Sol, praia, corpos bronzeados, copos com gelo, amigos que parecem estar a divertir-se imenso... Famílias felizes, hotéis maravilhosos. E pôr do sol, muitos pores do sol. Se acreditássemos em tudo o que a publicidade e as redes sociais nos mostram durante estes meses, chegaríamos facilmente à conclusão de que, no verão, ninguém está triste.
Nem sozinho, nem preocupado, nem sem dinheiro. Nem sequer aborrecido. No verão, aparentemente, somos todos felizes. Ou, pelo menos, temos de parecê-lo. Mas aí eu pergunto-me: a felicidade também tem uma estação do ano? Foi um artigo que li recentemente na Meios & Publicidade, sobre a forma como as campanhas estivais podem potenciar aquilo a que se chama «positividade tóxica», que me deixou a pensar...
Porque basta olhar à nossa volta. A publicidade sempre nos vendeu aspirações. Faz parte da sua natureza. Não esperamos propriamente que uma campanha de férias nos mostre alguém a discutir com o companheiro porque se enganaram na saída da auto-estrada ou uma família desesperada porque as malas não chegaram ao aeroporto.
Contudo, no verão essa construção de um mundo perfeito parece atingir outra dimensão. Tudo é leve, tudo é bonito. Toda a gente tem amigos, toda a gente tem alguém, toda a gente está bronzeada, descontraída e, aparentemente, com dinheiro suficiente para estar num lugar maravilhoso.
E depois chegaram as redes sociais, onde deixámos de ser apenas consumidores dessa publicidade. Passámos, também, a produzi-la. Sim, é verdade!
Os publicitários das nossas próprias vidas
Pensemos nas fotografias das nossas férias. Escolhemos a praia mais bonita, o melhor ângulo da piscina. Esperamos que ninguém passe atrás quando fotografamos o pôr do sol. Fotografamos o prato antes de começar a comer. Escolhemos entre cinco fotografias aquela em que parecemos melhor.
Nada disso tem necessariamente mal algum. Eu também o faço, por vezes. O problema começa, talvez, quando nos esquecemos de que os outros estão a fazer exatamente a mesma coisa. Porque aquilo que aparece no Instagram não é necessariamente falso, é selecionado.
E há aqui uma diferença importante. Aquela pessoa esteve realmente naquela praia paradisíaca. O cocktail existiu, o hotel era bonito, ou o jantar aconteceu. O sorriso pode até ter sido absolutamente genuíno. Só não sabemos o que aconteceu cinco minutos antes ou cinco minutos depois... Talvez tenham discutido. Talvez o hotel tenha sido uma desilusão. Talvez aquela pessoa esteja preocupada com o trabalho. Talvez aquela viagem tenha sido paga em prestações. Ou talvez esteja simplesmente a passar umas férias maravilhosas, o que também acontece, felizmente.
A questão é outra: vemos alguns segundos cuidadosamente escolhidos da vida de alguém e, sem percebermos, podemos compará-los com as 24 horas da nossa. E essa comparação é manifestamente injusta.
Positividade tóxica não é felicidade a mais
Convém esclarecer uma coisa. A positividade tóxica não significa que ser positivo seja mau. Nem que devamos desconfiar de quem está genuinamente feliz. O problema está na ideia de que apenas as emoções positivas são aceitáveis e que tristeza, frustração, solidão, ansiedade ou, simplesmente, um dia mau devem ser rapidamente substituídos por um «pensa positivo».
No verão, essa pressão pode tornar-se particularmente visível porque tudo à nossa volta parece dizer-nos que esta é a altura do ano em que temos obrigação de estar bem. É verão! Está sol! Vai à praia, aproveita!
Como se uma estação do ano tivesse o poder de suspender problemas, preocupações, contas para pagar, relações complicadas ou, simplesmente, o direito a não nos apetecer estar radiantes.
E quem disse que estamos todos de férias?
Há ainda outra coisa curiosa nesta felicidade estival aparentemente coletiva: quem decidiu que tiramos todos férias em agosto? Eu, por exemplo, só vou de tirar uns dias de férias em setembro.
No entanto, basta abrir as redes sociais durante estas semanas para ter a sensação de que o país inteiro fechou para férias e se mudou temporariamente para uma praia, uma piscina ou uma esplanada algures no Mediterrâneo. Agosto adquiriu uma espécie de estatuto oficial de mês da felicidade. É quando supostamente descansamos, viajamos, estamos com os amigos, aproveitamos a família, namoramos, bronzeamos e colecionamos pores do sol. Tudo em simultâneo. Só que a vida real não funciona assim.
Há quem trabalhe em agosto. Quem prefira junho ou setembro. Ou quem não goste particularmente de praia, quem não viaje. Quem esteja sozinho, quem esteja preocupado com dinheiro. Quem esteja a atravessar um momento difícil... E há quem, simplesmente, não esteja particularmente feliz. E nada disso deixa de ser verão. Talvez o mais curioso seja termos criado não apenas uma imagem da felicidade, mas também um calendário para ela. Como se houvesse uma altura certa para sermos felizes. E, pelos vistos, é em agosto.
A viagem perfeita também pode cansar
Há ainda uma ironia particularmente interessante em tudo isto. Ao querermos mostrar aos outros como estamos a aproveitar as férias, podemos acabar preocupados com a forma como as próprias férias vão parecer aos olhos dos outros.
A viagem deixa, então, de ser apenas uma experiência e transforma-se também em conteúdo. Onde fotografar? Qual publicar? Esta está suficientemente bonita? E quantos likes teve? E enquanto decidimos qual das fotografias melhor representa aquele momento perfeito, talvez estejamos precisamente a deixar escapar parte do momento.
Investigações sobre redes sociais têm vindo a estudar esta relação entre autopresentação, comparação e bem-estar. E um estudo recente dedicado especificamente à partilha de viagens encontrou uma associação curiosa: quanto maior a preocupação em gerir a impressão transmitida através das publicações, maior tendia a ser a ansiedade associada a publicar e menor a satisfação relatada com a própria viagem.
Talvez a velha frase «pics or it didn't happen» tenha ganho uma dimensão que nunca imaginámos. Às vezes, parece que já não basta viver, é preciso provar que vivemos.
Não culpemos apenas o Instagram
Seria demasiado fácil transformar as redes sociais no vilão desta história. Elas também nos aproximam, permitem-nos acompanhar amigos que estão longe, descobrir lugares, guardar memórias e partilhar momentos de que genuinamente gostamos.
E ver alguém feliz também pode simplesmente deixar-nos felizes. O problema não é publicar. O problema talvez esteja em confundir publicação com realidade.
Na publicidade sabemos que existe uma produção. Sabemos que aquela mesa foi preparada, aquela luz escolhida, aqueles modelos selecionados e aquela fotografia trabalhada. Porém, nas redes sociais, essa fronteira é muito mais difusa porque conhecemos, ou julgamos conhecer, quem está do outro lado.
E esquecemo-nos de que também ali existe edição. Não necessariamente Photoshop, mas edição da vida, do que ficou fora da fotografia
Talvez seja esta a coisa de que devêssemos lembrar-nos quando, numa terça-feira de agosto, estamos sentados ao computador a trabalhar e abrimos o Instagram para encontrar alguém mergulhado numa piscina nas Maldivas. A vida dele não é necessariamente melhor do que a nossa. Naquele momento, a fotografia é que é. E podemos apreciá-la. Podemos pôr um like. Podemos até pensar «que inveja!» e começar a sonhar com a nossa próxima viagem.
Só não precisamos de transformar os momentos felizes dos outros numa prova daquilo que supostamente falta à nossa vida. Até porque quem está naquela piscina também tem uma vida fora daquele quadrado.
Talvez o verão possa ser só verão
Gosto do verão, a sério! Gosto de esplanadas, das noites quentes, de praia, de viagens e, sim, também gosto de um belo pôr do sol. Não quero transformar a silly season numa sessão coletiva de melancolia. Muito pelo contrário, apenas quis fazer uma reflexão. Porque talvez devêssemos apenas devolver ao verão o direito de não ser perfeito. Podemos ter férias maravilhosas e dias péssimos durante as mesmas férias. Podemos viajar para o outro lado do mundo ou ficar em casa. Podemos ir de férias em agosto, setembro, dezembro ou quando nos apetecer (ou quando pudermos).
Podemos publicar vinte fotografias ou nenhuma. E podemos escolher estar felizes sem mostrar a ninguém. Porque o problema nunca foi a fotografia do pôr do sol. O problema é começarmos a achar que a vida dos outros é o pôr do sol inteiro, quando estamos apenas a ver a fotografia.
E, já agora, se ainda estão a trabalhar enquanto parece que toda a gente está de férias, não se preocupem. Eu também.































