Vou-vos falar de imagens que ultrapassaram o vestuário e que se tornaram linguagem visual. Sempre fui fascinado por fotografia. Muito antes de trabalhar numa revista, de escrever sobre moda ou de pensar em estética como discurso, passava horas a folhear revistas apenas para olhar imagens. Comprava a Vogue francesa, italiana ou americana sempre que conseguia. E ainda guardo alguns números antigos. Também descobri a revista Photo ainda muito jovem e fiquei rendido à forma como a imagem podia ser provocadora, silenciosa, elegante ou desconfortável, tudo ao mesmo tempo.

A moda, para mim, nunca foi apenas roupa. Foi sempre imagem. Uma pose, um gesto congelado. Um olhar captado no instante certo. Uma fotografia capaz de contar uma história inteira sem precisar de palavras. Este meu texto nasce desse fascínio antigo e persistente. De imagens que me marcaram, que me ensinaram a olhar e que continuam a fazer sentido muitos anos depois. Não é uma lista definitiva, nem pretende ser académica. É um percurso pessoal por fotógrafos e imagens que ajudaram a construir a forma como vejo a moda até hoje.

 

Porque ao longo de décadas, certos fotógrafos transformaram a moda numa linguagem visual autónoma, capaz de atravessar o tempo sem perder força. Esta é uma abordagem pessoal, mas também histórica, por olhares que definiram a forma como a moda foi vista, desejada e reinterpretada. Alguns nomes são inevitáveis. Outros ficaram, injustamente, mais esquecidos. Porém, todos ajudaram a construir este imaginário coletivo. Este é um breve percurso por algumas dessas imagens...

 


 

Construir o ícone

 

Há fotógrafos que abordaram a moda como um exercício de rigor, composição e controlo absoluto da imagem. O corpo torna-se escultura, o gesto é pensado e cada detalhe contribui para uma ideia clara de elegância e força visual. Nestes olhares, a moda afirma-se como construção estética e não como simples registo.

 

Richard Avedon - O movimento como elegância

Avedon ensinou-nos que a moda podia respirar. Que o corpo não precisava de estar estático para ser elegante. As suas imagens têm movimento, vida, emoção. Há nelas uma energia que atravessa décadas sem perder atualidade. Mais do que vestir modelos, Avedon vestiu atitudes.

 


 

Irving Penn - Rigor, silêncio e forma

Penn fez exatamente o oposto e, ainda assim, chegou ao mesmo lugar. O seu trabalho é feito de contenção, de forma, de silêncio. Cada fotografia parece suspensa no tempo. A moda, nas suas imagens, transforma-se em escultura. Olhar para Irving Penn é perceber que menos pode ser absolutamente tudo.

 


 

Patrick Demarchelier – Elegância natural

Patrick Demarchelier trouxe uma elegância fluida e descomplicada à fotografia de moda. As suas imagens parecem espontâneas, mas são cuidadosamente construídas, equilibrando sofisticação e proximidade. Há nelas uma naturalidade rara, onde a roupa, o corpo e a atitude coexistem sem esforço. Demarchelier mostrou que o ícone não precisa de rigidez para ser memorável.

 


 

Bill King - Um nome esquecido, uma estética marcante

Bill King é um daqueles fotógrafos que, apesar de menos falados hoje, ajudou a consolidar a estética editorial de moda nos anos 70 e 80. O seu olhar cruzava glamour, corpo e uma certa teatralidade própria da época, muitas vezes com uma energia contagiante, distanciando-se da fotografia de estúdio mais clássica. É um nome que vale a pena recuperar, precisamente porque nos lembra que a história da imagem de moda não é feita apenas dos nomes “de sempre”, mas também de quem construiu linguagem ao lado deles.

 


 

Annie Leibovitz – A imagem como narrativa emocional

Leibovitz trouxe para a fotografia de moda uma dimensão profundamente narrativa e emocional. As suas imagens não se limitam a mostrar roupa ou pessoas, contam histórias completas. Há sempre um contexto, um cenário, uma atmosfera que envolve o retratado. Moda, celebridade e cinema cruzam-se num mesmo plano, criando imagens que permanecem na memória pela carga emocional e pela construção visual cuidada.

 


 

Corpo, provocação e liberdade

 

A partir de certa altura, a fotografia de moda deixou de procurar apenas a beleza formal. O corpo ganhou protagonismo, a narrativa tornou-se mais direta e a imagem passou a provocar, questionar e desafiar convenções. A moda encontrou aqui um espaço de liberdade, onde sensualidade, humor e tensão convivem sem filtros.

 

Helmut Newton - Poder, provocação e tensão

Newton mudou o jogo. As suas imagens não pedem permissão. São diretas, gráficas, carregadas de tensão. A moda deixou de ser apenas bonita para se tornar desconfortável, poderosa e profundamente sexual. Goste-se ou não, Helmut Newton redefiniu o imaginário visual da moda.

 

 

Guy Bourdin - Narrativa, cor e inquietação

Bourdin criou imagens que parecem fragmentos de filmes estranhos. Há nelas algo de inquietante, de incompleto, de provocador. A moda surge como parte de uma história maior, muitas vezes perturbadora. É impossível confundir uma imagem de Guy Bourdin com qualquer outra.

 


 

Bruce Weber - O corpo como liberdade

Bruce Weber trouxe uma nova naturalidade à fotografia de moda. Corpos reais, movimento espontâneo, sensualidade sem pose rígida. As suas imagens respiram juventude, liberdade e uma certa inocência provocadora. Weber não construiu personagens. Captou momentos.

 


 

Herb Ritts - O corpo como forma perfeita

Ritts elevou o corpo humano a escultura. As suas imagens, muitas vezes em preto e branco, são exercícios de luz, músculo e proporção. Existe nelas uma sensualidade clara, mas nunca gratuita. A moda, sob a sua lente, tornou-se clássica e contemporânea ao mesmo tempo.

 


 

Ellen von Unwerth - Humor, liberdade e feminilidade

Com a alemã von Unwerth, a moda ganhou leveza e irreverência. As suas imagens celebram o corpo, o riso, o jogo. Há nelas uma feminilidade livre, longe da rigidez ou da pose forçada. São fotografias que parecem vividas, não encenadas.

 

 


Moda como narrativa e espetáculo

 

A partir de um certo momento, a fotografia de moda deixou de se limitar à construção da imagem ou à provocação do corpo. Tornou-se narrativa, comentário cultural e espetáculo visual. As imagens passaram a contar histórias, a refletir o espírito do seu tempo e, muitas vezes, a amplificá-lo. A moda entrou definitivamente no território da encenação. Neste período, a moda deixou de ser apenas vestuário para se transformar em linguagem. Cada editorial passou a funcionar como um enredo, cada campanha como uma encenação pensada ao detalhe. A fotografia ganhou escala, conceito e intenção. Já não bastava criar uma imagem forte; era preciso criar um universo.

 

Steven Meisel - A moda como narrativa total

Steven Meisel é, talvez, o fotógrafo que mais profundamente moldou a moda contemporânea. Cada editorial é uma história completa, onde imagem, conceito e tempo dialogam de forma intensa.

 


 

Mario Testino - Glamour e personalidade

Testino captou como poucos a personalidade por detrás da roupa. As suas imagens combinam luxo, proximidade e carisma, criando ícones reconhecíveis à primeira vista.

 

 

 

Nick Knight - Inovação e futuro

Nick Knight questionou o próprio meio fotográfico. Moda, tecnologia e experimentação cruzam-se no seu trabalho, abrindo caminho para novas linguagens visuais.

 


 

David LaChapelle - Excesso, cor e cultura pop

LaChapelle levou a moda ao limite do espetáculo. As suas imagens são saturadas, teatrais e profundamente ligadas à cultura contemporânea.

 


 

Steven Klein - Tensão e desconstrução

Steven Klein trabalha a moda como confronto. As suas imagens são densas, por vezes desconfortáveis, sempre intensas. A beleza surge na imperfeição e no choque.

 

 

 

Imagens que permanecem

 

Algumas fotografias resistem ao tempo porque captam algo que vai além da moda do momento. São imagens que continuam atuais, não pelo que se veste, mas pelo que transmitem. Emoção, identidade e humanidade tornam-se centrais, provando que a moda pode ser silenciosa, intensa e profundamente duradoura.

 

Peter Lindbergh - Humanidade acima de tudo

Lindbergh devolveu humanidade à moda. Retirou o excesso, o artifício, o ruído. As suas imagens são sobre pessoas, não sobre roupa. Talvez por isso continuem a emocionar. São fotografias que envelhecem bem porque falam de algo essencial.

 


 

Tim Walker – Fantasia, sonho e imaginação

Tim Walker construiu um universo próprio dentro da fotografia de moda. As suas imagens parecem saídas de um sonho ou de um conto surreal, onde a roupa é parte de uma narrativa maior. Há fantasia, teatralidade e um uso muito consciente da escala e do cenário. A moda, sob a sua lente, afasta-se do realismo e entra num território de imaginação pura, onde tudo é possível.

 



Mais do que documentos de moda, estas imagens tornaram-se referências culturais. Continuam a ser citadas, reinterpretadas e revisitadas porque ensinam algo essencial: a moda ganha verdadeira força quando se transforma em imagem. E algumas imagens, simplesmente, nunca deixam de falar connosco. E esta seleção não encerra toda a riqueza visual que cada um representa neste universo...

 

A moda muda. As tendências passam. Mas algumas imagens, como estas, permanecem. Não porque mostram a roupa certa, mas porque captam um tempo, uma emoção, uma atitude. Estes fotógrafos ensinaram-me que a moda pode ser muito mais do que vestuário. Pode ser memória, linguagem e olhar. E é por isso que continuo a regressar a estas e outras  imagens, vezes sem conta.

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Quando o terror vem de quem menos esperamos... Vi “Primata” recentemente, na sua antestreia, e, confesso, foi uma experiência tão desconcertante quanto diferente dentro do terror contemporâneo. Até porque sou um consumidor ávido de cinema de terror, sobretudo do sobrenatural. De slashers e gore, gosto menos... Este filme, realizado por Johannes Roberts (conhecido por títulos como “Medo Profundo”), parte de uma premissa que por si só já desperta curiosidade: um chimpanzé aparentemente dócil torna-se numa ameaça letal durante umas férias tropicais.

 

 

O que nos é apresentado nos primeiros minutos é um ambiente pacato, aparentemente familiar, com uma família e amigos a relaxar numa casa isolada, mas que rapidamente se transforma num pesadelo visceral. A premissa de um animal doméstico convertido em algo incontrolável não é totalmente nova, mas aqui “Primata” esforça-se por dar um twist mais cru: não há monstros fantásticos, nem forças sobrenaturais. O horror é terreno, primitivo, e assenta na ideia de animalidade e perda de controlo.

 

 

A narrativa é direta e não se complica com subtramas densas. Lucy, a protagonista interpretada por Johnny Sequoyah, regressa à grande casa da família no Havai para as férias e reencontra o chimpanzé Ben. Este chimpanzé, criado quase como um membro da família, acaba por ser mordido por outro animal e contrai raiva, desencadeando um comportamento predatório quase implacável.

 

O resultado é um grupo de personagens que, em grande parte, parecem existir apenas para serem caçados. Isto pode funcionar em filmes de terror mais tradicionais, mas em “Primata” dá uma sensação de oportunismo narrativo. Trata-se de personagens previsíveis e com pouca profundidade, que oscilam entre momentos de tensão e diálogos quase descartáveis.

 

 

Se há algo que “Primata” faz bem é aproveitar o espaço e a tensão física: as várias divisões da casa isolada tornam-se numa espécie de armadilha labiríntica para as vítimas, e isso cria uma dinâmica de jogo “de gato e rato” que, em determinados momentos, funciona. Outro ponto positivo vai para a forma como o chimpanzé é apresentado, longe de CGI excessivo, parece haver um esforço para tornar Ben crível e ameaçador, sobrenadando essa linha ténue entre animal real e figura monstruosa. No entanto, o filme tropeça quando tenta equilibrar esses elementos com lógica ou coerência interna. A transição de Ben de companheiro para predador demasiadas vezes desafia não só a plausibilidade, mas também o próprio código de lógica interna do filme. E quando a inteligência atribuída ao animal ultrapassa aquilo que foi construído de forma crível, o terror desvia-se para aquilo que parece mais… exagerado do que assustador.

 

Há momentos de violência visceral que podem impressionar espectadores mais sensíveis, talvez mais do que muitas produções contemporâneas se atrevem a mostrar. Mas, ironicamente, essa violência não é sempre acompanhada da profundidade emocional ou temática que a tornaria verdadeiramente memorável. Em vez disso, “Primata” provoca sustos e choques num ritmo que por vezes se perde, porque não estamos verdadeiramente investidos nas personagens humanas nem na lógica do antagonista.

 


Em suma, “Primata” é um filme que cumpre o papel de entretenimento para fãs do género de terror mais direto, aquele que não se envergonha de sangue, tensão e perseguições. No entanto, deixa a sensação de que poderia ter sido muito mais se tivesse explorado melhor a psicologia das suas personagens ou aprofundado aquilo que o seu protagonista animal representa narrativamente.

 

Se procuras um terror denso e reflexivo, este pode não ser o filme ideal para ti. Mas se o teu objectivo é sentir aquela mistura clássica de sustos inesperados e adrenalina cinematográfica, “Primata” oferece isso, ainda que com tropeços e um impacto final que fica aquém do inevitável potencial do conceito.

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A madrugada de domingo, 11 de janeiro, trouxe-nos mais do que a habitual sucessão de discursos, vestidos e estatuetas douradas. Os Golden Globe Awards de 2026 foram, acima de tudo, uma cerimónia de afirmação: de narrativas mais densas, de interpretações que não pedem licença e de um cinema cada vez mais atento ao mundo real, mesmo quando se refugia na ficção.

 

Desde cedo ficou claro que “Hamnet” seria um dos grandes títulos da noite. O filme, inspirado na obra de Maggie O’Farrell, confirmou o favoritismo ao conquistar o Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama, impondo-se pela sua delicadeza emocional e pela forma como transforma a dor íntima numa experiência cinematográfica universal. Jessie Buckley, absolutamente magnética, foi distinguida como Melhor Actriz em Drama, numa interpretação que fica connosco muito depois de o ecrã se apagar.

 

Mas se “Hamnet” trouxe o lado mais contemplativo da noite, “One Battle After Another”, de Paul Thomas Anderson, fez-se ouvir com força. O filme venceu na categoria de Melhor Filme – Musical ou Comédia e acumulou prémios-chave, incluindo Melhor Realização e Melhor Argumento, confirmando Anderson como um dos autores mais consistentes e inquietos do cinema contemporâneo.

 

Wagner Moura

Entre os momentos verdadeiramente históricos da noite, houve um que se destacou de forma especial e que merece ser sublinhado sem reservas. Wagner Moura venceu o Globo de Ouro de Melhor Actor em Filme Dramático por “The Secret Agent”, tornando-se o primeiro actor brasileiro a conquistar este prémio nesta categoria. Depois de, no ano passado, Fernanda Torres ter vencido o Globo de Ouro de Melhor Actriz em Filme – Musical ou Comédia, o Brasil afirma-se agora com ainda mais força em Hollywood.

 

A vitória de Wagner Moura ultrapassa largamente o mérito individual, que é imenso, e representa um reconhecimento tardio, mas decisivo, da vitalidade do cinema falado noutras línguas e de percursos artísticos que não seguem o caminho mais óbvio, nem mais confortável dentro da indústria americana. O seu discurso, contido e elegante, foi, justamente, um dos momentos mais aplaudidos e simbólicos de toda a cerimónia.

 

Nikki Glaser

A gala, conduzida novamente por Nikki Glaser, teve um tom mais solto e auto-consciente, com humor afiado e algumas provocações que dividiram opiniões, como deve acontecer numa noite destas. Houve espaço para discursos emotivos, para recados políticos subtis e para aquela sensação de que os Globes continuam a ser um termómetro imperfeito, mas revelador, do que aí vem na corrida aos Oscars.

 

Glen Powell

Hudson Williams

Chris Pine

Alicia Silverstone

Jennifer Lopez

Jennifer Lawrence

Kate Hudson
 

No tapete vermelho, a moda voltou a ser um espetáculo à parte. Silhuetas clássicas reinventadas, escolhas mais ousadas e uma beleza menos rígida, mais etérea, dominaram a noite. Não se tratou apenas de “quem vestiu quem”, mas de uma afirmação clara de estilo pessoal, longe do excesso e mais próxima da identidade. Uma tendência que tem vindo a consolidar-se nos grandes eventos internacionais.

 

Sarah Jessica Parker
 

No final, os Golden Globes 2026 deixaram essa sensação rara: a de uma cerimónia que, para lá do brilho, soube refletir o momento cultural que vivemos. Um cinema mais plural, uma televisão cada vez mais ambiciosa e artistas que não têm medo de ocupar espaço com histórias relevantes. E porque no meu blog gosto sempre de fechar o círculo, aqui fica o palmarés completo da edição deste ano:

 

Palmarés Golden Globes 2026

Timothée Chalamet

Cinema

Melhor Filme – Drama: “Hamnet”

Melhor Filme – Musical ou Comédia: “One Battle After Another”

Melhor Realização: Paul Thomas Anderson – “One Battle After Another”

Melhor Argumento: “One Battle After Another”

 


Melhor Actriz – Drama: Jessie Buckley – “Hamnet”

Melhor Actor – Drama: Wagner Moura – “The Secret Agent”

 

Rose Byrne

Melhor Actriz – Musical ou Comédia: Rose Byrne - “If I Had Legs, I’d Kick You”

Melhor Actor – Musical ou Comédia: Timothée Chalamet – “Marty Supreme”

Melhor Actriz Secundária: Teyana Taylor – “One Battle After Another”

Melhor Actor Secundário: Stellan Skarsgard - “Sentimental Value”

Melhor Filme de Animação: “KPop Demon Hunters”

 


KPop Demon Hunters

Televisão

Melhor Série – Drama: “The Pitt”

Melhor Série – Musical ou Comédia: “The Studio”

Melhor Minissérie ou Telefilme: “Adolescence”

Melhor Actriz em Série Dramática: Rhea Seehorn - “Pluribus”

Melhor Actor em Série Dramática: Noah Wyle - “The Pitt”

Melhor Actriz em Série Musical ou Comédia: Jean Smart - “Hacks”

Melhor Actor em Série Musical ou Comédia: Seth Rogen - “The Studio”

Melhor Actriz Secundária em Televisão: Erin Doherty - “Adolescence”

Melhor Actor em Série ou Filme em Televisão: Stephen Graham - “Adolescence”

Melhor Actor Secundário em Televisão: Owen Cooper - “Adolescence”



Prémios Honorários

Prémio Cecil B. DeMille: Helen Mirren

Prémio Carol Burnett: Sarah Jessica Parker

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Há filmes que nos fazem sorrir, cantarolar e sentir tudo ao mesmo tempo. “Song Sung Blue” é, para mim, uma dessas raras experiências cinematográficas que mistura drama, música e amor de uma forma deliciosamente inesperada. Fui à sua antestreia e aconselho vivamente.

 

Estreado no início de 2026, já em exibição nos nossos cinemas, “Song Sung Blue” é uma história baseada em factos reais: a vida do casal Mike e Claire Sardina, dois músicos de Milwaukee que decidiram formar uma banda de tributo a Neil Diamond chamada Lightning & Thunder. Este filme conquistou-me também pela verdade emocional que nasce de uma história real, simples e profundamente humana.

 

 

Inspirado na vida de um casal anónimo da classe trabalhadora americana, o filme parte de um ponto que, à partida, parece modesto: dois adultos comuns, com empregos instáveis, sonhos adiados e uma paixão partilhada pela música de Neil Diamond. Nada de palcos gigantes, nada de fama instantânea. Apenas a vontade, quase teimosa, de continuar a cantar juntos, a mostrar que nem todas as histórias de amor e de música precisam de grandes palcos para serem grandiosas...

 

Porque esta história existiu mesmo. Mike e Claire Sardina (nomes reais) formaram mesmo uma banda de tributo a Neil Diamond, actuando em bares, festas locais e pequenos eventos, encontrando na música não um atalho para a glória, mas uma forma de sobrevivência emocional. Antes de ser ficção, “Song Sung Blue” foi um documentário (o filme é uma adaptação do documentário homónimo de 2008), e tal sente-se. Sente-se na forma como o filme recusa o glamour fácil e prefere mostrar as rotinas, as frustrações, os acidentes de percurso e as pequenas vitórias que raramente chegam ao cinema.

 

 

E o que torna este filme tão especial? Primeiro, as interpretações de Hugh Jackman e Kate Hudson. A química entre eles é admirável: Jackman encarna Mike com coração de showman e vulnerabilidade, e Hudson é simplesmente radiante como Claire, trazendo uma honestidade emocional à personagem que é difícil de ignorar. Não é apenas a forma como cantam, pois, ambos os actores fazem parte da performance musical com uma entrega total, mas também o modo como carregam a narrativa nas costas.

 

 

Musicalmente, “Song Sung Blue” é uma celebração genuína das canções de Neil Diamond, que funcionam aqui como banda sonora emocional e narrativa. São momentos de “Sweet Caroline” e outros clássicos que nos lembram porque a música tem o poder de unir, levantar e emocionar, mesmo quando estamos a ver duas personagens às voltas com situações humildes, longe dos grandes holofotes. O ritmo da história oscila entre o doce e o agridoce. Por um lado, é um romance musical que nos conforta; por outro, explora choques e dificuldades reais: acidentes, frustrações, vidas que nem sempre correm como planeado e esse equilíbrio faz com que o filme ressoe profundamente com quem já viveu altos e baixos da vida real.

 

 

No entanto, como toda a grande obra, “Song Sung Blue” também divide opiniões. Há quem critique o filme por ser demasiado sentimental. Talvez seja. Mas, para mim, isso faz parte da sua honestidade. A vida real também é assim: imperfeita, repetitiva, por vezes melodramática e, ainda assim, cheia de momentos de uma beleza inesperada. “Song Sung Blue” não tenta transformar uma história comum num conto de fadas. Limita-se a dizer-nos que a dignidade das vidas anónimas merece ser celebrada e realça que estamos perante uma história muito humana, que sabe exatamente que emoções quer provocar.

 

 

É essa capacidade de nos fazer sentir como se estivéssemos numa pequena sala, a cantarolar com uma banda de tributo em Milwaukee, que torna “Song Sung Blue” tão memorável. É um filme sobre amor, música, segundas hipóteses e sobre como, mesmo nas vidas mais aparentemente comuns, há espaço para momentos extraordinários. Saí do cinema com a sensação rara de ter visto algo verdadeiro. Um filme que não acelera, não força. Apenas canta, baixinho, mas com convicção. E talvez seja isso que o torna tão especial: lembrar-nos que, mesmo longe dos holofotes, há histórias reais que merecem ser ouvidas. Se ainda não o viste, recomendo vivamente que o faças e, se fores como eu, provavelmente vais sair da sala a cantar o refrão de “Sweet Caroline” enquanto pensas nos teus próprios sonhos, grandes e pequenos.

 


 

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Engraçado... ontem, fui ao Ikea e percebi que as lâmpadas LED podem ser “branco quente”, “branco frio”, etc., ou seja, existem diferentes nuances de branco. Chego a casa e procuro pela cor Pantone para 2026 e descubro que se trata, também, de um certo
tipo de branco. Curioso, não?

 

Desde 1999 que a Pantone nos tem vindo a presentear, todos os anos, com uma cor que pretende captar e até antecipar o espírito cultural, social e criativo que vai marcar os meses seguintes. Para 2026, a escolha é audaciosa e, para muitos, inesperada: “Cloud Dancer” (PANTONE 11-4201). Este tom de branco etéreo e leve foi eleito Color of the Year pela primeira vez na história desta iniciativa.

 

Ao contrário das cores vibrantes ou profundamente pigmentadas que dominaram os anos anteriores: tome-se em consideração os mais recentes “Peach Fuzz”, “Mocha Mousse” ou “Viva Magenta”, este branco suave parece quase paradoxal como cor-símbolo. Mas é justamente aqui que reside a sua força e relevância. Segundo o Pantone Color Institute, “Cloud Dancer” não é apenas uma cor, mas uma declaração de simplicidade, tranquilidade e foco num mundo saturado de estímulos e ruído digital.

 

“Cloud Dancer” representa, assim, uma espécie de “tela em branco” emocional e criativa, um convite ao recomeço. Num momento em que a sociedade luta por atenção significativa, presença mental e um certo “reset” interior, esta tonalidade funciona como uma pausa e um sopro de serenidade. A ideia não é apenas estética: é profundamente simbólica. A escolha sugere que, no limiar de 2026, procuramos claridade, calma e espaço para respirar, para pensar e para imaginar.

O uso de um branco tão delicado vai muito além de decoração ou moda: trata-se de uma tendência cultural que ultrapassa fronteiras: desde ambientes interiores minimalistas a coleções de moda que privilegiam silhuetas “clean”, ou mesmo espaços de trabalho onde o excesso visual dá lugar à concentração e à criatividade pura.

 


Naturalmente, a escolha também gerou debate (gera sempre). Há quem veja a opção por um tom neutro como demasiado discreta, até “sem cor”, num mundo que continua a enfrentar desafios sociais, políticos e culturais complexos. Para alguns críticos, a elevação de um branco tão neutro levanta questões simbólicas e críticas sobre o papel da cor como forma de expressão cultural.

 

Mas talvez esteja aqui a grande subtilidade de “Cloud Dancer”: não gritar, mas “sussurrar”, convidar à reflexão e abrir espaço para que outras vozes e outras cores encontrem o seu lugar. É um desafio à saturação permanente, um gesto de pausa num ecossistema visual que, por vezes, nos cega mais do que nos esclarece.

 

No fundo, a Cor do Ano Pantone 2026 não é só uma tendência cromática, é um espelho do momento que vivemos e, talvez acima de tudo, um convite a olhar para o ano que vem com menos ruído e mais intenção. E, sendo este o meu último post de 2025, desejo a todos os que me seguem e me lêem, um feliz e muito prospero 2026!

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