Quando o terror vem de quem menos esperamos... Vi “Primata” recentemente, na sua antestreia, e, confesso, foi uma experiência tão desconcertante quanto diferente dentro do terror contemporâneo. Até porque sou um consumidor ávido de cinema de terror, sobretudo do sobrenatural. De slashers e gore, gosto menos... Este filme, realizado por Johannes Roberts (conhecido por títulos como “Medo Profundo”), parte de uma premissa que por si só já desperta curiosidade: um chimpanzé aparentemente dócil torna-se numa ameaça letal durante umas férias tropicais.

 

 

O que nos é apresentado nos primeiros minutos é um ambiente pacato, aparentemente familiar, com uma família e amigos a relaxar numa casa isolada, mas que rapidamente se transforma num pesadelo visceral. A premissa de um animal doméstico convertido em algo incontrolável não é totalmente nova, mas aqui “Primata” esforça-se por dar um twist mais cru: não há monstros fantásticos, nem forças sobrenaturais. O horror é terreno, primitivo, e assenta na ideia de animalidade e perda de controlo.

 

 

A narrativa é direta e não se complica com subtramas densas. Lucy, a protagonista interpretada por Johnny Sequoyah, regressa à grande casa da família no Havai para as férias e reencontra o chimpanzé Ben. Este chimpanzé, criado quase como um membro da família, acaba por ser mordido por outro animal e contrai raiva, desencadeando um comportamento predatório quase implacável.

 

O resultado é um grupo de personagens que, em grande parte, parecem existir apenas para serem caçados. Isto pode funcionar em filmes de terror mais tradicionais, mas em “Primata” dá uma sensação de oportunismo narrativo. Trata-se de personagens previsíveis e com pouca profundidade, que oscilam entre momentos de tensão e diálogos quase descartáveis.

 

 

Se há algo que “Primata” faz bem é aproveitar o espaço e a tensão física: as várias divisões da casa isolada tornam-se numa espécie de armadilha labiríntica para as vítimas, e isso cria uma dinâmica de jogo “de gato e rato” que, em determinados momentos, funciona. Outro ponto positivo vai para a forma como o chimpanzé é apresentado, longe de CGI excessivo, parece haver um esforço para tornar Ben crível e ameaçador, sobrenadando essa linha ténue entre animal real e figura monstruosa. No entanto, o filme tropeça quando tenta equilibrar esses elementos com lógica ou coerência interna. A transição de Ben de companheiro para predador demasiadas vezes desafia não só a plausibilidade, mas também o próprio código de lógica interna do filme. E quando a inteligência atribuída ao animal ultrapassa aquilo que foi construído de forma crível, o terror desvia-se para aquilo que parece mais… exagerado do que assustador.

 

Há momentos de violência visceral que podem impressionar espectadores mais sensíveis, talvez mais do que muitas produções contemporâneas se atrevem a mostrar. Mas, ironicamente, essa violência não é sempre acompanhada da profundidade emocional ou temática que a tornaria verdadeiramente memorável. Em vez disso, “Primata” provoca sustos e choques num ritmo que por vezes se perde, porque não estamos verdadeiramente investidos nas personagens humanas nem na lógica do antagonista.

 


Em suma, “Primata” é um filme que cumpre o papel de entretenimento para fãs do género de terror mais direto, aquele que não se envergonha de sangue, tensão e perseguições. No entanto, deixa a sensação de que poderia ter sido muito mais se tivesse explorado melhor a psicologia das suas personagens ou aprofundado aquilo que o seu protagonista animal representa narrativamente.

 

Se procuras um terror denso e reflexivo, este pode não ser o filme ideal para ti. Mas se o teu objectivo é sentir aquela mistura clássica de sustos inesperados e adrenalina cinematográfica, “Primata” oferece isso, ainda que com tropeços e um impacto final que fica aquém do inevitável potencial do conceito.

Etiquetas:

Comente este artigo