Quando a inteligência artificial começa a ocupar o lugar do escritor, surgem perguntas que vão muito além da tecnologia. O que acontece à criatividade, à autoria e à confiança de quem lê? 

Como vocês sabem, gosto de partilhar aqui os meus gostos, as minhas descobertas, os lugares que visito, os espetáculos a que assisto e tudo aquilo que, de alguma forma, me desperta interesse. Porque, para além de gostar de partilhar, espero que também suscite o interesse de quem me acompanha e segue. Mas também gosto de parar, observar o mundo à nossa volta e refletir convosco sobre aquilo que estamos a viver e, sobretudo, sobre o caminho que estamos a seguir. 

Ao longo dos anos, tenho partilhado curiosidades, histórias, efemérides e acontecimentos que considero importantes recordar. Foi assim com os “60 anos da ponte 25 de Abril”, com o “Procrastinação, Puttering e Journaling”, com a trágica história de Matthew Shepard e com tantos outros assuntos e temas que, por diferentes razões, me tocaram e me fizeram trazer até vocês. Porque acredito que recordar também é uma forma de preservar a memória e que refletir é uma maneira de não aceitarmos tudo aquilo que nos rodeia sem questionar. 

Aliás, talvez seja precisamente essa liberdade que explique a longevidade do Liberio’s Leisures. Quando comecei este blogue, há 17 anos, numa altura em que os blogues se multiplicavam e muitos se dedicavam exclusivamente à moda, à gastronomia, às viagens ou a qualquer outro tema específico, nunca quis limitar-me a um único universo. Queria um espaço verdadeiramente meu, onde pudesse escrever sobre aquilo que me desse prazer, me despertasse curiosidade ou simplesmente me apetecesse partilhar. 

E o próprio nome que adoptei acabou por traduzir essa intenção. Liberio’s Leisures, os meus lazeres, os meus interesses, os meus filmes, as minhas descobertas e, porque não, as minhas inquietações. Talvez por isso continue aqui, tantos anos depois, com a mesma vontade de escrever e de conversar convosco. 

E hoje volto a fazê-lo, desta vez a propósito de um assunto que me deixou particularmente pensativo e que está a transformar, de forma silenciosa, uma das áreas mais fascinantes da indústria cultural: a literatura.


E se o livro que estamos a ler não tiver sido escrito por quem pensamos? 

Imaginem que entram numa livraria, percorrem as estantes, escolhem um romance, leem a sinopse e acabam por levá-lo para casa. Talvez vos tenha conquistado o título, a capa ou a promessa de uma história emocionante. Começam a ler. Envolvem-se com as personagens, emocionam-se com determinadas passagens e, eventualmente, identificam-se com aquilo que está escrito. 

Mas e se descobrissem que grande parte daquele livro não nasceu da imaginação de um escritor, mas de um sistema de inteligência artificial? Sentir-se-iam enganados? Ou o que realmente importa é a qualidade da história, independentemente de quem, ou do que, a escreveu? A pergunta deixou de pertencer exclusivamente ao domínio da ficção científica... 

Uma investigação que levanta muitas questões 

No passado dia 13 de outubro, o conceituado jornal espanhol El País publicou uma investigação sobre a presença de inteligência artificial em livros populares vendidos em Espanha. Os jornalistas analisaram 119 obras publicadas em 2025 e 2026, recorrendo a uma ferramenta de deteção de conteúdos gerados por inteligência artificial. 

Os resultados foram surpreendentes: 35 livros apresentaram indícios de utilização de IA e, em 13 deles, a ferramenta classificou mais de metade do texto como potencialmente gerado por esta tecnologia. Um pormenor particularmente curioso é que os 13 livros com maior presença de texto sinalizado eram obras de publicação independente, muitas delas romances de temática amorosa. 

Para se estabelecer uma comparação, foram também analisados 56 livros publicados em 2019 e 2020, antes da popularização dos atuais sistemas de inteligência artificial generativa. Nenhum apresentou sinais de utilização desta tecnologia, segundo o mesmo método. 

Convém, contudo, fazer aqui uma ressalva importante: estas ferramentas não são infalíveis. Os resultados representam indícios estatísticos, não provas definitivas de que determinado autor tenha recorrido à inteligência artificial. Ainda assim, a investigação levanta uma questão incontornável: estaremos a entrar numa época em que já não sabemos verdadeiramente quem escreveu aquilo que lemos? 


A criatividade humana pode ser substituída? 

Não tenho qualquer intenção de “demonizar” a inteligência artificial. Seria, aliás, uma posição pouco razoável perante uma tecnologia que já faz parte do nosso quotidiano e que pode ser extremamente útil. 

A IA pode ajudar a pesquisar, organizar ideias, rever textos, traduzir conteúdos ou ultrapassar dificuldades técnicas. E, pessoalmente, não vejo nehnum problema nisso. 

Mas parece-me existir uma diferença importante entre utilizar uma ferramenta como apoio à criação e entregar-lhe praticamente todo o processo criativo. Escrever um romance não é apenas juntar palavras de forma coerente. É transformar experiências, memórias, observações, emoções e até contradições humanas numa narrativa. 

Quando lemos um livro, não procuramos apenas uma sucessão de acontecimentos. Procuramos também uma voz, uma perspetiva sobre a vida, uma sensibilidade que nos permita descobrir algo sobre os outros ou sobre nós próprios. 

Será que uma máquina consegue reproduzir tudo isso? Talvez consiga imitar determinados estilos, construir personagens convincentes e produzir histórias capazes de emocionar. Mas será que essa emoção tem o mesmo significado quando sabemos que não nasceu de uma experiência humana? Não tenho uma resposta definitiva. E talvez seja precisamente por isso que vale a pena refletir. 


O direito de saber quem está por detrás das palavras 

Há ainda outra questão que considero fundamental: a transparência. A Amazon, através da sua plataforma Kindle Direct Publishing, exige que os autores declarem quando os conteúdos publicados foram gerados por inteligência artificial. A plataforma distingue, no entanto, os conteúdos efetivamente produzidos por IA daqueles em que a tecnologia foi utilizada apenas como ferramenta de apoio. É uma distinção que me parece importante. 

Também a Authors Guild, associação norte-americana de escritores, tem alertado para os riscos de acusações injustas baseadas exclusivamente em ferramentas de deteção de IA, defendendo maior transparência por parte de autores e editoras. Afinal, a questão não deveria ser apenas saber se a inteligência artificial participou na criação de um livro, mas compreender de que forma participou. 

Pessoalmente, não me incomodaria saber que um escritor utilizou uma ferramenta tecnológica para rever um manuscrito ou organizar uma investigação. Mas gostaria de saber se uma obra apresentada como fruto da sua criatividade foi, na realidade, maioritariamente produzida por uma máquina. 

Porque, enquanto leitor, considero que essa informação também faz parte da relação de confiança que estabelecemos com quem escreve. 


Quando as palavras deixam de parecer nossas 

Há, contudo, uma outra dimensão desta transformação que merece a nossa atenção. E que ultrapassa largamente o universo dos livros. Numa reflexão publicada pela revista Visão, a propósito dos desafios da inteligência artificial na escrita, encontrei uma observação particularmente interessante da linguista norte-americana Naomi Baron, autora do livro Who Wrote This?, publicado em 2023. 

A investigadora chama a atenção para algo que talvez estejamos a começar a sentir, mesmo sem nos apercebermos: a perda da ligação pessoal às palavras que escrevemos. Quando entregamos a uma ferramenta de inteligência artificial a tarefa de redigir um texto, podemos ganhar tempo, melhorar a estrutura das frases e até encontrar expressões que dificilmente nos ocorreriam naquele momento. Mas será que continuamos a reconhecer-nos inteiramente naquilo que está escrito? 

A questão parece-me particularmente pertinente numa época em que a rapidez e a eficiência se tornaram quase obsessões. Porque escrever também é pensar. É procurar a palavra certa, hesitar, reformular uma ideia, descobrir que afinal não queríamos dizer exatamente aquilo que inicialmente tínhamos imaginado. E, por vezes, é precisamente nesse exercício que encontramos a nossa própria voz e identidade. 

Não me parece que o problema esteja em recorrer à tecnologia. Está, talvez, em deixarmos de participar verdadeiramente no processo criativo. Porque uma coisa é pedir ajuda para encontrar a melhor forma de transmitir uma ideia. Outra, bem diferente, é permitir que alguém, ou alguma coisa, tenha todas as ideias por nós. 

E se um dia começarmos a escrever todos da mesma maneira, com as mesmas expressões, os mesmos ritmos e as mesmas fórmulas, o que acontecerá à individualidade que torna cada autor, cada livro e cada história diferentes? 

Talvez o verdadeiro desafio não seja impedir que as máquinas aprendam a escrever como nós, mas garantir que nós não acabamos por escrever todos como as máquinas.


E o futuro da literatura? 

A história tem-nos mostrado que a evolução tecnológica sempre transformou as formas de criar e de comunicar. 

A imprensa revolucionou a circulação do conhecimento. O computador alterou profundamente os processos de escrita e edição. A internet abriu possibilidades de publicação que antes estavam reservadas a um número relativamente reduzido de pessoas. 

A inteligência artificial poderá representar mais uma dessas grandes transformações. Mas há algo que espero que nunca se perca: o valor da singularidade humana. 

Gosto de pensar que, por detrás de um livro, existe alguém que viveu, observou, imaginou, sofreu, amou ou, simplesmente, sentiu necessidade de contar uma história. Alguém que escolheu aquelas palavras e não outras. Que hesitou perante uma frase, que apagou páginas inteiras ou que encontrou, numa determinada expressão, a forma exata de transmitir aquilo que sentia. 

Talvez possa ser uma visão romântica da literatura. Admito que sim. Mas, num mundo em que tudo parece acontecer cada vez mais depressa, em que a produção de conteúdos se multiplica a uma velocidade impressionante, pergunto-me se não estaremos também a correr o risco de desvalorizar o tempo, o esforço e a sensibilidade que existem por detrás da criação. 

E termino com uma pergunta, uma reflexão, que gostava de vos deixar: Se um livro vos emocionasse profundamente e, no final, descobrissem que tinha sido escrito quase inteiramente por inteligência artificial, essa descoberta mudaria a forma como olhariam para a história? 

Eu confesso que, provavelmente, sim. Não iriam desvalorizar o que a história vos fez sentir, mas, certamente, poriam a mesma em causa. Não porque a emoção que sentiram durante a leitura deixasse de existir, pois, para mim, a literatura sempre foi também uma forma de encontro entre pessoas. E gostaria muito que continuasse a sê-lo.

 


Fontes de referência: El País, artigo de investigação de 13 de outubro de 2026; revista Visão, edição n.º 1755, de 22 de outubro de 2026, «A ameaça da Inteligência Artificial: Quando os textos parecem todos iguais uns aos outros»; Amazon Kindle Direct Publishing, diretrizes sobre conteúdos gerados por IA; Authors Guild, recomendações sobre inteligência artificial e deteção de conteúdos. 

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