Desfilam ao lado de supermodelos, acompanham primeiras-damas, servem-nos em alguns restaurantes e começam a ocupar lugares que julgávamos exclusivamente humanos. Os robôs humanoides estão a sair dos laboratórios e a entrar na nossa realidade. Mas, estaremos preparados para os receber?
Há imagens que nos fazem perceber, quase instantaneamente, que alguma coisa está a mudar. Foi o que senti ao descobrir que, durante o Vogue World 2026, em Milão, quatro robôs humanoides tinham dividido a passerelle com algumas das modelos mais conhecidas do mundo.
Não se tratava de uma cena de um filme de ficção científica, nem de uma experiência imaginada para um futuro distante. Aconteceu a 22 de setembro, na histórica Galleria Vittorio Emanuele II, perante uma plateia habituada a assistir às mais surpreendentes manifestações de criatividade.
Entre modelos, música e celebridades, surgiram quatro figuras mecânicas da empresa chinesa Unitree Robotics. Caminhavam, gesticulavam e movimentavam-se de forma ainda pouco natural. O público reagiu com surpresa, curiosidade e algum desconforto. Afinal, o que estavam aqueles seres artificiais a fazer num dos grandes acontecimentos internacionais da moda? A resposta talvez seja mais importante do que o próprio espetáculo.
Da ficção científica à primeira fila
Durante décadas, habituámo-nos a imaginar os robôs através do cinema, da literatura e da televisão. Uns eram ameaçadores, outros simpáticos e até comoventes. Recordo-me de como personagens como R2-D2 e C-3PO, de Star Wars, ou o pequeno WALL-E nos fizeram olhar para as máquinas com uma inesperada ternura. Mas havia uma diferença fundamental: pertenciam ao universo da ficção. Hoje, essa fronteira começa a desaparecer.
No Vogue World Milano, os robôs participaram num segmento intitulado “The Age of Intelligence”, concebido precisamente para refletir sobre o encontro entre a criatividade humana e a tecnologia. Juan Costa Paz, diretor criativo do evento, explicou posteriormente que a sua presença pretendia representar um momento de viragem na história da humanidade.
E talvez tenha razão. Porque, independentemente da estranheza daqueles movimentos ou da aparente falta de elegância das máquinas, o que vimos foi uma representação muito concreta de algo que começa a acontecer: os robôs estão a abandonar os ambientes industriais e a entrar em espaços sociais, culturais e mediáticos.
A moda, que tantas vezes antecipou transformações culturais, voltou a colocar-nos perante uma pergunta incómoda: e se o futuro já estiver aqui?
Quando a animação nos ensinou a amar os robôs
Há, contudo, uma curiosa contradição nesta relação entre humanos e máquinas. Se os robôs reais ainda nos provocam alguma inquietação, o cinema de animação soube, desde sempre, transformá-los em personagens absolutamente irresistíveis.
Sou um apaixonado por animação desde criança, uma paixão que mantenho intacta na idade adulta, e alguns dos robôs mais ternurentos que conheci pertencem precisamente a esse universo. Como esquecer WALL-E (2008), o pequeno e solitário robô da Pixar que nos comoveu com a sua capacidade de amar? Ou Baymax, de Big Hero 6 (2014), aquela adorável figura insuflável da Disney, programada para cuidar dos outros, que nos conquista com a sua inocência e dedicação? Mais recentemente, The Wild Robot (2024), da DreamWorks, tornou-se um dos meus favoritos. A história de Roz, uma máquina que acaba por assumir o papel de mãe de um pequeno ganso órfão, é de uma sensibilidade extraordinária.
E talvez seja essa a grande magia da animação: conseguir atribuir sentimentos, fragilidades e afetos a seres que, na realidade, não sabemos se alguma vez serão capazes de os experimentar. Faz-nos rir, emocionar e até chorar por personagens feitas de metal, circuitos e programação. No fundo, estes filmes não nos ensinam tanto sobre aquilo que os robôs são, mas sobre aquilo que nós, humanos, somos capazes de sentir por eles. Talvez os robôs nos ensinem tanto sobre a tecnologia como sobre a nossa própria humanidade...
Filmes de animação de robôs que vale a pena conhecer (ou revisitar)
Sugiro seis filmes para olhar para os robôs de outra maneira. Para quem, como eu, continua fascinado pelo cinema de animação, deixo estas sugestões que merecem ser descobertas ou revisitadas. De O Gigante de Ferro à delicadeza de WALL-E, passando pelo irresistível Baymax de Big Hero 6 e pela extraordinária Roz de The Wild Robot, encontramos máquinas que nos fazem rir, chorar e refletir sobre os sentimentos humanos. Mas há também espaço para os heroicos Transformers e para o universo mais filosófico de Ghost in the Shell, que questiona aquilo que define a nossa identidade e ajudou a inspirar Matrix. São filmes muito diferentes, mas que partilham uma característica: mostram-nos que, por vezes, é através de personagens artificiais que o cinema consegue revelar algumas das nossas emoções de forma mais profunda.
Quando Melania Trump apresentou um convidado diferente
Voltando à realidade, a passerelle milanesa não foi um caso isolado. Em março deste ano, Melania Trump participou, na Casa Branca, numa cimeira internacional dedicada à inteligência artificial e à educação, reunindo representantes de 45 países.
Um dos momentos mais simbólicos foi a apresentação de um robô humanoide desenvolvido nos Estados Unidos. A iniciativa procurava demonstrar as possibilidades da tecnologia no ensino e na aprendizagem, incluindo a eventual utilização de assistentes robóticos no acompanhamento das crianças.
A imagem tinha uma força particular. Um robô já não aparecia apenas num laboratório tecnológico ou numa feira de inovação, mas num encontro institucional de elevado nível, associado a uma discussão sobre o futuro da educação.
A mensagem era clara: estas máquinas começam a ser apresentadas como possíveis participantes da nossa vida quotidiana. E é precisamente aqui que a questão se torna mais complexa. Aceitaremos que um robô ajude uma criança a estudar? Provavelmente. Mas estaremos igualmente confortáveis com a ideia de que essa mesma máquina possa vir a desempenhar funções de companhia, assistência ou cuidado?
A diferença entre ajudar e substituir pode parecer pequena do ponto de vista tecnológico, mas é imensa do ponto de vista humano.
Porque nos inquietam máquinas que se parecem connosco?
Mas se a animação nos ensinou a amar os robôs, o cinema de imagem real também fez questão de nos ensinar a temê-los. E, neste aspeto, não posso deixar de estabelecer um paralelismo com Jaws (Tubarão, 1975), de Steven Spielberg, que transformou os tubarões numa fonte de pavor para gerações de espectadores. Com os robôs, o cinema tem feito algo semelhante. Desde o implacável The Terminator (1984) até à perturbadora boneca de M3GAN (2022), concebida para proteger e acompanhar uma criança, mas que acaba por se tornar uma ameaça mortal, multiplicam-se as histórias em que a tecnologia escapa ao controlo dos seus criadores.
Mais recentemente, a excelente série alemã Cassandra (2025), da Netflix, levou esse receio para dentro de casa, através de uma assistente doméstica inteligente que transforma o ambiente familiar num verdadeiro pesadelo. E como esquecer Ex Machina (2014), onde uma sofisticada humanoide nos confronta com a possibilidade de sermos manipulados por uma inteligência artificial? Curiosamente, Chappie (2015), com Hugh Jackman, explora o reverso desta questão: e se a máquina que julgamos perigosa for, afinal, mais vulnerável do que os humanos que a rodeiam? Entre a ternura e o terror, o cinema tem alimentado uma relação profundamente contraditória com os robôs. Talvez por isso, quando hoje vemos um humanoide caminhar entre nós, não estejamos apenas a observar uma conquista tecnológica. Estamos também a recordar, consciente ou inconscientemente, todas as histórias que nos ensinaram a desconfiar dela.
Há uma explicação particularmente interessante para o desconforto que alguns robôs humanoides provocam. Em 1970, o investigador japonês Masahiro Mori apresentou o conceito conhecido como uncanny valley, ou vale da estranheza. A hipótese sugere que, à medida que uma máquina se torna mais parecida com um ser humano, tendemos a sentir maior familiaridade com ela. Contudo, quando essa semelhança se aproxima demasiado da realidade sem a reproduzir perfeitamente, a reação pode transformar-se em inquietação.
É o rosto quase humano, mas sem expressão natural. O movimento que imita o nosso, mas parece ligeiramente errado. O olhar que se dirige a nós sem sabermos exatamente o que existe por detrás dele. Talvez seja essa a sensação que muitos experimentaram ao ver os robôs desfilar em Milão. Não é necessariamente medo da tecnologia. É o desconforto perante algo que reconhecemos como semelhante a nós, mas que sabemos não ser humano.
E há uma ironia fascinante nesta situação: passámos décadas a tentar construir máquinas à nossa imagem e, agora que começamos a consegui-lo, descobrimos que essa semelhança nem sempre nos tranquiliza...
O que acontece quando as máquinas começam a ocupar o nosso lugar?
A robótica já transformou profundamente a indústria, a medicina, a logística e inúmeros outros sectores. Mas a chegada dos humanoides coloca questões diferentes.
Não estamos apenas a falar de braços mecânicos numa linha de montagem ou de sistemas automatizados que executam tarefas repetitivas. Falamos de máquinas concebidas para circular em ambientes construídos para pessoas, utilizar objetos, interagir connosco e, eventualmente, desempenhar funções que exigem uma presença física.
É importante reconhecer que muitas destas capacidades continuam em desenvolvimento. As demonstrações impressionantes não significam que os robôs estejam preparados para agir autonomamente em qualquer circunstância. A mobilidade, a segurança, a fiabilidade e a capacidade de lidar com situações inesperadas continuam a representar desafios consideráveis. Mas a direção da investigação é evidente.
Imagino um futuro em que robôs possam auxiliar pessoas com mobilidade reduzida, realizar tarefas domésticas, apoiar profissionais de saúde ou desempenhar trabalhos fisicamente exigentes e perigosos.
Seria absurdo ignorar os benefícios que daí poderão resultar. Ao mesmo tempo, não consigo deixar de pensar nas consequências sociais. Que profissões serão transformadas? Que empregos poderão desaparecer? Quem terá acesso a estas tecnologias? E até que ponto estaremos dispostos a delegar nas máquinas responsabilidades que hoje associamos à presença humana?
São perguntas que não devem ser respondidas apenas por engenheiros ou empresas tecnológicas. Dizem respeito a todos nós!
A inteligência artificial ganhou um corpo
Nos últimos anos, habituámo-nos a conversar com sistemas de inteligência artificial, a pedir-lhes informações, a trabalhar com eles e até a procurar algum conforto nas suas respostas.
Eu próprio já refleti aqui no blog sobre esta transformação e sobre a relação cada vez mais próxima que estabelecemos com a inteligência artificial. Mas existe uma diferença substancial entre interagir com uma voz ou com palavras num ecrã e encontrar uma máquina fisicamente presente à nossa frente.
Um robô pode ocupar espaço, aproximar-se, movimentar objetos e olhar na nossa direção. Pode dar-nos a sensação de estar acompanhado por alguém, mesmo sabendo que estamos perante um sistema artificial. Essa presença altera a natureza da relação.
E talvez seja precisamente por isso que a robótica humanoide nos desperta sentimentos tão contraditórios. Fascina-nos pela sua capacidade tecnológica, mas obriga-nos também a reconsiderar o que significa estar perante um outro ser.
Não acredito que a questão essencial seja saber se um robô consegue imitar perfeitamente uma pessoa. Interessa-me, muito mais, perceber o que poderá acontecer quando começarmos a tratar essas imitações como presenças habituais.
O futuro precisa de continuar a ser humano
Não vejo razão para encarar a chegada dos robôs como uma ameaça inevitável. A história mostra-nos que muitas tecnologias inicialmente recebidas com desconfiança acabaram por transformar positivamente a nossa existência. Mas também sabemos que o progresso tecnológico não garante, por si só, progresso social. Tudo depende das escolhas que fazemos, dos limites que estabelecemos e da importância que continuamos a atribuir às relações humanas.
Um robô poderá ajudar uma pessoa idosa a levantar-se, lembrar-lhe a medicação ou facilitar-lhe a comunicação com a família. Será uma conquista extraordinária. Mas não deverá servir de desculpa para que essa pessoa receba menos visitas, menos atenção ou menos afeto.
Uma máquina poderá executar determinadas tarefas com uma precisão superior à nossa. Isso não significa que devamos medir o valor das pessoas apenas pela sua produtividade. E, por muito sofisticados que os robôs se tornem, a capacidade de simular emoções não deve ser confundida automaticamente com a experiência de as sentir.
Volto, por isso, à imagem daqueles quatro humanoides que atravessaram a passerelle do Vogue World Milano. Talvez, daqui a vinte anos, olhemos para essas imagens com a mesma curiosidade com que hoje observamos os primeiros computadores ou telemóveis. Talvez nos pareçam ingénuos, desajeitados e até divertidos. Ou, talvez, venhamos a reconhecer naquele desfile um dos momentos simbólicos em que percebemos que a convivência entre humanos e máquinas estava a entrar numa nova fase.
Pessoalmente, continuo fascinado com as possibilidades da tecnologia. Mas acredito que a verdadeira questão não é até onde os robôs irão conseguir chegar. É até onde nós, enquanto sociedade, estaremos dispostos a deixá-los entrar nas nossas vidas. Porque o futuro pode muito bem pertencer a um mundo partilhado com máquinas inteligentes, mas espero que nunca deixemos de compreender aquilo que nos torna humanos.








