Confesso que, mal saí da sala de cinema, na noite de antestreia, na minha cabeça ainda ecoava o som característico daquele telefone a tocar e a imagem famigerada da máscara de Ghostface. “Gritos 7” é, sem dúvida, um capítulo especial numa saga que já atravessou três décadas e que, por isso mesmo, carrega nos ombros um peso enorme: honrar o legado e, ao mesmo tempo, justificar a sua própria existência.

 

Para quem, como eu, cresceu com o slasher original de 1996 e viu a série reinventar-se inúmeras vezes, este sétimo episódio traz de volta Sidney Prescott no centro da narrativa. Sidney já não é a jovem vulnerável de Woodsboro. É uma mulher marcada, madura, consciente de que o passado nunca desaparece por completo. E talvez seja precisamente essa consciência que dá a este capítulo uma camada emocional diferente. Mais próxima da sua vida familiar em Pine Grove, ela tenta proteger a filha Tatum do regresso inevitável de Ghostface.

 


Senti, desde o início, que o filme aposta fortemente na nostalgia. Há ecos do original de 1996 em cada esquina, em cada enquadramento, em cada jogo de expectativas. A sombra da sequência inicial do primeiro filme, aquela que eternizou Drew Barrymore no imaginário coletivo do terror, paira claramente sobre este novo arranque. E é justamente na abertura que “Gritos 7” me agarrou logo. A jovem que protagoniza a primeira sequência luta de forma quase desesperada pela própria vida. Não é uma morte rápida, nem gratuita. Há resistência, há estratégia, há tentativa genuína de sobrevivência. Vi ali um respeito pelo espírito do slasher clássico, mas também uma brutalidade que me deixou desconfortável no melhor sentido possível. Sabemos que o destino, neste universo, raramente é misericordioso. Ainda assim, torcemos. E quando o desfecho chega, chega de forma dura, cruel e memorável.

 

Mais à frente, há outra cena que me marcou particularmente. Num teatro, durante um ensaio, uma jovem suspensa por cabos fica vulnerável num espaço que deveria ser artístico e seguro. A amplitude do cenário, o vazio da sala, o corpo pendurado, a sensação de impotência... Tudo contribui para uma sequência visualmente impactante e, dentro do género, surpreendentemente original. Em termos de slasher, é nestes momentos que o filme revela alguma criatividade nas mortes. E embora isso não seja suficiente para sustentar toda a narrativa, são cenas que realmente marcam.

 


Ao longo da projeção, fui sentindo que o filme vive muito da memória daquilo que já foi. Há momentos eficazes, sim, há tensão, há um ou outro golpe inteligente na estrutura típica da saga, mas também há uma sensação de familiaridade excessiva. Como se o argumento tivesse receio de arriscar verdadeiramente. Fiquei dividido entre o prazer de revisitar este universo e a consciência de que talvez estivesse à espera de uma reinvenção mais ousada.

 

 

O regresso de Gale Weathers reforça essa ponte entre passado e presente. A dinâmica entre personagens antigas e novas tenta equilibrar gerações, mas nem sempre atinge a profundidade desejada. Ainda assim, é inegável que há momentos de entretenimento puro. Aquela tensão quase lúdica que sempre definiu “Gritos” entre nós, continua lá.

 

 

Saí da sala de cinema com sentimentos mistos, mas não indiferente. E isso, no terror, já é meio caminho andado. “Gritos 7” pode não reinventar o género, pode não ser o capítulo mais arrojado da saga, mas recorda-me porque é que continuo a voltar a estas histórias. Porque, no fundo, não é apenas sobre quem está por trás da máscara de Ghostface. É mais sobre a nossa relação com o medo. Sobre a expectativa que se gera. Sobre aquele momento em que o telefone toca e, por breves segundos, tudo parece possível. E, enquanto houver essa sensação, acreditem, eu vou continuar a “atender”.

 


 

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