Certamente, já se olhou alguma vez no espelho e sentiu-se menos bem com o seu próprio corpo… E provavelmente, o problema não estava em si, mas no preconceito que impera socialmente. A revista canadense “Now Toronto”, na sua edição de Janeiro, ao publicar o seu segundo volume anual “Body Issue”, não usou modelos considerados bonitos pelo padrão actual para posar nus, mas outras pessoas bem mais normais e, por isso, esplendorosas.

No total, foram fotografadas doze pessoas que não se encaixam no padrão de beleza “imposto”, dito "normal", mas nem por isso deixam de ser e de se sentirem poderosas. A publicação quer, com esta edição, promover o positivismo dos indivíduos em relação ao próprio corpo, fazendo sobressair as diferentes formas, etnias e géneros. Ao mesmo tempo, a “Now Toronto” procura entender como os fotografados conseguiram sentir-se confiantes por mostrar os seus corpos nus, livres de preconceitos, e também dar a conhecer um pouco as suas histórias...

Assim, a edição conta com vários moradores de Toronto, com corpos e vidas incrivelmente diferentes, como o baterista Stephen Bowles, que diz que ter partido a sua coluna o fez mais empático em relação aos outros.


Antes, ao atravessar a rua, eu ficava irritado se alguém à minha frente estivesse a ir devagar”, diz ele à publicação. “Mas agora, eu percebo que eu não sei o que eles passaram para chegar a esse ponto e eu deveria honrar o facto de que eles estão aqui.”

Conta também com a activista de direitos humanos Akio Maroon, que discute as realidades de vida no corpo de uma mulher negra.


Ser parada pelos polícias é muito difícil para mim”, conta ela à revista, “porque quando eles tiram das suas armas, eu não sei se esse é meu último momento na Terra. É a minha última oportunidade de ligar para a minha filha ou para a minha família e lhes dizer que os amo? Cada dia, pode ser meu último por causa da pele em que vivo.

E Xica Ducharme, uma dançarina burlesca e comissária de bordo que discute a discriminação racial e de género que ela própria enfrentou nas mãos dos outros.


Não importa o quanto o mundo me tente derrubar”, diz ela. “Eu vou usar aqueles saltos, nua, à frente de todos, a segurar num ventilador para me resfriar de todas as lutas. Sendo bonita. De cabeça erguida.”

O personal trainer e coordenador de programas para jovens, Adam Benn discute como a gordofobia de quando era mais novo ainda afecta a sua auto-estima.


Eu era uma daquelas crianças acima do peso”, diz ele, “então, muitas das minhas experiências de infância foram definidas pelo fato de ser gordo, sentindo-me feio e não me sentindo bem comigo mesmo… Até tirar estas fotografias, era muito traumático. Tirar todas as minhas roupas e ficar na frente das pessoas é difícil devido a esse instinto de duvidar de mim mesmo.

A escritora e artista Katie Sly explica o motivo, para ela, de a nudez ser "muito um aspecto de força".


"O meu corpo foi possuído e dominado por pessoas sem a minha permissão, em várias ocasiões — e que se lixe, eu vou tomar o meu corpo de volta”, diz ela à Now Toronto. “Podem fazer o que quiserem comigo, mas eu ainda estarei aqui e neste corpo, totalmente sem vergonha.

Biko Beauttah discute a sua imagem corporal em evolução como uma mulher "trans", bem como suas experiências num abrigo com outros que procuram asilo. Quem vê a imagem dela na capa da revista, com colares tribais, não imagina o que ela passou na infância. Biko cresceu num corpo de rapaz no Quénia e sofria muito com a sua aparência. Hoje, ela é refugiada e activista dos direitos “trans”.


Para muitos dos meus companheiros refugiados, o abrigo foi o primeiro lugar em muito tempo onde eles não viveram com medo de ser alvejados por rebeldes, comidos por animais selvagens à noite, agredidos ou estuprados por soldados”, diz ela. “Eu ouvi a história de todos e prometi a mim mesma que quando eu saísse do abrigo, eu iria devotar a minha vida a dar voz aos refugiados, já que eles são os mais vulneráveis entre nós.”

Bo hedges, que é o co-capitão da equipa de basquetebol em cadeira de rodas do Canadá, fala sobre o seu papel na representação de pessoas com capacidades físicas diferentes.


É muito fácil fazer um homem branco atlético como eu representante da deficiência e chamar isso de ‘diversidade’”, diz ele. “Ainda assim, eu acho que mostrar a deficiência nestas páginas é melhor do que não ter nenhuma, e se eu posso mostrar que estou confortável na minha própria pele, talvez isso inspire a sociedade a se tornar mais confortável com corpos atipicamente debilitados.

Chiamaka Umeh, Esther Jun, e Rebecca Perry do Toronto’s Next Stage Theatre Fest discutem estigmas religiosos contra a nudez, passando uma imagem corporal positiva para gerações futuras e aparência versus talento no ramo do entretenimento.


Recentemente, eu disse [para a minha filha], ‘Eu adoro a tua barriguinha fofa’”, diz Jun. “E então ela tocou a minha barriga e disse, ‘Eu amo a sua barriga também, mãe!’ Eu quase morri. Ela a ama do jeito que ela é; ela não conhece nada diferente. Eu acho que deveria, provavelmente, aprender a amá-la do jeito que ela ama.

E, finalment,e Tiq e Kim Katrin Milan, ambos jornalistas e activistas, foram temporariamente banidos do Facebook após postarem uma foto da sessão com a Now — embora uma foto parecida, com Lady Gaga e Taylor Kinney, tenha bombado nesta rede social na mesma época...


Não há muita diversidade de representação de casais queer negros a se amarem e a celebrarem os ‘corpos e a beleza’ uns dos outros”, conta Kim à revista, numa citação que agora parece ainda mais significante. “Para muitas pessoas envolvidas com os transexuais, é algo escondido, e nós queremos desafiar essa narrativa. Não há nada de secreto na forma como nós nos amamos. Nós amamo-nos bem alto.

Um trabalho lindo de se ver, que nos põe a reflectir. Parabéns, "Now Toronto".








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