Das mãos do realizador James Wan chega até nós “Aquaman”, um novo filme de super-heróis da DC, com Jason Momoa no principal papel, repleto de acção e aventura, que explora o deslumbrante e vasto mundo subaquático dos sete mares. O filme começa por revelar a origem da história de Arthur Curry, o rapaz meio-humano e meio-atlante, que irá empreender a viagem da sua vida. Forçado a ver e a ser quem realmente é, Arthur terá de descobrir se é merecedor do título para o qual nasceu - o de Rei. Nesta sua jornada, ele vai contar com Mera, uma guerreira forte e a aliada, desempenhada por Amber Heard. Após uma longa espera, finalmente temos outro grande lançamento da DC neste ano. “Aquaman” veio para dar continuidade ao herói que já conhecêramos graças a “Liga da Justiça”.



A maior parte da acção deste “Aquaman” passa-se debaixo de água. E nem poderia ser diferente, tratando-se de um filme sobre um herói submarino, aliás, anfíbio. Nele, podemos ver Atlântida em toda sua glória, com criaturas marítimas impressionantes e uns cenários a fazer lembrar “Avatar”, tudo passado no fundo do mar. Mas ao contrário do que se possa pensar, a produção pode não ter usado assim tanta água. Na verdade, muito pouca água foi usada durante as gravações do filme, dado ser quase impossível de gravar e de actuar estando submerso. A alternativa foi a de usar inúmeros cabos presos aos actores, o que permitiu que as personagens de Jason Momoa, Amber Heard e todo o núcleo atlante do filme interagisse, lutasse e parecesse estar debaixo de água. Porém, tal também não quer dizer que não usaram água de verdade alguma vez. Em cenas importantes, milhares de galões de água foram usados para fazer passar autenticidade nos cenários, já que a maior parte do ambiente do filme só tem água. De facto, um dos aspectos mais importantes de “Aquaman” é a acção passada baixo de água. Se não fosse convincente o suficiente, o filme inteiro iria – perdoem o trocadilho – por água abaixo. Mas, graças a Deus, nisso o filme não falha nem um bocadinho. Há até quem diga que este é o melhor filme da DC Comics até ao momento.



A personagem Aquaman foi ostracizada por muitos anos. A sua participação na BD, durante décadas, foi limitada a aparições secundárias e a aventuras de pouca importância. Com o passar dos anos, a personagem foi ganhando algum espaço e destaque. E com a nova era da DC no cinema, Zack Snyder transformou o Rei dos Mares, antes loiro e esbelto, num “brutamontes” de cabelos longos vivido pelo falsamente tatuado Jason Momoa. Mas, para quem esperava mais um episódio sombrio e denso, esta nova entrega vem desvirtuar toda a premissa estabelecida nos filmes anteriores do universo DC. “Aquaman” é um caleidoscópio de cores, criaturas fantásticas e uma miríade de luzes. Um desfile de insólitos animais e batalhas subaquáticas. Épico como “Homem de Aço”, mas sem a soturnidade característica dos anteriores filmes de Snyder para a editora. Antes, esta longa-metragem sustenta-se pela identidade e respeito que tem à história da personagem, ainda que seja feito com grandes alterações, a começar pela personagem principal. Inclusive o seu uniforme, esse sim, muito fiel ao original da BD, só surge quase no final.



Quando o “boom” dos filmes de super-heróis teve início, no final dos anos 1990, uma preocupação geral surgia: como é que personagens consagradas seriam personificadas fora das páginas 2D de uma BD, mantendo uma coesão estética num ambiente tão distinto quanto os live-action movies. O primeiro X-Men logo ultrapassou tal situação, abdicando das roupas tradicionais em detrimento de uniformes pretos em couro, bem mais sintonizados com o período. O mesmo aconteceu nos filmes seguintes, até nos casos de trajes icónicos que não poderiam ser ignorados, como o do Homem-Aranha. A proposta, sempre, era torná-los menos burlescos em relação ao que se passava ao redor. Mas com “Aquaman”, James Wan parece ignorar tal regra, implícita também em toda a estética do universo DC até então. O realizador abraça o colorido e o espampanante sem pensar duas vezes, construindo um mundo bem particular, não só apresentando a diversidade de reinos e espécies no fundo do mar como, também, algumas apostas visuais que quase atingem o kitsch, especialmente em relação às naves e algum guarda-roupa…

Por isso, além da excelência visual, o maior trunfo de “Aquaman” é ser ousado o suficiente para apostar numa estética quase pirosa, mas hipnotizante, potencializada pela realização frenética do australiano James Wan. A apresentação do mundo aquático é um verdadeiro deleite para os olhos. Toda a direção artística transmite a sensação de escala épica compatível com a grandeza da mitologia do herói. E, mais do que isso, Wan consegue tornar algumas esquisitices de design numa fantasia nunca antes vista num filme do género – por isso se afirma comummente que “Aquaman” é, possivelmente, o filme de super-heróis mais bonito feito até aqui.



A missão de Wan não era só apresentar-nos o Aquaman, mas toda a mitologia dos Sete Mares, incluindo a história do maior reino deles: Atlântida. Arthur, filho da Rainha Atlanna (Nicole Kidman) com o pescador e faroleiro Thomas Curry (Temuera Morrison), precisa de reaver o trono que é seu por direito para evitar uma guerra entre a superfície e os reinos subaquáticos, que com a aliança do Rei Nereus (Dolph Lundgren), serão comandados pelo seu irmão, Orm (Patrick Wilson). Para tal, conta com também com o apoio do atlante Vulko (William Dafoe).

Momoa entretem-nos como Aquaman, sem dúvida, mas ainda o vemos esforçar-se um pouco com qualquer exigência do argumento que vá para além do seu carisma e músculos. Por seu turno, Patrick Wilson destaca-se com o seu excelente Orm. Este Mestre dos Mares compõe outro êxito do filme, ao lado do Manta Negra vivido por Yayha Abdul Mateen II. O primeiro incorpora a megalomania de um filho que tem o trono negado, enquanto o outro é a personificação da vingança.

Com “Aquaman”, James Wan assina um filme de herói com muitas virtudes e algumas falhas. Tem um visual excelente, ação com escala e bastante tensão, mas peca apenas na altura de criar relações autênticas entre as personagens. Apesar disso, o mundo criado em torno do casal protagonista está muito bem estruturado e possui uma identidade tão particular que tal defeito é logo sobreposto e esquecido. A juntar a isto, temos ainda a coragem de gozar com algum ridículo, ao colocar o herói a falar com os peixes ou a cavalgar um cavalo-marinho gigante, o que vem dar ainda mais crédito ao filme. Consciente da enorme fantasia que nos propõe, “Aquaman” diverte-nos como nenhum outro herói da DC o fez nos últimos anos e assume-se, sem qualquer vergonha, de ser o que é.


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