Digam lá se não concordam comigo: há qualquer coisa de profundamente reconfortante em estar sozinho. E digo isto sendo uma pessoa extremamente sociável, que gosta de conversar, de sair, de estar rodeado de amigos, de rir alto à mesa ou de estar num sunset rodeado de pessoas. Mas também descobri, talvez mais nos últimos anos, que há um lado meu que precisa sempre de algum silêncio, da ausência de ruído, de tempo sem notificações, sem obrigações sociais e sem a pressão constante de “ter de estar”.
Curiosamente, durante algum tempo, achei que isso poderia ser estranho. Vivemos numa sociedade que parece ter medo da solidão. Ir sozinho ao cinema continua a parecer estranho para muita gente. Jantar sozinho num restaurante ainda motiva olhares. Viajar sozinho, então, quase parece um sinal de tristeza para alguns. Como se estar sozinho fosse automaticamente sinónimo de abandono, de um certo fracasso social ou de falta de amigos. E não é, de todo. Há dias em que o melhor programa que posso ter é, simplesmente, estar comigo mesmo. Sem horários, sem qualquer conversa. Sem ter de agradar alguém. E isso não significa isolamento, significa equilíbrio.
O medo de parecer “sozinho”
A verdade é que a solidão não é uma coisa só, tipo preto no branco, que possamos rotular apenas como boa ou má. A solidão é totalmente subjetiva e não tem nada a ver com o sítio onde estamos. Por exemplo, podemos sentir-nos sozinhos no meio de uma multidão em Times Square ou sentir-nos super acompanhados isolados no meio do nada.
Mas há aqui um ponto importante: o escritor norte-americano David Foster Wallace alerta que, muitas vezes, isto está ligado a este individualismo moderno. É aquela mania de acharmos que somos os únicos autores de tudo o que nos acontece, dos nossos sucessos e melhorias. É o discurso típico do 'criador de conteúdos' que nos tenta vender a ideia de que só precisamos de nós próprios e de uma 'vontade de ferro' para vencer, enquanto nos cobra uma fortuna por uma mentoria ("coaching").
Vamos ser honestos: essa autonomia é uma falácia. Mais tarde ou mais cedo, precisamos dos outros. E quanto mais diferentes de nós eles forem, mais precisamos deles. Tudo o que conquistámos até hoje, inclusive o que esse tal criador de conteúdos conquistou, é fruto de um esforço coletivo.
O filósofo espanhol Omar Linares, terapeuta e autor de “La consulta del filósofo”, também vai nesse sentido. Ele liga estes discursos da 'solidão desejada' a uma moda atual de um autocuidado mal-interpretado. É aquela conversa que empurra pessoas que já são egocêntricas a priorizarem-se ainda mais, o que acaba por ter resultados terríveis. E há outro ponto sensível, que se pode tornar perigoso: quanto mais tempo passamos a viver sozinhos, mais manientos e inflexíveis ficamos, simplesmente porque nos desabituamos de ceder e ficamos viciados em fazer só o que nos apetece.
O medo de estar sozinho
Indo um pouco mais longe: lembrei-me de uma outra ideia de David Foster Wallace, que comentava que tinha imensos amigos inteligentes que detestavam ler, não por tédio, mas por uma espécie de pavor: o medo de serem obrigados a estar sozinhos e em silêncio. O filósofo Linares também confirma esta ideia. Ele afirma que temos uma dificuldade enorme em lidar com a solidão porque a vemos sempre através do medo. Baralhamos as coisas e confundimos 'estar sozinho' com o 'medo de estar sozinho', mesmo quando já passámos por momentos de isolamento que não nos fizeram mal nenhum.
O problema é que projetamos os nossos preconceitos na realidade. De alguma forma, a sociedade andou a meter-nos na cabeça que, se estamos sozinhos, é porque não valemos a pena ou não somos 'dignos' de companhia. Daí vem uma certa vergonha. No fundo, esquecemo-nos de que todos nós já nos sentimos superpreenchidos estando sós, da mesma forma que já todos nos sentimos completamente desconectados e apáticos no meio de uma festa cheia de gente.
Aprender a estar connosco
A verdade é que, sendo eu uma pessoa muito social, também me esgoto facilmente do excesso de estímulo. Há uma altura em que preciso de regressar a mim. E aprendi que isso não é egoísmo, nem melancolia. É quase um mecanismo de sobrevivência emocional, um refúgio, um bálsamo.
A solidão escolhida tem uma diferença enorme da solidão imposta. Uma dói, a outra cura. E talvez o problema esteja precisamente aí: nunca fomos ensinados a estar sozinhos. Desde pequenos, habituaram-nos à ideia de que estar acompanhado é sempre melhor. Que uma mesa para um, num restaurante, é triste. Que viajar sozinho é “corajoso”, como se fosse uma coisa extrema. Que ir sozinho a um concerto é estranho. Como se precisássemos permanentemente da validação dos outros para desfrutar da vida.
Eu próprio já senti isso. Já entrei num restaurante sozinho e senti quase necessidade de pegar imediatamente no telemóvel, só para parecer “ocupado”. Como se o simples acto de observar o espaço, de jantar calmamente ou de estar em silêncio fosse desconfortável. Mas hoje vejo isso de outra forma. Hoje, há qualquer coisa de quase luxuosa em conseguir estar sozinho, sem ansiedade.
E não, não estou a falar de isolamento total. Gosto demasiado de pessoas para isso. Gosto de conversas, de amigos, de encontros inesperados, de eventos, de viagens partilhadas. Mas também adoro aquele momento em que chego a casa, fecho a porta e o mundo parece abrandar. Aquela sensação de, finalmente, não precisar de ser ou representar nada para ninguém.
O prazer de estar comigo mesmo
Talvez seja isso que os entendidos chamam de “treinar o músculo da solidão”. Aprender a estar connosco sem desconforto, sem culpa. Sem achar que temos constantemente de preencher todos os vazios com barulho, mensagens ou companhia.
Porque, no fundo, estar bem sozinho é provavelmente uma das maiores formas de liberdade emocional que podemos conquistar. E talvez também uma das mais raras...



































