Vivemos numa época curiosa. Nunca tivemos tantas ferramentas para sermos mais rápidos, mais eficientes e mais produtivos, porém, paradoxalmente, nunca se falou tanto sobre a dificuldade em começar, terminar ou simplesmente desligar.
Três conceitos que ganharam protagonismo muito recentemente ajudam-nos a compreender a forma como nos relacionamos com o tempo: procrastinação, puttering e journaling. Se o primeiro revela a dificuldade em agir perante as exigências do quotidiano, o segundo representa a redescoberta do prazer nas pequenas coisas e o terceiro convida-nos a parar, refletir e escutar aquilo que se passa dentro de nós.
Procrastinação: adiar atividades substituindo-as por outras que dão mais prazer
Procrastinar é adiar voluntariamente uma tarefa ou decisão, mesmo sabendo que esse adiamento poderá trazer consequências negativas. Não se trata apenas de preguiça ou falta de organização: muitas vezes está associado a ansiedade, medo de falhar, perfeccionismo ou à dificuldade em lidar com determinadas emoções.
Quem nunca adiou responder a um email importante, marcar uma consulta, começar aquele projeto que está há semanas na lista de tarefas ou arrumar algo que sabemos que precisa de atenção? O mais curioso é que, muitas vezes, a procrastinação não acontece porque não queremos fazer algo, mas precisamente porque aquilo que temos de fazer tem muita importância. Quanto maior a pressão que colocamos sobre uma tarefa, maior pode ser a tendência para a evitar.
Vivemos rodeados de estímulos que nos oferecem pequenas recompensas imediatas: uma notificação, uma mensagem, uma nova publicação nas redes sociais. E, perante uma tarefa exigente, o cérebro procura frequentemente uma alternativa mais simples e confortável. O problema surge quando o adiamento deixa de ser uma escolha pontual e passa a ser uma forma de viver.
Puttering: a arte de não fazer nada… fazendo alguma coisa
Do outro lado desta equação surge uma expressão que descobri recentemente: puttering. Sem uma tradução direta para português, o conceito descreve aqueles momentos em que fazemos pequenas coisas de forma tranquila, sem pressa e sem uma grande meta definida. Pode ser organizar uma gaveta, cuidar de plantas, preparar algo na cozinha, mexer em objetos pela casa ou, simplesmente, andar de um lado para o outro apenas para deixar que as ideias surjam.
À primeira vista, pode parecer uma perda de tempo. Afinal, numa sociedade onde tudo precisa de ter um objetivo, uma métrica ou um resultado, fazer algo apenas pelo prazer do processo parece quase revolucionário. Mas talvez o puttering seja precisamente aquilo que muitos de nós perdemos: a capacidade de estar presentes sem sentir que estamos sempre atrasados.
Não é procrastinação. A diferença está na intenção. Quando procrastinamos, evitamos algo que sabemos que precisa de ser feito e ficamos frequentemente acompanhados por culpa ou ansiedade. No puttering, não estamos a fugir da vida, estamos simplesmente a “habitá-la” de uma forma mais lenta.
Journaling: escrever para abrandar e compreender
Se o puttering nos convida a abrandar através da ação, o journaling propõe uma pausa através da reflexão. Embora muitas vezes associado ao tradicional “diário pessoal”, o journaling ganhou uma nova dimensão nos últimos anos. Mais do que registar acontecimentos do dia que passou, trata-se de criar um espaço de diálogo connosco próprios, onde podemos organizar pensamentos, reconhecer emoções, definir intenções e compreender melhor aquilo que estamos a viver.
Num mundo onde somos constantemente estimulados a responder, produzir e avançar, escrever algumas linhas pode ser uma forma simples de recuperar silêncio interior. O journaling não exige grandes textos, nem regras rígidas. Pode ser uma reflexão sobre algo que nos marcou, uma lista de gratidão, uma ideia que queremos explorar ou, simplesmente, algumas palavras para colocar em ordem aquilo que sentimos.
Tal como o puttering, também representa uma resistência à velocidade dos nossos dias. É um momento sem pressa, sem comparação e sem a necessidade de mostrar resultados imediatos. Talvez a verdadeira importância do journaling não esteja apenas na escrita, mas no acto de parar. Porque, antes de sabermos para onde queremos ir, precisamos muitas vezes de perceber onde estamos.
Três formas de nos relacionarmos com o tempo
A procrastinação nasce muitas vezes de uma relação difícil com o tempo: sentimos pressão, acumulamos tarefas, adiamos e, depois, carregamos culpa. Já o puttering nasce quase do oposto: é uma relação mais leve com o tempo, em que aceitamos que nem todos os momentos precisam de produzir algo mensurável. O journaling surge como uma terceira via: um espaço de pausa e reflexão que nos permite perceber o que sentimos, o que adiamos e aquilo que realmente valorizamos.
Se a procrastinação nos afasta da ação e o puttering nos reconecta com o presente, o journaling ajuda-nos a compreender o nosso próprio ritmo. Numa sociedade de performance, em que até o descanso parece ter de ser otimizado (descanso para voltar a produzir mais), o puttering surge quase como um pequeno ato de liberdade. Não é preguiça, não é desorganização, não é falta de ambição. É permitir-se estar. O journaling acompanha esse mesmo movimento. Num mundo onde somos constantemente chamados a responder, produzir e avançar, escrever algumas linhas pode ser uma forma simples de recuperar silêncio interior e criar espaço para a introspeção.
É a diferença entre “perder tempo”, “passar tempo” e “dar tempo a nós próprios”. Durante décadas fomos educados para acreditar que o tempo só tem valor quando gera um resultado. Mas muitas das memórias que guardamos: uma conversa sem pressa, cozinhar, passear sem destino, cuidar de algo, não tinham qualquer objetivo prático e, no entanto, têm um enorme valor emocional.
E talvez seja essa a razão pela qual estes três conceitos estão a ganhar tanta força agora, pois todos respondem, à sua maneira, ao mesmo problema: vivemos numa sociedade acelerada, híper-conectada e permanentemente avaliada. Podemos procrastinar porque estamos esmagados pelo excesso de exigência; podemos procurar o puttering porque precisamos de recuperar uma relação mais humana com o quotidiano; e podemos recorrer ao journaling porque sentimos necessidade de parar e ouvir aquilo que acontece dentro de nós.
Entre a produtividade, a presença e a reflexão
Talvez o verdadeiro desafio dos nossos tempos seja encontrar um equilíbrio. Precisamos de saber agir quando é necessário, cumprir compromissos e avançar com os nossos objetivos. Mas também precisamos de recuperar pequenos momentos sem pressão, onde não estamos constantemente a tentar otimizar cada minuto do nosso dia. Afinal, nem sempre o tempo precisa de ser produtivo para ter valor.
O puttering surge como uma resposta silenciosa a uma sociedade obcecada pela velocidade. Uma forma de lembrar que há prazer nas pequenas tarefas, nos gestos simples e nesses momentos, aparentemente, insignificantes que, no fundo, constroem a nossa relação connosco próprios. O journaling acrescenta uma outra dimensão: a importância de parar para escutar o nosso “eu” interior. Num quotidiano em que somos constantemente estimulados a fazer muito mais e mais depressa, escrever, refletir e organizar pensamentos pode ser uma forma de recuperar uma ligação mais profunda com aquilo que sentimos e desejamos.
Entre o “faço amanhã” da procrastinação, o “faço tranquilamente” do puttering e o “páro para compreender” do journaling existe uma diferença essencial: a primeira prende-nos ao tempo, o segundo devolve-nos tempo e o terceiro ajuda-nos a perceber como queremos vivê-lo. Estes três conceitos, juntos, acabam por formar quase uma filosofia de vida: agir quando é preciso, abrandar quando é possível e escutar quando é necessário. Porque, no fim, talvez a verdadeira questão não seja quanto tempo temos, mas a forma como escolhemos “habitá-lo”.


































