Vivemos numa época curiosa. Nunca tivemos tantas ferramentas para sermos mais rápidos, mais eficientes e mais produtivos, porém, paradoxalmente, nunca se falou tanto sobre a dificuldade em começar, terminar ou simplesmente desligar.

 

Três conceitos que ganharam protagonismo muito recentemente ajudam-nos a compreender a forma como nos relacionamos com o tempo: procrastinação, puttering e journaling. Se o primeiro revela a dificuldade em agir perante as exigências do quotidiano, o segundo representa a redescoberta do prazer nas pequenas coisas e o terceiro convida-nos a parar, refletir e escutar aquilo que se passa dentro de nós.

 


Procrastinação: adiar atividades substituindo-as por outras que dão mais prazer

 

Procrastinar é adiar voluntariamente uma tarefa ou decisão, mesmo sabendo que esse adiamento poderá trazer consequências negativas. Não se trata apenas de preguiça ou falta de organização: muitas vezes está associado a ansiedade, medo de falhar, perfeccionismo ou à dificuldade em lidar com determinadas emoções.

 

Quem nunca adiou responder a um email importante, marcar uma consulta, começar aquele projeto que está há semanas na lista de tarefas ou arrumar algo que sabemos que precisa de atenção? O mais curioso é que, muitas vezes, a procrastinação não acontece porque não queremos fazer algo, mas precisamente porque aquilo que temos de fazer tem muita importância. Quanto maior a pressão que colocamos sobre uma tarefa, maior pode ser a tendência para a evitar.

 

Vivemos rodeados de estímulos que nos oferecem pequenas recompensas imediatas: uma notificação, uma mensagem, uma nova publicação nas redes sociais. E, perante uma tarefa exigente, o cérebro procura frequentemente uma alternativa mais simples e confortável. O problema surge quando o adiamento deixa de ser uma escolha pontual e passa a ser uma forma de viver.

 

 

Puttering: a arte de não fazer nada… fazendo alguma coisa

 

Do outro lado desta equação surge uma expressão que descobri recentemente: puttering. Sem uma tradução direta para português, o conceito descreve aqueles momentos em que fazemos pequenas coisas de forma tranquila, sem pressa e sem uma grande meta definida. Pode ser organizar uma gaveta, cuidar de plantas, preparar algo na cozinha, mexer em objetos pela casa ou, simplesmente, andar de um lado para o outro apenas para deixar que as ideias surjam.

 

À primeira vista, pode parecer uma perda de tempo. Afinal, numa sociedade onde tudo precisa de ter um objetivo, uma métrica ou um resultado, fazer algo apenas pelo prazer do processo parece quase revolucionário. Mas talvez o puttering seja precisamente aquilo que muitos de nós perdemos: a capacidade de estar presentes sem sentir que estamos sempre atrasados.

 

Não é procrastinação. A diferença está na intenção. Quando procrastinamos, evitamos algo que sabemos que precisa de ser feito e ficamos frequentemente acompanhados por culpa ou ansiedade. No puttering, não estamos a fugir da vida, estamos simplesmente a “habitá-la” de uma forma mais lenta.

 


Journaling: escrever para abrandar e compreender

 

Se o puttering nos convida a abrandar através da ação, o journaling propõe uma pausa através da reflexão. Embora muitas vezes associado ao tradicional “diário pessoal”, o journaling ganhou uma nova dimensão nos últimos anos. Mais do que registar acontecimentos do dia que passou, trata-se de criar um espaço de diálogo connosco próprios, onde podemos organizar pensamentos, reconhecer emoções, definir intenções e compreender melhor aquilo que estamos a viver.

 

Num mundo onde somos constantemente estimulados a responder, produzir e avançar, escrever algumas linhas pode ser uma forma simples de recuperar silêncio interior. O journaling não exige grandes textos, nem regras rígidas. Pode ser uma reflexão sobre algo que nos marcou, uma lista de gratidão, uma ideia que queremos explorar ou, simplesmente, algumas palavras para colocar em ordem aquilo que sentimos.

 

Tal como o puttering, também representa uma resistência à velocidade dos nossos dias. É um momento sem pressa, sem comparação e sem a necessidade de mostrar resultados imediatos. Talvez a verdadeira importância do journaling não esteja apenas na escrita, mas no acto de parar. Porque, antes de sabermos para onde queremos ir, precisamos muitas vezes de perceber onde estamos.

 


 

Três formas de nos relacionarmos com o tempo

 

A procrastinação nasce muitas vezes de uma relação difícil com o tempo: sentimos pressão, acumulamos tarefas, adiamos e, depois, carregamos culpa. Já o puttering nasce quase do oposto: é uma relação mais leve com o tempo, em que aceitamos que nem todos os momentos precisam de produzir algo mensurável. O journaling surge como uma terceira via: um espaço de pausa e reflexão que nos permite perceber o que sentimos, o que adiamos e aquilo que realmente valorizamos.

 

Se a procrastinação nos afasta da ação e o puttering nos reconecta com o presente, o journaling ajuda-nos a compreender o nosso próprio ritmo. Numa sociedade de performance, em que até o descanso parece ter de ser otimizado (descanso para voltar a produzir mais), o puttering surge quase como um pequeno ato de liberdade. Não é preguiça, não é desorganização, não é falta de ambição. É permitir-se estar. O journaling acompanha esse mesmo movimento. Num mundo onde somos constantemente chamados a responder, produzir e avançar, escrever algumas linhas pode ser uma forma simples de recuperar silêncio interior e criar espaço para a introspeção.

 

É a diferença entre “perder tempo”, “passar tempo” e “dar tempo a nós próprios”. Durante décadas fomos educados para acreditar que o tempo só tem valor quando gera um resultado. Mas muitas das memórias que guardamos: uma conversa sem pressa, cozinhar, passear sem destino, cuidar de algo, não tinham qualquer objetivo prático e, no entanto, têm um enorme valor emocional.

 

 

E talvez seja essa a razão pela qual estes três conceitos estão a ganhar tanta força agora, pois todos respondem, à sua maneira, ao mesmo problema: vivemos numa sociedade acelerada, híper-conectada e permanentemente avaliada. Podemos procrastinar porque estamos esmagados pelo excesso de exigência; podemos procurar o puttering porque precisamos de recuperar uma relação mais humana com o quotidiano; e podemos recorrer ao journaling porque sentimos necessidade de parar e ouvir aquilo que acontece dentro de nós.

 

 

 

Entre a produtividade, a presença e a reflexão

 

Talvez o verdadeiro desafio dos nossos tempos seja encontrar um equilíbrio. Precisamos de saber agir quando é necessário, cumprir compromissos e avançar com os nossos objetivos. Mas também precisamos de recuperar pequenos momentos sem pressão, onde não estamos constantemente a tentar otimizar cada minuto do nosso dia. Afinal, nem sempre o tempo precisa de ser produtivo para ter valor.

 

O puttering surge como uma resposta silenciosa a uma sociedade obcecada pela velocidade. Uma forma de lembrar que há prazer nas pequenas tarefas, nos gestos simples e nesses momentos, aparentemente, insignificantes que, no fundo, constroem a nossa relação connosco próprios. O journaling acrescenta uma outra dimensão: a importância de parar para escutar o nosso “eu” interior. Num quotidiano em que somos constantemente estimulados a fazer muito mais e mais depressa, escrever, refletir e organizar pensamentos pode ser uma forma de recuperar uma ligação mais profunda com aquilo que sentimos e desejamos.

 


Entre o “faço amanhã” da procrastinação, o “faço tranquilamente” do puttering e o “páro para compreender” do journaling existe uma diferença essencial: a primeira prende-nos ao tempo, o segundo devolve-nos tempo e o terceiro ajuda-nos a perceber como queremos vivê-lo. Estes três conceitos, juntos, acabam por formar quase uma filosofia de vida: agir quando é preciso, abrandar quando é possível e escutar quando é necessário. Porque, no fim, talvez a verdadeira questão não seja quanto tempo temos, mas a forma como escolhemos “habitá-lo”.

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Quando ouvi falar do “Amália” pela primeira vez, confesso que o meu pensamento foi outro. Assim de repente, pensei que se tratasse de mais uma homenagem à nossa eterna voz do Fado, Amália Rodrigues. Afinal, vim a saber que este nome escondia um acrónimo: Agente Multimodal Automático de Linguagem com IA. Ainda assim, dificilmente poderia ter uma designação mais portuguesa. Isto porque o nome está ligado a uma novidade bem diferente: o primeiro grande modelo de Inteligência Artificial desenvolvido em Portugal. E, por estranho que pareça, até gostei da escolha.

 

Por detrás da sigla está o primeiro grande modelo de Inteligência Artificial desenvolvido em solo português, pensado para compreender e trabalhar em português europeu. Portugal passa, agora, a ter um modelo de linguagem desenvolvido por investigadores nacionais e disponibilizado em código aberto, para que universidades, empresas e organismos públicos possam criar as suas próprias aplicações. Não pretende ser um novo ChatGPT, mas sim a tecnologia que poderá estar por detrás de muitas soluções que utilizaremos no futuro.

 

Num mundo dominado por gigantes tecnológicos norte-americanos, esta é uma notícia que merece ser celebrada. Não apenas por orgulho nacional, mas porque a língua, a cultura e o contexto de um país também contam quando falamos de Inteligência Artificial.

 


 

Uma revolução que já começou

 

Mas a verdade é que o Amália chega num momento muito particular. Nunca a Inteligência Artificial esteve tão presente nas nossas vidas.

 

Há poucos anos, parecia um tema distante, quase de ficção científica. Hoje, escreve textos, traduz documentos, cria imagens, compõe música, resume reuniões, responde a e-mails, ajuda médicos, apoia professores e começa até a assumir funções que, até há pouco tempo, pertenciam exclusivamente às pessoas. Algumas empresas já anunciam "trabalhadores virtuais" para determinadas tarefas, enquanto economistas e especialistas alertam para o impacto inevitável no mercado de trabalho.

 

É impossível não ficarmos fascinados, mas também algo receosos. Eu próprio recorro a esta tecnologia. Ajuda-me a organizar ideias, a pesquisar informação e, muitas vezes, a ganhar tempo. Mas quanto mais contacto tenho com estas ferramentas, mais me convenço de uma coisa: o verdadeiro desafio já não é tecnológico, é humano.

 


 

O maior desafio continua a ser humano

 

Um dos especialistas a que tive acesso recentemente, Frank Pasquale, disse algo que me ficou na memória: temos de deixar de olhar para a Inteligência Artificial como se fosse uma pessoa e começar a vê-la como aquilo que realmente é: um produto, uma ferramenta. Não um amigo, nem um conselheiro, muito menos alguém que "pensa" ou "sente".

 

Pode parecer um pormenor, mas faz toda a diferença. Cada vez mais ouvimos frases como "a IA disse-me", "a IA acha" ou "a IA decidiu". Na realidade, não há opiniões, emoções ou consciência do outro lado do ecrã. Há modelos matemáticos extremamente sofisticados, treinados para reconhecer padrões e prever respostas com uma impressionante capacidade de linguagem. O problema é que, quanto melhores ficam, mais facilmente nos esquecemos disso...

 

Ao mesmo tempo que a Inteligência Artificial evolui, também aumentam os riscos. Hoje, já é possível criar fotografias praticamente indistinguíveis da realidade (por exemplo, eu que ainda não tive a oportunidade de conhecer o meu ídolo Madonna, possuo uma imagem em que esse momento já aconteceu), clonar vozes em poucos minutos, produzir vídeos falsos altamente convincentes ou fabricar notícias capazes de enganar milhares de pessoas. A desinformação ganha aqui uma dimensão completamente nova quando deixa de depender apenas da imaginação humana e passa a contar com ferramentas capazes de produzir conteúdos à velocidade de um clique.

 


 

E há outro lado de que se fala menos. Toda esta revolução tem um custo energético muito grande. Alguns estudos estimam que, até meados do século, a Inteligência Artificial poderá representar uma fatia significativa do consumo mundial de eletricidade, colocando novos desafios ambientais e obrigando a repensar a forma como utilizamos estas tecnologias.

 

Apesar de tudo isto, não acredito que a resposta passe pelo medo. A história mostra-nos que quase todas as grandes revoluções tecnológicas despertaram receios. A imprensa, a eletricidade, a televisão, a Internet e até os smartphones transformaram profundamente a sociedade. Acredito que a Inteligência Artificial será, provavelmente, mais uma dessas mudanças. A diferença está na forma como a utilizamos.

 


 

Se servir para melhorar os serviços públicos, apoiar a educação, facilitar a investigação científica ou aumentar a produtividade das empresas, então o luso “Amália” e tantos outros modelos serão um grande passo em frente. Se, pelo contrário, aceitarmos tudo o que a Inteligência Artificial produz sem questionar, sem confirmar e sem exercer espírito crítico, estaremos a abdicar de uma das capacidades mais importantes que possuímos: pensar pela nossa própria cabeça. Talvez seja essa a grande ironia desta nova era.

 

Enquanto nos esforçamos por criar máquinas cada vez mais inteligentes, não podemos esquecer que nenhuma tecnologia substitui o discernimento, a ética, a criatividade ou a sensibilidade humanas.

 


 

O maior desafio está no que a IA começa a fazer à nossa própria perceção da realidade

 

A preocupação com a Inteligência Artificial já deixou de pertencer apenas ao universo dos filmes de ficção científica ou aos debates entre especialistas. Está a chegar ao mundo real: à música, ao cinema, à publicidade, à política e à vida de pessoas concretas.

 

Recentemente, alguns casos envolvendo figuras públicas voltaram a mostrar uma das questões mais delicadas desta nova era: a possibilidade de uma imagem, uma voz ou uma identidade serem utilizadas sem autorização. No universo musical, vários artistas têm alertado para os riscos da utilização da Inteligência Artificial para recriar vozes sem consentimento. A questão vai muito além da tecnologia: quando uma voz é uma parte essencial da identidade artística de alguém, quem tem o direito de a reproduzir?

 

O mesmo acontece com a imagem. Fotografias, vídeos e gravações podem hoje ser manipulados com um realismo impressionante, criando situações em que se torna cada vez mais difícil distinguir o verdadeiro do falso. E talvez esse seja o maior perigo dos chamados deepfakes: não é apenas a falsificação em si, mas a perda de confiança.

 

Se qualquer pessoa pode aparecer num vídeo que nunca gravou, dizer palavras que nunca disse ou promover um produto que nunca aceitou representar, a nossa relação com aquilo que vemos e ouvimos muda completamente. Aqui, o problema deixa de ser apenas tecnológico, passa a ser social.

 

Porque mesmo quando uma mentira é descoberta, o impacto inicial já aconteceu. A internet espalha rapidamente a dúvida, mas raramente consegue recuperar totalmente a verdade. Esta é uma das razões pelas quais a discussão sobre Inteligência Artificial não pode ficar limitada à inovação. Precisamos também de falar sobre ética, legislação e responsabilidade.

 



O modelo português

 

Curiosamente, o lançamento do “Amália” já está a despertar atenção além-fronteiras. Um artigo publicado num site francês especializado em IA destaca precisamente o facto de Portugal ter conseguido avançar com um modelo nacional aberto numa altura em que países maiores ainda discutem a melhor estratégia para alcançar a mesma autonomia tecnológica. É um sinal de que este projeto luso está a ser observado muito para além das nossas fronteiras.

 

Por isso, o “Amália” é uma excelente notícia para Portugal, não apenas pelo que representa do ponto de vista tecnológico, mas porque demonstra que também podemos contribuir para o futuro da Inteligência Artificial a partir da nossa própria língua. Demonstra que também temos talento, conhecimento e capacidade para participar numa das maiores transformações tecnológicas do nosso tempo. Mas, talvez o verdadeiro desafio não esteja na IA que estamos a construir. Está na inteligência, a nossa, que continuamos, ou não, a usar todos os dias.

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Desde os meus 13 anos que acompanho a Madonna. Cresci com a sua música, vi-a reinventar-se vezes sem conta e, passadas mais de quatro décadas, continuo a admirar exatamente a mesma coisa: a sua recusa em ficar parada no tempo.

Na passada sexta-feira, 3 de julho, lançou “Confessions II”, o seu 15.º álbum de estúdio. Confesso que aquilo que mais me impressiona não são tanto as canções, que são óptimas, mas a mensagem que o álbum transmite.

 

 

Vivemos numa época em que se espera que os artistas de uma determinada idade vivam das memórias. Que façam novas versões dos grandes êxitos, que celebrem aniversários de álbuns históricos e que alimentem a nostalgia dos fãs. Madonna nunca aceitou esse papel. Ela não se conforma.

 


Ao longo da sua carreira, acertou muitas vezes e, noutras, dividiu opiniões. “Hard Candy”, “MDNA”, “Rebel Heart” ou “Madame X” são álbuns que provaram precisamente isso. Mas há uma diferença fundamental: nunca deixou de experimentar. Nunca fez música apenas para agradar ou para repetir fórmulas que sabia resultarem.

 

Madonna não pára de me maravilhar

 

É precisamente isso que sinto em “Confessions II”. O álbum não tenta transformar “Confessions on a Dance Floor” numa peça de museu. Pelo contrário, parte desse universo de pista de dança para construir algo novo, sem viver refém dele. O passado não desaparece por completo, mas também não lhe dita o caminho.

 


Outra das ideias que mais me marcou prende-se com a forma como Madonna continua a desafiar a relação entre idade, liberdade e criatividade. Às mulheres continua, muitas vezes, a ser pedido que envelheçam discretamente, que aceitem tornar-se figuras de referência, mas deixem de ocupar o centro do palco. Ela passou a vida inteira a recusar essa expectativa, a combater esse estigma.

 

 

Certamente, é por isso que continua a ser uma artista única, sem igual. Nunca permitiu que a definissem apenas pela idade, pelo género ou pelo momento da carreira em que se encontrava. Preferiu sempre redefinir-se pelas suas próprias regras.

 

Depois, há as letras. Falam de amor, de perda (do irmão), de família (a filha Lola), de fé, de identidade e até da morte. Daí voltar-se a chamar-se exatamente de “Confessions”. Não como alguém que olha para trás, com saudade, mas como quem reorganiza a própria história para conseguir seguir em frente. Trata-se de uma perspetiva madura, mas nada conformada.

 


 

Talvez seja essa a maior força de “Confessions II”. Não é um álbum sobre o passado, é um álbum sobre o presente. Sobre continuar a criar quando tantos esperam que apenas recordes aquilo que já fizeste.


Continuo a acreditar que é por isso que Madonna permanece relevante. Não porque tem sido uma das maiores protagonistas da história da música pop, mas porque continua a comportar-se como uma artista que ainda tem tudo para provar. E isso, para mim, é muito mais inspirador do que qualquer exercício de nostalgia.

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Confesso que entrei no Centro Cultural Malaposta com um entusiasmo difícil de esconder. “Grease” faz parte daquelas histórias que atravessam gerações e que, mesmo para quem nunca viveu os anos 50, despertam uma enorme sensação de nostalgia. Conheço o filme, conheço as músicas e tinha curiosidade em perceber como a Yellow Star Company iria trazer este clássico para o palco (não é a primeira vez que “Grease – O Musical” pisa os palcos, pois já fez uma temporada em 2025).

 

A resposta surgiu logo nos primeiros minutos. Desde o momento em que as luzes se acendem, percebe-se a entrega do elenco e a vontade de fazer justiça a um dos musicais mais acarinhados de sempre. Danny, Sandy, os T-Birds e as Pink Ladies voltam a ganhar vida numa produção dinâmica, divertida e muito bem conseguida, que nos faz acompanhar a história com um sorriso quase permanente (e um bater do pé constante).

 


As músicas continuam a ser a grande força do espetáculo. São canções que dificilmente precisam de apresentação e que, umas atrás das outras, despertam memórias, mesmo em quem apenas conhece o filme de nome. Dei por mim a acompanhar várias delas em silêncio ou em playback, como certamente aconteceu com muitos dos espectadores que enchiam a sala.

 



A encenação de Paulo Sousa Costa respeita a essência de “Grease”, enquanto a direção-geral de Carla Matadinho volta a demonstrar a aposta da Yellow Star Company em grandes produções de teatro musical e na valorização de novos talentos. O elenco resulta precisamente de um casting que reuniu centenas de candidatos, dando oportunidade a uma nova geração de artistas de mostrar o seu trabalho em palco.

 

Gostei, particularmente, da energia do grupo. Mais do que procurar protagonistas isolados, sente-se um verdadeiro espírito de equipa, onde interpretação, dança e música se complementam de forma natural. Os figurinos ajudam a recriar a atmosfera da época e transportam-nos facilmente para uma América que conhecemos, sobretudo, através do cinema.

 


 

No final, saí exatamente como gosto de sair de um teatro: bem-disposto, com vontade de voltar a ouvir aquelas músicas e com a sensação de que passei duas horas muito bem entregues. Nos dias de hoje, em que tantas vezes andamos a correr de um lado para o outro, sabe bem encontrar espetáculos que nos obrigam simplesmente a desligar e a desfrutar.

 

“Grease – O Musical” está em cena no Centro Cultural Malaposta, em Odivelas, apenas durante uma curta temporada, até 2 de agosto. Se gostam de teatro musical ou, simplesmente, procuram uma noite diferente, divertida e recheada de boas canções, vale mesmo a pena aproveitar enquanto ainda está em cartaz. Eu já fiz esta viagem. E voltaria a fazê-la, sem pensar duas vezes...

 


 

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Este mês assinalaram-se os 100 anos do nascimento de Marilyn Monroe, a mulher que nasceu Norma Jeane Mortenson a 1 de junho de 1926 e que acabaria por se tornar um dos rostos mais reconhecidos do século XX. E dei por mim a pensar em algo curioso: quantas estrelas de cinema continuam verdadeiramente presentes décadas após a sua morte?


Marilyn Monroe é um nome que não precisa de apresentação, porque nunca foi apenas uma atriz de Hollywood... Foi um fenómeno cultural. E continua a sê-lo! Mesmo quem nunca viu um dos seus filmes reconhece imediatamente o cabelo loiro platinado, o sorriso tímido, o sinal perto dos lábios ou o célebre vestido branco esvoaçante. Poucas figuras conseguiram ultrapassar o seu próprio tempo desta forma.



Não falo apenas dos cinéfilos ou dos grandes admiradores de Hollywood. Falo das pessoas em geral. Daquelas que talvez nunca tenham visto um filme dela, mas que reconhecem imediatamente o seu rosto. Marilyn Monroe é um daqueles casos raros em que a pessoa se transformou num símbolo. E talvez seja precisamente por isso que, cem anos depois do seu nascimento, continuamos a falar dela.

 


 

“A star like no other”

 

A verdade é que Marilyn foi muito mais do que a imagem da loira glamorosa que Hollywood vendeu durante anos. Por trás dos vestidos brilhantes, das sessões fotográficas e das passadeiras vermelhas existia uma mulher inteligente, ambiciosa e muito mais determinada do que muitas vezes lhe reconheceram em vida.

 

Numa época em que as atrizes tinham pouca margem para decidir o rumo das suas carreiras, Marilyn teve a coragem de enfrentar os estúdios, exigir melhores papéis e criar a sua própria produtora. Hoje, parece algo normal, mas nos anos 50 não era. Talvez por isso muitos a considerem uma mulher à frente do seu tempo.

 

Mas aquilo que mais me impressiona é a forma como continua a influenciar gerações que nem sequer eram nascidas quando ela morreu. Basta olhar para Madonna...




Um mito inspirador

 

Quem cresceu nos anos 80 recorda-se certamente do vídeo de “Material Girl”. O vestido cor-de-rosa, os diamantes, a escadaria, os bailarinos de smoking... tudo remetia para a inesquecível cena de “Diamonds Are a Girl's Best Friend”, interpretada por Marilyn Monroe no filme “Gentlemen Prefer Blondes”.

 

 

 

E Madonna não foi caso único. Ao longo de décadas, atrizes, cantoras, fotógrafos e designers foram recuperando elementos da sua imagem. Uns inspiraram-se no visual, outros na atitude. Outros, ainda, naquela mistura de fragilidade e força que sempre fez parte do seu fascínio.

 

Talvez seja essa a razão pela qual Marilyn continua tão atual. Vivemos numa época em que a imagem tem um peso enorme, em que as celebridades constroem cuidadosamente a forma como querem ser vistas pelo público. E, de certa forma, Marilyn foi uma das primeiras a perceber o poder dessa narrativa.

 


 

Claro que também ajudou o facto de ter protagonizado algumas das imagens mais icónicas do século XX. Há fotografias suas que continuam a ser reconhecidas instantaneamente em qualquer parte do mundo. Poucos conseguem isso.

 

Cem anos depois do seu nascimento, Marilyn Monroe continua a inspirar livros, exposições, filmes, coleções de moda e até novas gerações de artistas. E acredito que continuará a fazê-lo durante muitos anos.

 

Porque algumas estrelas pertencem ao seu tempo, outras acabam por atravessar todos os tempos. No fundo, talvez seja essa a maior prova da dimensão de Marilyn Monroe. Mais de seis décadas depois da sua morte, continua-se a falar dela. E isso está ao alcance de muito poucos...

 


 

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No passado dia 9 de maio, fui até ao Parque das Nações para conhecer a exposição de Mário Vela, na Plantome. E a verdade é que saí de lá com a sensação rara de ter descoberto muito mais do que uma exposição...

Descobri um espaço vivo. Um lugar onde as plantas convivem naturalmente com a arte, onde cada recanto parece pensado ao detalhe e onde existe uma atmosfera difícil de explicar, mas muito agradável de sentir. E, acima de tudo, tive finalmente a oportunidade de conhecer o Mário em “carne e osso”.

 


 

Há amizades e afinidades que começam antes do primeiro encontro presencial. A arte tem muito disso. Aproxima pessoas sem precisar de apresentações formais. E, talvez por isso, este encontro tenha sabido tão bem.

 


 

Quem é Mário Vela?

 

Para quem ainda não conhece o trabalho de Mário Vela, vale a pena parar um pouco e descobrir o universo muito próprio deste artista espanhol, natural de Toledo, nascido em 1969, tal como eu, com um percurso já consolidado entre pintura, escultura, desenho e até vídeo. Licenciado em Belas Artes pela Universidade Complutense de Madrid, soma mais de trinta exposições individuais entre Espanha e Portugal, além de participações em feiras de arte como a ARCO, Estampa ou a Feira de Arte Contemporânea de Lisboa.

 

 

Mas mais do que o seu currículo, aquilo que verdadeiramente me toca na obra dele é a identidade tão humana das personagens que pinta. Os rostos criados por Mário Vela são imediatamente reconhecíveis. Os olhos enormes, intensos e profundamente expressivos acabam por dizer quase tudo. Há emoção, fragilidade, ironia, melancolia e ternura em cada olhar. E depois, existe aquele detalhe que já se tornou assinatura da sua linguagem visual: os rostos que pinta nunca possuem nariz. Curiosamente, essa ausência não cria distância, pelo contrário. Faz-nos concentrar ainda mais na expressão emocional das personagens que ele cria. As cores fortes, os contrastes e os traços aparentemente simples escondem uma profundidade emocional muito grande. A meu ver, a arte dele não procura perfeição, procura verdade.




Mário Vela na Plantome

 

A exposição “Mário Vela x Plantome”, patente até 31 de julho, revela precisamente essa fusão entre figuração e mundo vegetal, criando uma relação muito orgânica entre as obras e o próprio espaço da Plantome. E talvez tenha sido isso que mais me conquistou naquela tarde de sábado. As plantas deixam de ser apenas pano de fundo e passam a fazer parte da narrativa artística, quase como personagens silenciosas dentro de cada composição.

 


Existe poesia naquele encontro entre natureza e pintura. Existe serenidade, existe humanidade. Talvez seja precisamente isso que torna esta exposição tão especial. Vale a pena ir pela arte de Mário Vela, sem dúvida, mas vale também a pena perder algum tempo a descobrir a própria Plantome, um espaço diferente em Lisboa, pensado para quem gosta de plantas, decoração e ambientes criativos.

 


 

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Há sonhos que desaparecem logo depois de acordarmos. Outros, parece que ficam connosco o dia inteiro... E, depois, existem aqueles que nos deixam completamente desorientados, quase como se tivéssemos vivido realmente o que sonhámos. Já acordei angustiado com situações que nunca aconteceram, com saudades de pessoas que nem vejo há anos ou com aquela estranha sensação de felicidade depois de um sonho bom demais para acabar.

Talvez seja precisamente isso que torna os sonhos tão fascinantes: o facto de o cérebro conseguir criar mundos inteiros enquanto dormimos. A verdade é que a ciência continua sem conseguir explicar totalmente porque sonhamos. Existem teorias, estudos e interpretações, mas há ainda muito mistério naquele espaço estranho entre o sono e a consciência. E talvez ainda bem.

 

 

O cérebro permanece acordado enquanto dormimos

 

Uma das descobertas mais curiosas é que o cérebro nunca “desliga” verdadeiramente. Durante a fase REM do sono, aquela em que sonhamos mais intensamente, a atividade cerebral pode aproximar-se bastante da de uma pessoa acordada. É também nessa altura que as emoções, as memórias e a imaginação parecem misturar-se sem filtros. Talvez devido a isso os sonhos resultem tão caóticos e, ao mesmo tempo, tão emocionais.

 

Num sonho, podemos estar na casa onde crescemos, mas ela, afinal, transforma-se numa espécie de hotel. Podemos encontrar alguém que já morreu e agirmos como se isso fosse perfeitamente normal. O tempo, como o percecionamos, deixa de existir, a lógica também e, no entanto, enquanto estamos a sonhar, tudo parece absolutamente real. Como afirmam alguns especialistas, nos sonhos “a lógica parece ser barrada à porta”. E eu acho essa descrição perfeita.

 

De facto, os sonhos são um espaço onde a lógica deixa de “mandar”. Tudo pode acontecer e o cérebro começa a criar mundos alternativos. Pessoas misturam-se. Casas transformam-se noutras casas. O tempo deixa de fazer sentido. Há uma liberdade absurda na forma como o cérebro cria narrativas enquanto dormimos. Aliás, algumas teorias mais recentes sugerem precisamente que os sonhos ajudam a criatividade e a capacidade a criar novas ligações mentais.

 


Os sonhos dizem alguma coisa sobre nós?

 

Sempre achei curioso como há pessoas que descartam os sonhos como simples “disparates do cérebro”, enquanto outras procuram neles significados quase proféticos. Provavelmente, a verdade pode estar algures no meio.

 

Hoje, acredita-se que os sonhos ajudam o cérebro a processar emoções, medos, ansiedade e experiências do dia a dia. Funcionam quase como um mecanismo de reorganização emocional. E isso explica muita coisa. Por exemplo: porque é que sonhamos mais intensamente em fases difíceis da vida? Porque aparecem pessoas do passado quando menos esperamos? Porque certos medos se repetem vezes sem conta nos sonhos ou porque há sonhos que parecem tocar em inseguranças muito profundas? Não significa necessariamente que possa existir um “sinal escondido”. Mas, talvez, exista uma parte de nós a tentar compreender aquilo que acordados evitamos sentir.

 

 

Curiosamente, existem temas que aparecem repetidamente nos sonhos de milhares de pessoas: cair, chegar atrasado, perder dentes, ser perseguido, voar ou reencontrar alguém do passado. E embora não exista uma interpretação universal, os especialistas defendem que estes sonhos estão ligados a emoções reais.

 

Sonhar que estamos a cair pode refletir perda de controlo. Sonhar com perseguições pode revelar ansiedade ou fuga emocional. Sonhar com um ex nem sempre significa saudade; às vezes representa apenas uma ligação emocional mal resolvida ou uma memória que o cérebro decidiu revisitar.

 

 

Sonhar pode ser uma forma de sobrevivência emocional

 

Já todos tivemos aquela sensação estranha de acordar emocionalmente afetados por algo que nunca aconteceu. Um beijo. Uma discussão. Uma perda. Um reencontro. O nosso corpo reage como se tivesse vivido aquilo de verdade. E, de certa forma, até viveu.

 

Os sonhos parecem funcionar como uma espécie de laboratório emocional. O cérebro revisita memórias, reorganiza experiências e até ensaia cenários improváveis, misturando passado, presente e imaginação. Mas, porque sonhamos com pessoas do passado? Esta talvez seja das perguntas mais inquietantes. Porque é que alguém em quem nem sequer pensávamos aparece, subitamente, num sonho? Um(a) ex-namorado(a). Um amigo distante. Uma pessoa que já morreu. Um colega da escola primária que não vemos há vinte anos... A ciência acredita que o cérebro trabalha por associações. Ou seja, uma música, um cheiro, uma emoção ou até uma conversa aparentemente irrelevante podem ativar redes de memória que acabam por surgir nos sonhos. Nem sempre significa saudade ou desejo. Às vezes, é apenas o cérebro a reorganizar arquivos emocionais antigos. Mas há sonhos que nos mexem mais do que deviam, verdade?

 

E depois há os pesadelos. Aqueles sonhos desconfortáveis que nos deixam inquietos mesmo depois de acordar. Curiosamente, alguns investigadores acreditam que até esses sonhos mais “negativos” podem ter uma função importante, ajudando-nos a simular perigos e emoções difíceis num ambiente “seguro”.

 

 

O fascínio dos sonhos lúcidos

 

Depois, existe outro fenómeno ainda mais estranho: os sonhos lúcidos. Aqueles momentos em que percebemos que estamos a sonhar… enquanto estamos a sonhar. Confesso que há sonhos que me deixam a pensar durante horas. Sobretudo aqueles demasiado vívidos, quase cinematográficos.

 

A ciência já estudou este estado intermédio entre o sono e a consciência, onde algumas pessoas conseguem até controlar partes do sonho. E isso já me aconteceu, não gostar do final do sonho e refazer toda a narrativa do mesmo para que termine de forma positiva. Estranho, não é? Mas é uma ideia que me fascina completamente.

 

Imaginar que o cérebro consegue criar uma realidade paralela tão convincente que, durante alguns minutos, acreditamos genuinamente nela… é quase assustador. E ao mesmo tempo incrível. Parece que estamos sob uma matrix...

 

Porém, talvez os sonhos sejam uma forma de nos conhecermos melhor. No fundo, acho que os sonhos acabam por revelar muito mais sobre emoções do que sobre previsões. Talvez sejam uma espécie de espelho imperfeito do nosso estado emocional. Uma mistura entre memórias, desejos, ansiedade, imaginação e experiências acumuladas. Um espaço onde o nosso cérebro tenta “arrumar” aquilo que sentimos, mesmo quando nem nós próprios conseguimos explicar. E talvez seja precisamente por isso que continuam a intrigar-nos tanto.

 

Porque, por mais ciência que exista, haverá sempre qualquer coisa de misterioso naquele momento em que fechamos os olhos… e começamos a viver outra vida, por algumas horas.

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