
Sérgio Praia encarna a figura de António Variações, cantando e encantando ao longo do filme, numa produção que conta a história real do multifacetado artista. É, provavelmente, o filme português mais aguardado do ano. Estreou a 22 de Agosto, mas graças ao próprio protagonista pude ver “Variações” no cinema, no mítico São Jorge, em ante-estreia.
“Variações” é um daqueles filmes que afirmamos “vale a pena ver”. Mas vale mesmo! O enredo começa na pequena aldeia de Pilar, no concelho de Amares, distrito de Braga, onde vivia a família numerosa de Variações — que aqui ainda não o era. Nesta altura era só António Ribeiro. Ao início, percebemos que ele não gostava de trabalhar na fábrica na sua adolescência, que vivia num ambiente religioso e rural, que o seu ídolo cedo começou por ser Amália Rodrigues, que tinha o sonho de ir para Lisboa e que o pai lhe ensinou a tocar cavaquinho. Pormenores que ajudam a contextualizar as origens do cantor e que resultam nas bases do seu futuro.

O filme, que se alonga por praticamente duas horas, vai-nos mostrando elementos que ajudam a explicar como é que tudo aconteceu para António Ribeiro. Demora-se a segui-lo quando era ainda um anónimo barbeiro aspirante a cantor e da sua cena nocturna, musical e de costumes; e avança depois para os últimos tempos da sua vida, após a fama e antes de morrer prematuramente, de SIDA,
em 1984, no dia de Santo António, 13 de Junho, aos 39 anos. Justamente quando finalmente estava a conseguir começar uma carreira... Estava mesmo no início, tinha um LP e um single, quando faleceu. Isto porque o “antes” do reconhecimento e da notoriedade foi o que mais interessou ao realizador.

O guião — que foi escrito pelo realizador João Maia — centra-se nas dificuldades que António encontrou junto das editoras para conseguir que a sua música fosse aceite. Por outro lado, a sua homossexualidade não é vista nesta produção como um obstáculo na indústria — só em algumas ocasiões do dia-a-dia. Como é sabido, antes de músico — sendo que nunca tivera formação na área — António era barbeiro. Trabalhou em vários espaços, incluindo em Amesterdão, na Holanda, onde conheceu Luís Vitta, jornalista brasileiro que vivia em Portugal e que muito ajudou a promover a carreira do artista através dos contactos que tinha.

O concerto em Amares, com a mãe, é um dos momentos comoventes. Mas o lado mais emotivo do filme surge quando o protagonista reencontra o antigo namorado, com quem volta a desenvolver uma relação especial, Fernando Ataíde (Filipe Duarte), dono do Trumps e que tinha sido chefe de António numa das barbearias onde trabalhou. A proximidade e relação entre ambos é bem trabalhada no filme e atinge o seu auge nos momentos em que o cantor já não se encontrava bem de saúde e, contra as recomendações dos médicos, continuava a dar concertos e a cumprir o seu sonho.

Sérgio Praia faz uma interpretação perfeita! Para além de estar muito bem caracterizado como António, ele canta realmente bem (grande parte do que ouvimos foi gravado por ele). E consegue uma verdadeira transfiguração, apanhando pormenores tão importantes como a timidez de Variações no primeiro contacto, a sua cortesia e boa educação, assim como a sua teimosia e o seu sentido do espectáculo. Do elenco destacam-se também outros actores como o mencionado Filipe Duarte, Victoria Guerra, Teresa Madruga, Augusto Madeira, Afonso Lagarto, Tomás Alves e José Raposo, entre outros, sendo que a interessante banda sonora do filme está editada pela Sony Music Portugal, em formato físico e digital, contando com “Quero dar nas vistas”, tema inédito recriado por Armando Teixeira, dos “Balla”, propositadamente para o filme.

O guarda-roupa, os cenários, a produção musical e sonora e a direcção de fotografia são outras das grandes qualidades deste “Variações” — um filme de época bem conseguido que nos leva até à Lisboa artística dos anos 70 e 80 e ao imaginário tão característico de António Variações. Produzido por Fernando Vendrell, da David & Golias, e celebrando a vida e a música da primeira estrela pop portuguesa e uma das figuras mais exuberantes do nosso país, o filme dá-nos a conhecer o percurso biográfico do músico, com especial enfoque no período de 1977 a 1981.
Sendo o primeiro filme português a ser exibido em tecnologia Dolby Atmos, proporcionando aos espectadores uma experiência sonora mais imersiva, "Variações” chega aos cinemas no ano em que se assinalam 35 anos após a morte do artista e 75 do seu nascimento. Vale a pena ver, volto a repetir e, com isso, celebrar o legado e a história de António Variações, que, tantos outros, merecia ter tido mais reconhecimento em vida. E sendo o seu filme de estreia na realização, Maia consegue assinar um dos melhores filmes portugueses deste século.

Mais sobre António Variações:
António Joaquim Rodrigues Ribeiro, que adoptou o nome artístico de António Variações, nasceu em 1944 em Fiscal, Amares. O filme foca, precisamente, o processo de transformação na persona de António Variações, artista excêntrico e popular cuja carreira fulgurante foi interrompida pela sua morte. António sempre perseguiu o seu sonho de se tornar cantor e compositor, apesar de não saber uma nota de música. Depois de esperar por uma oportunidade de uma editora, começou, “às suas custas”, a tentar construir uma carreira no mundo da música. Levou cinco anos até se tornar famoso.
Em maio de 1983, era um dos mais populares artistas portugueses, com mais de 100 espectáculos marcados para o verão. O seu primeiro disco, “Anjo da Guarda”, foi fenómeno de vendas e Variações faz o seu concerto mais “apetecido”, na Aula Magna, sendo a primeira parte de Amália Rodrigues, o seu maior ídolo. Em 1984, Variações grava o seu segundo e último álbum, chamado "Dar e Receber”. Morreria em Junho desse mesmo ano, aos 39 anos.
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