Há filmes que nos fazem sorrir, cantarolar e sentir tudo ao mesmo tempo. “Song Sung Blue” é, para mim, uma dessas raras experiências cinematográficas que mistura drama, música e amor de uma forma deliciosamente inesperada. Fui à sua antestreia e aconselho vivamente.

 

Estreado no início de 2026, já em exibição nos nossos cinemas, “Song Sung Blue” é uma história baseada em factos reais: a vida do casal Mike e Claire Sardina, dois músicos de Milwaukee que decidiram formar uma banda de tributo a Neil Diamond chamada Lightning & Thunder. Este filme conquistou-me também pela verdade emocional que nasce de uma história real, simples e profundamente humana.

 

 

Inspirado na vida de um casal anónimo da classe trabalhadora americana, o filme parte de um ponto que, à partida, parece modesto: dois adultos comuns, com empregos instáveis, sonhos adiados e uma paixão partilhada pela música de Neil Diamond. Nada de palcos gigantes, nada de fama instantânea. Apenas a vontade, quase teimosa, de continuar a cantar juntos, a mostrar que nem todas as histórias de amor e de música precisam de grandes palcos para serem grandiosas...

 

Porque esta história existiu mesmo. Mike e Claire Sardina (nomes reais) formaram mesmo uma banda de tributo a Neil Diamond, actuando em bares, festas locais e pequenos eventos, encontrando na música não um atalho para a glória, mas uma forma de sobrevivência emocional. Antes de ser ficção, “Song Sung Blue” foi um documentário (o filme é uma adaptação do documentário homónimo de 2008), e tal sente-se. Sente-se na forma como o filme recusa o glamour fácil e prefere mostrar as rotinas, as frustrações, os acidentes de percurso e as pequenas vitórias que raramente chegam ao cinema.

 

 

E o que torna este filme tão especial? Primeiro, as interpretações de Hugh Jackman e Kate Hudson. A química entre eles é admirável: Jackman encarna Mike com coração de showman e vulnerabilidade, e Hudson é simplesmente radiante como Claire, trazendo uma honestidade emocional à personagem que é difícil de ignorar. Não é apenas a forma como cantam, pois, ambos os actores fazem parte da performance musical com uma entrega total, mas também o modo como carregam a narrativa nas costas.

 

 

Musicalmente, “Song Sung Blue” é uma celebração genuína das canções de Neil Diamond, que funcionam aqui como banda sonora emocional e narrativa. São momentos de “Sweet Caroline” e outros clássicos que nos lembram porque a música tem o poder de unir, levantar e emocionar, mesmo quando estamos a ver duas personagens às voltas com situações humildes, longe dos grandes holofotes. O ritmo da história oscila entre o doce e o agridoce. Por um lado, é um romance musical que nos conforta; por outro, explora choques e dificuldades reais: acidentes, frustrações, vidas que nem sempre correm como planeado e esse equilíbrio faz com que o filme ressoe profundamente com quem já viveu altos e baixos da vida real.

 

 

No entanto, como toda a grande obra, “Song Sung Blue” também divide opiniões. Há quem critique o filme por ser demasiado sentimental. Talvez seja. Mas, para mim, isso faz parte da sua honestidade. A vida real também é assim: imperfeita, repetitiva, por vezes melodramática e, ainda assim, cheia de momentos de uma beleza inesperada. “Song Sung Blue” não tenta transformar uma história comum num conto de fadas. Limita-se a dizer-nos que a dignidade das vidas anónimas merece ser celebrada e realça que estamos perante uma história muito humana, que sabe exatamente que emoções quer provocar.

 

 

É essa capacidade de nos fazer sentir como se estivéssemos numa pequena sala, a cantarolar com uma banda de tributo em Milwaukee, que torna “Song Sung Blue” tão memorável. É um filme sobre amor, música, segundas hipóteses e sobre como, mesmo nas vidas mais aparentemente comuns, há espaço para momentos extraordinários. Saí do cinema com a sensação rara de ter visto algo verdadeiro. Um filme que não acelera, não força. Apenas canta, baixinho, mas com convicção. E talvez seja isso que o torna tão especial: lembrar-nos que, mesmo longe dos holofotes, há histórias reais que merecem ser ouvidas. Se ainda não o viste, recomendo vivamente que o faças e, se fores como eu, provavelmente vais sair da sala a cantar o refrão de “Sweet Caroline” enquanto pensas nos teus próprios sonhos, grandes e pequenos.

 


 

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