Pois é, tão certo como estar a acabar um ano é o facto de grandes marcas lançarem os seus produzidos calendários. Falo da Lavazza ou da Campari, por exemplo, mas também e, sobretudo, da Pirelli (curiosamente, são todos de marcas italianas). Na edição para 2018 da empresa de pneus, o fotógrafo Tim Walker elegeu apenas celebridades negras para comporem o elenco do projeto do calendário.

Esta é já a 45ª edição do icónico calendário e foi produzida em maio passado, em Londres. A fonte de inspiração foi o clássico de literatura britânica “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll, e as respectivas ilustrações que John Tenniel assinou para o livro em 1865.

Para interpretar a fantástica e surreal história de Alice, Walker retratou 18 celebridades, todas elas negras: a modelo australiana-sudonesa Adut Akech, a modelo e ativista feminista britânica-ganesa Adwoa Aboah, o modelo alemão-senegalense Alpha Dia, o actor e modelo americano-beninense Sjimon Hounsou, a modelo australiana-sudanesa Duckie Thot, a ativista gambiana para os direitos das mulheres Jahan Dukureh, o modelo inglês King Owusu, o rapper e cantor norte-americano Lil Yachty, a atriz queniano-mexicana Lupita Nyong'o, a top model britânica Naomi Campbell, o artista travesti RuPaul, a actriz Sasha Lane, o rapper e empresário Sean "Diddy" Combs, a modelo americana Slick Woods, a modelo e advogada sul-africana Thando Hopa, a actriz Whoopi Goldberg, o modelo britânico Wilson Oryema e a estilista britânica Zoe Bedeaux.

A equipa criativa de Walker contou com a directora de arte e cenografia, Shona Heath, enquanto o styling ficou por conta de Edward Enninful, que assumiu o cargo de editor-chefe da "Vogue" britânica este ano. "É muito importante que a história de Alice seja contada para uma nova geração. As duas aventuras do País das Maravilhas reflectem o mundo no qual vivemos, os obstáculos com os quais nos deparamos e a ideia de celebrar a diversidade”, afirma Enninful.

Já Naomi Campbell adianta: "Tim Walker sabe trabalhar com fantasia e contar uma história como ninguém”. Sobre o facto de o elenco ser composto inteiramente por negros, a modelo acrescenta: "Para mim, não há limites. «The Wiz» foi filmado em 1978 e transformou Dorothy numa menina negra. Acho que Franca ficaria muito orgulhosa deste calendário", fazendo alusão à lendária directora da Vogue Itália, Franca Sozzani, que foi pioneira ao lançar um "black issue" da revista, com a própria modelo na capa, e mais de 100 páginas recheadas de modelos negras como Liya Kebede, Sessilee Lopez e Jourdan Dunn, com fotos de Steven Meisel. Naomi posou para o calendário Pirelli ao lado de Sean "Diddy" Combs, interpretando o carrasco. "Adorei segurar aquele machado na mão. Foi uma atitude do tipo «se você se meter comigo, vou cortar a sua cabeça», brincou.

"Foram quatro meses de trabalho intenso", conta Walker. "Sabiam que Lewis Carroll desenhou toda a sua história de Alice? Depois, passou os esboços para que John Tenniel criasse em cima do que ele fez", revela o fotógrafo. "Num mundo ideal, haveria muitos mais autores negros, fotógrafos negros, designers negros... por isso, a questão é sobre inclusão", resume, quando questionado sobre a escolha do elenco.

Recordo que esta não é a primeira vez que o Calendário Pirelli conta com um elenco completamente negro. Em 1987, o fotógrafo britânico Terence Donovan retratou cinco beldades negras. Entre elas, estavam a modelo, escritora e ativista, Waries Dirie e a própria Naomi Campbell, na altura com apenas 16 anos.

Tenham um feliz e próspero 2018!!!







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Ah, o Natal… algo que, particularmente quando pequenos, sentimos ser mágico e especial. No fundo, trata-se da festa em que os cristãos celebram o nascimento de Jesus. Contudo, a sua origem perde-se na Antiguidade e resolvi, embora num post bem extenso, descobrir e dar-vos a conhecer as origens do nosso Natal, com a ajuda do "El País".

O Natal transformou-se numa quadra que mistura tradições de várias origens com um consumismo desenfreado e que actualmente, apesar do comércio electrónico, continua a mobilizar as cidades. As luzes, as árvores, as compras, as feiras, os “amigo secreto” e os jantares de empresa não nos deixam ver o principal: o Natal é mesmo uma festa religiosa, em que os cristãos celebram o nascimento de Cristo. Mas, se pesquisarmos um pouco, nas primeiras e remotas crenças humanas, às quais, com o passar do tempo, se foram incorporando novas tradições, damos conta de muito mais. Desde o Império Romano, o Natal tem sido um conflito entre elementos religiosos e pagãos, que se prolonga até aos nossos centros comerciais.

Por exemplo, por que celebramos o Natal em Dezembro?
O solstício de inverno (no Hemisfério Norte) é a noite mais longa do ano, quando os dias começam novamente a crescer, uma vitória simbólica do Sol contra a escuridão. Segundo o historiador Richard Cohen “praticamente todas as culturas têm uma forma de celebrar esse momento. O aparente poder sobrenatural para governar as estações, que se manifesta nos solestícios, inspirou reacções de todos os tipos: ritos de fertilidade, festivais relacionados com o fogo, oferendas aos deuses”. Nesta mesma época do ano, em meados de Dezembro, os antigos romanos festejavam a Saturnália, festival em que ofereciam presentes entre si, mas também trocavam de papéis sociais, uma mistura entre o nosso Natal e o Carnaval.
Quanto a 25 de Dezembro, foi a data do Natal “fixada pelo imperador Constantino, porque nesse dia era celebrada a grande festa solar em Roma”, explica Ramón Teja, professor emérito de História Antiga da Universidade de Cantábria (Espanha). Assim, o imperador que transformou o cristianismo na religião de Roma, e que governou entre 306 e 337, identificava de alguma maneira sua figura com o divino, aproveitando o antigo festival do Dia do Nascimento do Sol Invicto. “Foi uma fusão do culto solar com o culto cristão”, afirma Teja.
Como não existe nenhuma informação concreta sobre a data de nascimento de Jesus, passou a ficar assumida por esta, 25 de Dezembro. Segundo texto de Kristin Romey na National Geographic, “a Igreja da Natividade, em Belém, é o templo cristão mais antigo ainda em uso, razão pela qual muitos especialistas acreditam que Jesus de Nazaré tenha nascido em Belém”. O relato da manjedoura e dos pastores aparece em S. Lucas; os Reis Magos, o massacre dos inocentes e a fuga para o Egipto, em S. Mateus.

Então, qual foi o papel dos Reis Magos?
O relato da visita dos magos com os seus presentes – um momento conhecido como Epifania – só surge no Evangelho de S. Mateus. A imensa maioria dos historiadores considera que Gaspar, Baltazar e Belchior têm uma função muito importante na tradição cristã porque, como explica Teja, “os reis que visitam [o Menino Jesus] são pagãos, não judeus, e são os primeiros que o reconhecem como um descendente da linhagem de David, como rei e como Deus”. Quase que a confirmar tal, os cristãos do Oriente continuam a comemorar o Natal a 6 e 7 de Janeiro. Isso tem a ver com as diferenças entre o calendário juliano e o gregoriano, mas também com o facto de que o Oriente manteve, durante séculos, a Epifania como o momento-chave desta festividade.

Mas e o que tem o Pai Natal a ver com tudo isto?
A viagem do Pai Natal ou Santa Claus até ao nosso Natal é longa e tortuosa. Os mais radicais entre os protestantes, os puritanos, proibiram o Natal porque consideravam que era uma festa que se estava a “paganizar”. Além disso, o protestantismo era contra a representação de figuras sagradas, o que não se encaixava muito nas tradições natalícias. O Parlamento britânico proibiu o Natal em 1644, restaurando-o apenas em 1660.
Os puritanos foram os primeiros colonos a chegar à América do Norte e levaram consigo aqueles costumes: em Boston, também proibiram as festividades entre 1659 e 1681. Pouco a pouco, contudo, o Natal foi renascendo no Novo Mundo, embora os protestantes tenham encontrado o seu próprio caminho para o diferenciar do culto católico. Foi assim que se lembraram de um velho santo, São Nicolau. “Santa Claus é uma figura muito cristã”, explica Diarmaid N. J. MacCulloch, professor de História da Igreja na Saint Cross College, de Oxford. “O nome é uma tradução holandesa de São Nicolau. Outra coisa é que tenha existido de fato: era um santo de Mira, na actual Turquia, e sua lenda incluía a história de que ressuscitou três crianças assassinadas – daí a sua ligação com a infância.” A importância cultural que os EUA adquiriram nas nossas sociedades fez o resto: Pai Natal começou a “colonizar” as festas durante o século XX. O grande antropólogo francês Claude Lévi-Strauss escreveu um pequeno ensaio sobre esse processo: O Suplício do Papai Noel (Cosac Naify). Segundo a sua teoria, a chave não era o prestígio dos EUA, e sim “a função prática dos ritos de iniciação” – neste caso, ensinar que as boas acções têm recompensas, presentes em troca do bom comportamento.

A árvore de Natal é também uma invenção americana?
O pinheiro de Natal também empreendeu uma estranha viagem de ida e volta da Europa aos EUA, mas não é, de todo, uma invenção americana. Ao contrário: como Santa Claus, é uma exportação. Nesse caso, como acontece com os solstícios, o culto às árvores perde-se nas profundezas das nossas tradições culturais e religiosas. Mas, como explica o professor MacCulloch, “a árvore de Natal é uma tradição mais cristã do que as pessoas pensam”. “Todas as religiões utilizam as árvores como símbolos e elas são um elemento essencial da história da Génese. As primeiras árvores de Natal decoradas que conhecemos são da Alemanha do século XVI, na época da Reforma. O próprio Martinho Lutero incentivou esse costume”, adianta o professor de Oxford. Mais uma vez, temos uma tradição relacionada com o protestantismo – a árvore de Natal evita as representações de figuras sagradas – cruza o Atlântico e volta transformada em símbolo universal. Na Península Ibérica, convive pacificamente com a representação máxima do nosso Natal: os presépios.

E, por último, quando começámos a montar os presépios?
O primeiro presépio aparece numa lenda: na noite de 24 de Dezembro de 1223, São Francisco de Assis organiza um presépio vivo numa gruta da cidade italiana de Greccio, e a figura do menino acaba por se transformar no verdadeiro Jesus. Esse milagre foi plasmado por Giotto no final do século XIII num dos frescos mais famosos da história da arte, que pode ser visto na Basílica de São Francisco de Assis.
Os presépios são um fenómeno universal, indissociável da cultura ibérica. O presépio mais antigo da Península está na Igreja de La Sang de Palma de Mallorca, datado de 1480, obra dos irmãos Alamanno. De Múrcia até Nápoles, passando por Barcelona e por Lisboa ou Porto, os presépios ocupam um espaço enorme no nosso imaginário colectivo. Nas ruas da cidade histórica de Nápoles, podemos comprar figuras de Berlusconi e Maradona, santificadas, em certa medida, através de sua conversão em barro, e nos mercados da Catalunha os famosos caganer – que provêm da Idade Média e simbolizam a fertilização da terra – encarnam nas personagens da temporada. Mais uma vez, o celestial e o terrenal fundem-se em festas que resumem uma parte importante do longo e inesgotável caminho da relação humana com o divino. E deixemos de fora Scrooge (personagem de Um Conto de Natal, de Charles Dickens) e os fantasmas dos Natais presentes, passados e futuros, e as luzes, e pensemos no verdadeiramente essencial: o Natal não está nos embrulhos, mas na família, na amizade, na paz e no amor fraterno.

Feliz Natal!


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Quando fui à ante-estreia deste filme, a convite, não tive tempo de procurar nada sobre ele, logo, não sabia ao que ia. E eis que me deparo com uma história marcante e encantadora…

Baseado no bestseller homónimo do New York Times, de R. J. Palacio, “Wonder – Encantador” conta a inspiradora e emocionante história de August Pullman, um rapaz que nasceu com uma deformidade facial e, por esse motivo, sempre foi muito protegido e isolado da escola e das crianças da sua idade. Porém, é chegado o dia em que Auggie se torna o mais improvável dos heróis ao entrar pela primeira vez, no 5º ano de escolaridade, numa escola pública… e, claro, sente-se completamente apavorado! Tal como a sua família, os seus novos colegas de turma e toda a comunidade enfrentam a capacidade do poder da compaixão, da aceitação e da não-discriminação. O maior sonho de Auggie é que o aceitem. Numa extraordinária jornada, Auggie vai tentar conseguir com que todos se unam pela mesma causa e provar que todas as crianças são únicas, especiais e nasceram com um dom encantador de se destacar, de amar e serem amadas. Um filme com uma história enternecedora para toda a família que vai abrir os nossos olhos e corações e, certamente, fazer de nós pessoas mais encantadoras!

Realizado por Stephen Chbosky, com Julia Roberts e Owen Wilson nos principais papéis e um fantástico Jacob Tremblay, “Wonder – Encantador” traz-nos uma incrível história que encerra uma mensagem de esperança sobre a aceitação da diferença. Diria que, sem ser natalício, é perfeita para esta Quadra. Auggie nasceu com uma malformação facial e até aos 10 anos, a família defendia-o muito, isolando-o da vida normal como forma de o proteger. Mas quando ele vai finalmente para a escola, o que mais temiam acaba por acontecer: passa a ser alvo de bullying por parte de alguns colegas…

“Quando eu estava na barriga da minha mãe, ninguém fazia ideia de que eu iria nascer com esta cara”, conta o protagonista de “Wonder – Encantador” logo na abertura. O “esta cara” era o rosto de um menino nascido com a síndrome de Treacher-Collins, uma má formação cranio-facial congénita, que fez com que fosse operado 27 vezes e, após anos a ser educado em casa pela mãe e apenas saindo à rua "escondido" por um capacete de astronauta, narra a sua primeira experiência num liceu, com outros meninos da sua idade.

Apoiado por formidáveis actuações, com uma sempre fantástica Julia Roberts e um magnífico elenco infantil encabeçado por Jacob Tremblay, o realizador consegue um bom equilíbrio, não pendendo demasiado para o drama, nem se excedendo na comédia. Porém, acreditem, resulte impossível não soltar algumas lágrimas… Mesmo os seus laivos de fantasia – com um menino que se refugia numa realidade paralela, a de Star Wars, para fazer frente às batalhas diárias que o esperam – e o seu sentido de humor sempre contrabalançam o filme, que no conjunto apresenta-se-nos elegante e respeitoso. Q.b. Tal como o diálogo entre o Auggie e um amigo, que bem pode dar a tónica deste admirável filme: “– E tu, não poderias fazer uma cirurgia estética?”, ao que Auggie responde: “– Olha, esta cara que eu tenho é graças à cirurgia estética.”

Por isso, digo que é um filme ideal para toda a família. A força interior de Auggie e a capacidade de mostrar a sua verdadeira essência acabam por fazer com que todos entendam que ele é apenas mais uma criança comum, e que a beleza não está na aparência. Uma grande lição para todos nós.

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Sim, já devem estar familiarizados com o nome e com a pessoa... Valéria Carvalho é uma actriz com reconhecimento nacional, mas o que não sabiam é que também era cantora. Brasileira oriunda do estado de Minas Gerais, tem muita admiração em Portugal, onde se radicou em 1991, sobretudo pelo seu desempenho no teatro, na TV e no cinema. Na televisão portuguesa, já trabalhou em várias novelas, séries e talk shows. Valéria nunca pára! A última novela onde participa ainda está a passar na SIC, e chama-se “Espelho d’Água”.

Valéria é também a criadora e a directora da Casa da Língua Portuguesa. Mas é graças ao seu trabalho no teatro, e ao êxito dos seus espectáculos, que tem vindo a ganhar a atenção e a admiração dos meios culturais, como é o caso de “Chico em Pessoa” (2012), em torno da obra de Pessoa e Chico Buarque de Holanda, que esteve patente na Casa Fernando Pessoa e em diversos festivais.

A génese deste seu primeiro trabalho discográfico situa-se em 2014, quando apresentou o espectáculo musical e original "Rui Veloso em Jeito de Bossa" no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra. Na sequência do êxito deste espectáculo e do que o mesmo desencadeou na própria Valéria, surge agora o álbum "Rui em Jeito de Bossa". Valéria, acompanhada de músicos de excelência, e também vozes, como é o caso de Mafalda Veiga, toca e canta músicas de Rui Veloso num arranjo original, integralmente em bossa nova, e contou com o apoio incondicional do próprio.

Sobre este novo trabalho, Valéria diz: «A obra do Rui marcou todo meu percurso de vida aqui... Como actriz, o seu trabalho sempre me fascinou... O Rui é uma espécie de compositor encenador, ele cria um cenário musical para as letras... Depois de fazer o espectáculo Chico em Pessoa, não resisti em fazer o "Rui Veloso, em Jeito de Bossa"».

Por seu turno, Rui Veloso afirma: «Tenho vindo a acompanhar, há muitos anos, o percurso de Valéria Carvalho, sobretudo no teatro. Aprecio o seu profissionalismo, a seriedade e a forma inteligente com que ela aborda os temas que escolhe. Em relação ao projeto “Rui em jeito de Bossa”, apoiei-a logo de início, aquando da sua intenção de fazer o espetáculo, que resultou no disco. A Valéria está em Portugal há mais de 20 anos, e penso que isso contribuí para que ela tenha a sensibilidade para interpretar as canções sem as deturpar, de uma forma doce, leve e muito própria. Para além da sua vertente como atriz, que no palco ajuda muito à sua performance com os poemas do Carlos Tê, que ela faz brilhantemente, tudo resulta num espetáculo muito bonito e de grande qualidade musical. Simpatizo muito com este projeto e ele tem o meu apoio incondicional.»

Não deixem de adquirir e conhecer o trabalho musical e a fantástica voz desta brasileira de nascimento e portuguesa de coração que é a Valéria Carvalho. "Rui em jeito de Bossa" já está à venda na Fnac.



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