importante compreender o vazio que ele tenta preencher.

 

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Um filme que se situa entre a ambição, o humor negro e o vazio moral... Confesso que fui ver “Jogada de Mestre”, numa antestreia, com curiosidade genuína. O título original, “How to Make a Killing”, já deixava antever um exercício de humor negro e ambição desmedida. E foi precisamente isso que encontrei. Um filme que tenta equilibrar sátira social, thriller psicológico e comédia sombria, nem sempre com o mesmo sucesso.

A história acompanha Becket Redfellow, um homem marcado pela exclusão familiar e pela obsessão de recuperar a herança que acredita ser sua por direito. A partir desse ponto, inicia uma escalada de crimes contra os próprios familiares, numa narrativa contada em retrospetiva, enquanto aguarda a execução no “corredor da morte”. Esta estrutura confessional confere ao filme um tom quase fatalista, como se a ambição fosse, desde o início, uma sentença inevitável.

 

 

O realizador John Patton Ford recupera a premissa de uma clássica comédia negra britânica de 1949, atualizando-a para a América contemporânea e para um contexto social dominado por desigualdades económicas. A intenção é clara. Mostrar que a luta por estatuto e dinheiro continua a ser um motor poderoso, capaz de corromper qualquer consciência. No entanto, ao longo da projeção, senti que o filme oscila entre tons. Há momentos em que assume um registo de thriller psicológico com forte carga moral, e outros em que tenta ser irónico e provocador.

 


Esse pouco equilíbrio acaba por diluir o impacto emocional da narrativa. Ainda assim, há elementos que funcionam. O elenco é sólido e o ritmo, em determinados momentos, prende a atenção. O próprio conceito de acompanhar um protagonista disposto a tudo para ascender socialmente faz ecoar temas contemporâneos muito presentes no cinema recente, como a crítica ao poder dos super-ricos e à obsessão pelo sucesso.

 

 

O que mais me ficou, no final, foi a sensação de estar perante um filme que quer dizer muito sobre a sociedade atual, mas que talvez não encontre sempre a forma mais incisiva de o fazer. Há humor, há violência, há crítica social. Mas falta, por vezes, aquela ousadia narrativa que transforma uma boa ideia numa obra memorável.

 

 

“Jogada de Mestre” não é um filme perfeito, mas tem mérito ao tentar provocar reflexão sobre o preço da ambição e sobre a forma como o dinheiro pode moldar destinos e relações humanas. Saí da sala a pensar que, no fundo, a verdadeira herança não é material. É moral. E essa, quando se perde, dificilmente se recupera.



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