Embora o eclipse do Sol tenha tomado conta das notícias nos últimos dias, houve outra data que não queria deixar passar em branco. No passado dia 6 de agosto, a Ponte 25 de Abril celebrou 60 anos.
Quando nasceu, em 1966, eu ainda não era nascido (chegaria três anos depois). Mas é uma daquelas construções que sempre fizeram parte da paisagem urbana que conheço e, provavelmente por isso, nem sempre paramos para pensar na extraordinária obra de engenharia que atravessamos ou contemplamos tantas vezes.
Inaugurada a 6 de agosto de 1966 como “Ponte Salazar”, só depois da Revolução de 1974 receberia o nome de “Ponte 25 de Abril”. Naquele verão de 66, Portugal inaugurava a primeira ligação rodoviária entre Lisboa e a margem sul do Tejo, concretizando uma ideia que vinha de muito longe e transformando para sempre a mobilidade entre as duas margens.
E que ponte! Foram necessários menos de quatro anos para a construir, numa empreitada que envolveu diariamente cerca de 3.000 trabalhadores, 14 empresas de construção civil, 11 delas portuguesas, e dezenas de milhares de toneladas de aço.
Com um vão principal de 1.013 metros, duas torres que se elevam 196 metros acima do nível da água e uma distância entre amarrações superior a dois quilómetros, foi uma das grandes obras públicas portuguesas do século XX.
Lisboa com um toque de São Francisco
É difícil olhar para a "Ponte 25 de Abril" sem pensar em São Francisco. A estrutura suspensa, as enormes torres metálicas e, claro, aquele tom avermelhado estabelecem imediatamente uma associação à célebre "Golden Gate Bridge".
A comparação acompanha a ponte praticamente desde que nasceu e não é inteiramente descabida. Mas a história é mais interessante do que uma simples parecença. A construção esteve a cargo da norte-americana American Bridge Company e a engenharia da ponte portuguesa insere-se na grande tradição das pontes suspensas norte-americanas do século XX. Curiosamente, do ponto de vista estrutural, encontramos também afinidades com outra ponte de São Francisco, a "San Francisco–Oakland Bay Bridge".
Há, aliás, um curioso jogo de semelhanças entre Lisboa e São Francisco. À primeira vista, a "Ponte 25 de Abril" parece uma espécie de “prima” da Golden Gate: ambas são pontes suspensas, ambas recortam a paisagem com enormes torres metálicas e ambas partilham o inconfundível international orange, uma tonalidade pouco habitual neste tipo de estruturas e que se tornou uma das imagens de marca da ponte californiana.
Mas basta olhar com maior atenção para descobrir que a verdadeira parente americana da nossa ponte está alguns quilómetros mais à frente: a San Francisco–Oakland Bay Bridge. As duas foram construídas pela American Bridge Company e partilham soluções estruturais muito semelhantes, nomeadamente os característicos reforços em cruz das torres, ao contrário dos elementos mais quadrangulares da Golden Gate, e a existência de dois tabuleiros. Ou seja, a "Ponte 25 de Abril" tem a aparência que nos faz pensar na Golden Gate, mas, estruturalmente, pertence muito mais à família da Bay Bridge. Uma espécie de irmã visual de uma e prima engenheira da outra.
E as coincidências não ficam pela engenharia: tanto a "Ponte 25 de Abril" como a "Golden Gate" já tiveram direito a aparecer no universo cinematográfico de James Bond: a portuguesa em On Her Majesty’s Secret Service, de 1969, e a californiana em A View to a Kill, de 1985. porém, a ponte de Lisboa foi inaugurada quase 30 anos após a conclusão da construção da ponte de São Francisco.
Mas seja qual for a comparação, há algo que hoje parece indiscutível: a "Ponte 25 de Abril" tornou-se tão inseparável da imagem de Lisboa como qualquer um dos seus monumentos históricos.
Uma ponte que mudou duas margens
A sua importância, porém, está muito para além da fotografia. A ponte aproximou Lisboa de Almada e contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da Margem Sul. Tornou possíveis novas rotinas de trabalho e de habitação, e alterou profundamente a forma como milhares de pessoas passaram a relacionar-se diariamente com a capital.
Também houve um preço humano que não deve ser esquecido. A construção dos acessos à ponte provocou o desalojamento de milhares de moradores do Vale de Alcântara, num processo que, na época, foi duramente criticado pelas condições em que muitas famílias foram realojadas. Sessenta anos de história permitem-nos olhar para uma obra desta dimensão também com todas as suas circunstâncias.
E a ponte continuou a transformar-se.
Quando foi inaugurada, os automóveis ocupavam o tabuleiro que todos conhecemos. Mas a estrutura já tinha sido concebida prevendo a possibilidade de uma ligação ferroviária. Os comboios só começariam a atravessar o Tejo por ali mais de 30 anos depois.
Hoje, passam diariamente pela “Ponte 25 de Abril” cerca de 150 mil veículos e 174 comboios. Apesar da abertura da “Ponte Vasco da Gama”, em 1998, continua a ser a travessia mais utilizada sobre o Tejo e serve mais de 100 milhões de utilizadores por ano. Nada mau para uma sexagenária...
Sessenta anos e continua ali
Talvez seja precisamente isso que mais me impressione. Habituámo-nos tanto à “Ponte 25 de Abril” que quase deixámos de olhar para ela. Está ali quando atravessamos o Tejo, quando passamos por Alcântara e olhamos para cima, quando observamos Lisboa da margem sul ou quando a vemos surgir ao fundo numa fotografia. Faz parte da cidade, do perfil da sua paisagem.
Ao longo destes 60 anos mudou de nome, ganhou mais vias, recebeu comboios, atravessou uma revolução, viu nascer outra grande ponte sobre o Tejo e assistiu à transformação completa das duas margens que une. E continua ali, de pé!
Parabéns, “Ponte 25 de Abril”!









































