“A Maldição da Mulher que Chora” (The Curse of La Llorona), que chegou na passada quinta-feira aos cinemas, marca mais um episódio no universo “The Conjuring”. Embora não haja qualquer ligação com os Warren (o casal que investigou Annabelle e Valak nos filmes “Invocação do Mal”, os quais posteriormente tiveram os seus respetivos spin-offs), e no final não haja uma cena pós-créditos a sugerir continuidade, ao contrário de “Annabelle” e “A Freira”, a conexão é feita de forma mais sutil e subjetiva. A personagem Padre Perez (Tony Amendola) é a confirmação do vínculo com a saga “Invocação do Mal”, pois ele também já esteve presente em “Annabelle” e confirma a sua experiência com a boneca possuída num diálogo. Portanto, é possível contextualizar o filme no universo da saga através deste sacerdote, que certifica que este episódio de terror situa-se a meio da timeline de Conjunring, posicionado logo após “A Freira”, “Annabelle” e “Annabelle 2: A Criação do Mal”, porém antes de ambos “Invocação do Mal”.

Quanto ao filme em si, La Llorona é uma aparição horripilante, suspensa entre o céu e o inferno, aprisionada a um destino terrível que ela mesma selou. A simples menção do seu nome tem aterrorizado gerações no mundo inteiro. Em vida, ela afogou os seus filhos num ataque de ciúmes, atirando-se em seguida para as águas agitadas do rio, debulhando-se em lágrimas... Agora, ela chora eternamente. As suas lágrimas são letais e aqueles que ouvem o seu lamento durante a noite, um verdadeiro chamado para a morte, estão condenados. A Llorona espreita nas sombras e captura crianças, na ânsia de substituir os seus próprios filhos. Com o passar dos séculos, o seu desejo se tornou mais voraz… e os seus métodos mais aterrorizadores. Na Los Angeles dos anos 1970, a Llorona assombra na noite – e apavora as crianças. Ignorando o alerta de uma mãe (Patricia Velásquez) suspeita de colocar os seus filhos em risco, uma assistente social e os seus próprios filhos são envolvidos num assustador cenário de sobrenatural. Criando os seus dois filhos sozinha depois de ser deixada viúva, Anna (Linda Cardellini) começa a ver semelhanças entre um caso que está a investigar e a entidade sobrenatural La Llorona (Marisol Ramirez). A sua única esperança de sobreviver à sua ira mortal reside num padre (Raymond Cruz) desiludido e no misticismo que ele pratica para manter o mal afastado, na zona onde o medo e o destino se chocam. Cuidado com os seus lamentos... nada a impedirá de atraí-lo à escuridão, pois não há alento para o seu sofrimento e nem piedade para sua alma. E não há como escapar da maldição da Llorona. Agora, ela chora eternamente, capturando outras crianças para substituir os seus filhos.



Neste filme, existe algo bem mais assustador do que a própria figura de La Llorona. A aterradora personagem é uma mãe que matou os próprios filhos, em vingança simbólica contra o marido adúltero, e inconsolável e enlouquecida, procura apropriar-se dos filhos alheios. Aqui, a figura da mãe, símbolo máximo de cuidado e protecção para a maioria das sociedades, converte-se em perigo para os mais pequenos. O choro de dor desta Medeia mexicana é real, não uma mera armadilha para seduzir as criancinhas. Ora, a compaixão das pessoas diante de um choro distante – ou seja, o que nos torna humanos capazes de empatia -, é o mesmo elemento que as coloca em risco. Ou seja, a nossa humanidade e o nosso amor familiar constituem a verdadeira ameaça neste filme de terror. E é isso o que o torna mais assustador.



O realizador Michael Chaves, que irá comandar “Invocação do Mal 3”, não tem o brilhantismo de James Wan, mas é bastante competente ao entregar sustos para a audiência. Com o argumentista Tobias Iaconis, constroem personagens verossímeis de classe média-baixa, onde a fé católica e as crenças mexicanas se misturam de modo fluido. Quanto ao elenco, Linda Cardellini vai excelente no papel de uma mãe nada comum, algo embrutecida pela morte recente do marido e pelas difíceis condições de trabalho, porém, o grande destaque vai para os filhos da protagonista (vividos por Jaynee-Lynne Kinchen e Roman Christou), que possuem cenas mais complicadas do que a média exigida de actores jovens. Demonstrando um grande talento para o género de terror, eles são responsáveis pelas melhores cenas do filme.



La LLorona, com os seus suplícios em espanhol – sem necessitar de legendas – não é aqui tida apenas enquanto monstro, e sim como uma figura que propõe um reflexo interessante das três mães desta história, que acabam por se parecer cada vez mais: Patrícia (Patricia Velasquez) torna-se ela própria uma LLorona por querer se vingar da assistente social que lhe tirou os seus filhos, e Anna acaba por repetir os mesmos passos de Patrícia, negligenciando os próprios filhos à medida que embarca na paranóia da presença maligna em seu redor. Aliás, até temos a sugestão de um possível abuso de Anna para com os filhos, tal como ocorrera com os de Patrícia...



Mas o embate crescente de terror, felizmente, vai permitindo a entrada de algum humor. O curandeiro Rafael (Raymond Cruz), dotado de um tipo peculiar de comicidade e mantendo a expressão séria, vai rindo (fazendo-nos rir) do próprio sufoco da situação. Ele permite que a tensão construída encontre algum alívio. Até um manequim vestido de noiva é utilizado com a devida conotação de paródia. Embora os trechos cómicos possam atenuar a narrativa, o filme consegue entreter no seu género de terror. Por isso, esta nova produção de Wan assemelha-se um pouco ao recente “A Freira”, um filme que assusta e diverte ao mesmo tempo. Repleto de “jumpscares” que nos fazem saltar da cadeira, “A Maldição da Mulher que Chora” é diversão garantida e serve o seu propósito de entretenimento. Acreditem, se gostam mesmo de apanhar valentes sustos no cinema, “A Maldição da Mulher que Chora” é um prato cheio.


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