O lindo hino “Adeste Fideles”, que se volta a ouvir nesta quadra natalícia, é muito antigo. E há quem defenda que quem o escreveu foi um rei português. Aposto que não sabiam que, embora envolto em alguma polémica, esta hino de Natal é de origem portuguesa.
Passemos aos factos: há quem diga que “Adeste Fideles”, que se tornou uma das músicas natalícias mais tocadas em todo o mundo, foi composto por D. João IV (1604-1656). Porém, Rui Vieira Nery, historiador e musicólogo, sustenta que tal obra não é da autoria deste rei português. “Fantasia romântica sem qualquer fundamento”, caracteriza o ex-secretário de Estado da Cultura. Porém, a crença generalizada é exatamente oposta: “Adeste Fideles” é atribuído ao rei nascido em Vila Viçosa – regente melómano da dinastia de Bragança –, pois assim indicam dois manuscritos deste hino alegadamente encontrados na escola de música da Capela do Paço Ducal de Vila Viçosa. Rui Vieira Nery assegura ser “absolutamente falso” que tais manuscritos existam nessa vila alentejana.
“Adeste Fideles” (“Vinde, fiéis”) foi escrito segundo o modelo dos hinos litúrgicos e é ouvido em celebrações canónicas, como aconteceu já na Basílica de São Pedro, no Vaticano. É um cântico universalmente conhecido, que convida a uma celebração festiva do nascimento de Jesus. O Patriarcado de Lisboa classifica-o como “tradicional”, outros afirmam que é de autor anónimo. Do ponto de vista técnico e segundo o musicólogo, há um outro argumento: “É uma obra composta em harmonia funcional inteiramente tonal, com acompanhamento de baixo contínuo, num estilo absolutamente incompatível com a prática musical do tempo de D. João IV.”

Este hino foi ouvido em Paris, pela primeira vez, em 1744 e foi então considerado de origem inglesa ("O Come, All Ye Faithful"). A partitura terá uma primeira impressão em 1782, no livro inglês An Essay on the Plain Chant, de acordo com o maestro Luís de Freitas Branco, citado num artigo da professora Carlota Miranda, da Universidade de Coimbra. Tal artigo saiu no Boletim de Estudos Clássicos, em 1997, e tem por título “O Hino de Natal pseudo-português”.
Mas, caramba, se a autoria não é do rei português, de quem poderá ser? Rui Vieira Nery, defende que a composição é posterior a 1675, “mais provavelmente” de inícios do século XVIII, podendo ser atribuível a John Francis Wade (1711-1786). De acordo com uma nota no site da New York State Library, “investigações demonstram que o ‘Hino Português’, como era conhecido, foi provavelmente escrito pelo compositor John Francis Wade e publicado por este, pela primeira vez, na compilação Cantus Diversi, em 1751”. Segundo a professora de Coimbra, a composição “tem provavelmente as suas origens nos meios católicos ingleses de setecentos” e “no final do século XVIII cantava-se na capela da embaixada de Portugal em Londres”, e acrescenta: “Talvez advenha daqui a errada denominação deste hino como Portuguese Hymn, por parte dos católicos ingleses.” Já segundo Rui Vieira Nery, “até à legalização do culto católico em Inglaterra”, a embaixada portuguesa “era um dos únicos locais em que o mesmo podia ser celebrado em território britânico”.

Então, fica por terra a ideia de que se trata de um hino de origem portuguesa? De facto, até um passado recente, desde o século XVII, “Adeste Fideles” era conhecido, em Inglaterra e nos Estados Unidos, como “Hino Português”ou “The Portuguese Hymn”. Tal devia-se a que “Adeste Fideles” era um dos hinos favoritos, regularmente cantados no Natal da Capela da Embaixada Portuguesa, em Londres, nos séculos XVII e XVIII, no tempo da intolerante repressão protestante. A Embaixada Portuguesa também ficou célebre “pela excelência das músicas usadas nas cerimónias litúrgicas”.
Porém, os livros são quase unânimes em registar o “Adeste Fideles” como Hino Português. A autoria é mesmo atribuída, por alguns, ao Rei D. João IV, o rei músico, cuja Capela do Palácio Ducal de Vila Viçosa era um grande e célebre reduto de arte musical, no século XVII. De entre as composições muito conhecidas deste Rei conta-se a “Crux Fidelis”.
Uma coisa é certa, a autoria da melodia, jamais será conhecida com toda a certeza. Mas não há dúvida quanto à sua origem portuguesa. Por questões políticas e hegemôóicas, hoje muitos registam “Adeste Fideles” como sendo de autoria anónima, numa tentativa de desviar a atenção da verdadeira autoria portuguesa, até porque não existe outra alternativa plausível. Anónima, talvez, mas não apátrida.

De modo geral e até recentemente, era registado como canto popular português. Esta é, certamente, a única forma correta de conceber a origem de tão bela quão célebre melodia e letra, embora em latim. O ritmo musical de “Adeste Fideles” é claramente de origem portuguesa. Pela delicadeza e leveza da melodia, assemelha-se ao ritmo popular da ciranda, além de outras modalidades populares de Portugal, hoje tradicionais, em todos os povos lusófonos. O destaque dado hoje à celebração do Natal foi sendo imposto pela tradição popular, que aos poucos se impôs às hierarquias. Daí o ritmo do canto popular de roda, de ciranda, simples, alegre e movimentado que caracteriza “Adeste Fideles”. Por isto, pode ser acompanhado por instrumentos simples.
Concluindo, é possível dizer que, com tão leve e sugestiva melodia, Portugal ofereceu ao mundo o hino universal do Natal. “Adeste Fideles” entoa um Natal compartilhado e universal. É um convite a todos (Vinde, correi) para a confraternização do Natal, sem discriminação de raça ou posição social. “Adeste Fideles” canta os genuínos valores do Natal cristão. Canta a simplicidade, a confraternização popular, a alegria partilhada.
Tenham um Santo e Feliz Natal!
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