"Correio de Droga" é o mais novo filme do consagrado Clint Eastwood. Realizado e protagonizado por ele, é quase um road movie, trata-se de um drama criminal sobre um horticultor falido e solitário que aceita a oportunidade de uma nova vida, porém do lado errado da lei. Escrito por Nick Shenk, que se inspirou no artigo “The Sinaloa Cartel´s 90-Year-Old Drug Mule”, de Sam Dolnick, publicado no New York Times, portanto, baseado numa história real, narra as crónicas de viagem de Earl Stone (Clint Eastwood), que começa a transportar droga pelas estradas da América.
Enquanto homem que passou o tempo a viajar de convenção em convenção floral, Earl tem aqui uma segunda oportunidade na sua vida, rejuvenescendo, pois sobra-lhe descontração na estrada e conhecimento dos melhores recantos para uma boa refeição ou distração nocturna.

Mas a culpa do passado e o isolamento vão-lhe pesando e à medida que o rendimento aumenta, Earl aproveita o dinheiro para (a)pagar as suas dívidas morais, redimindo-se dos anos afastados da família (Earl Stone está há anos longe da sua mulher, Mary - interpretada por Dianne Wies – e da filha Iris - Alison Eastwood) ou até aproveitando para apoiar negócios de amigos de longa data.

Veterano da Guerra da Coreia, Eral aceita atravessar estado do Michigan a mando de um perigoso grupo de narcotraficantes, com o equivalente a três milhões de dólares em cocaína. Apesar do risco, o facto de ter 90 anos, aliado a um registo criminal imaculado, torna-o quase insuspeito aos olhos das autoridades. Mas tudo se complica, pois os agentes da DEA-Drug Enforcement Administration (Agência de Drogas dos EUA) Colin Bates (Bradley Cooper), Trevino (Michael Peña) e Special Agent (Laurence Fishburne) estão no seu encalço.

"Correio de Droga" é um “passeio” pelas estradas norte-americanas em velocidade cruzeiro, onde a intriga se vai adensa e o final se vai tornando claro. Trata-se de um filme eficiente na narrativa, com diálogos fortes, como só Eastwood nos sabe apresentar, onde sequências de paisagens, por vezes de motivo repetido, enquadram a naturalidade da rotina da personagem. Earl, um racista e sexista moderado, tem uma natureza fácil, sem filtro no que diz, mas com graciosidade, respondendo como um sorriso sarcástico quando é corrigido pelas suas afirmações.



A adaptação toma algumas liberdades, ou não se tratasse de ficção, relativamente ao percurso verídico do traficante Leo Sharp. O nome do protagonista foi alterado para Earl Stone, bem como o nome dos outros intervenientes, incluindo o do agente Jeff Moore – no filme é Colin Bates - e o do célebre "El Chapo" - para Laton, numa interpretação a cargo de Andy Garcia. Os locais de origem foram alterados - de Detroit para Chicago e do Indiana para o Illinois e o Texas - e a backstory do protagonista foi criada de raiz para efeitos dramáticos, de forma a dar ênfase a certas atitudes e motivações. Ao contrário do que o filme mostra, o verdadeiro traficante, além de se iniciar nessas lides em 1999/2000, cinco anos mais cedo do que o tempo de acção retratado e começando aos 76 anos – e não a caminho dos 90 como "Correio de Droga" sugere -, envolveu-se desde o início de forma voluntária com o cartel de Sinaloa (de acordo com o advogado que mais tarde o defenderia em julgamento, Darryl. A. Goldberg) através de trabalhadores mexicanos da sua propriedade. No filme, Earl Stone desconhece, nos inícios, o conteúdo da mercadoria que transportava, e obtém o contacto dos dealers através de um convidado no brunch matrimonial da neta Ginny (Taissa Farmiga).

Mas, tal como na história original, ninguém escapa para sempre. Ao fim de mais de uma década de sucesso no tráfico de droga, Sharp, que começara a ser investigado pela DEA, acabaria por ser capturado a 21 de Outubro de 2011. Começara aos 76 anos e à data da detenção, Leo Sharp tinha 87 anos. Condenado a três anos de prisão com circunstâncias atenuantes pela idade e por um princípio de demência confirmado graças a relatórios médicos, Sharp foi posto em liberdade ao fim de um ano, falecendo pouco tempo depois, em 2016.

Produzida pela Warner Brothers, a longa-metragem realizada pelo experiente e multipremiado actor de 88 anos Clint Eastwood é um filme dramático que merece a pena ver, onde Bradley Cooper volta a trabalhar com Eastwood depois de “Sniper Americano” (nomeado para Óscar de Melhor Filme) que lhe valeu a nomeação para o Óscar de Melhor Actor, em 2015.

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