Nos últimos meses, comecei a ver cada vez mais conteúdos nas redes sociais sobre pessoas que se identificam com animais. Vídeos, debates, memes, opiniões extremas. Confesso que, numa primeira fase, senti alguma estranheza. Mas também curiosidade. Porque por detrás de cada fenómeno viral existe sempre algo mais profundo do que aquilo que parece à superfície.
É neste contexto que surge o termo “therian”, associado a pessoas que afirmam sentir uma ligação psicológica, espiritual ou simbólica a um animal específico, algo que descrevem como parte integrante da sua identidade.
Embora hoje o tema esteja a ganhar visibilidade, sobretudo através das redes sociais, a verdade é que não é novo. O conceito começou a circular em comunidades online nos anos 90 e está ligado a uma tradição cultural muito antiga, onde a fusão simbólica entre humano e animal já aparecia em mitos, rituais e narrativas de várias civilizações. Mais do que uma “moda”: identidade, emoção e pertencimento
Uma das ideias mais interessantes apontadas por especialistas é que a identificação com um animal pode funcionar como uma linguagem simbólica para expressar emoções ou características internas difíceis de traduzir de outra forma. A escolha de um lobo, de um felino ou de uma ave pode representar força, liberdade, instinto ou necessidade de proteção.
Alguns investigadores sugerem ainda que pessoas com maior sensibilidade sensorial ou uma perceção corporal mais intensa podem sentir experiências físicas e emocionais profundas que acabam por ser interpretadas como “sentir-se animal”. Nesse sentido, a identidade “therian” seria uma forma intuitiva de dar nome a estados interiores complexos.
É importante compreender que, para muitos, não se trata de fantasia ou de brincadeira. Trata-se de uma tentativa de autocompreensão, de aceitação pessoal ou de procura de comunidade. Numa sociedade cada vez mais digital, onde o sentimento de isolamento cresce, estas identidades podem funcionar como pontes de ligação entre pessoas que partilham experiências semelhantes.
O papel das redes sociais e a amplificação do fenómeno
Se este tema ganhou tanta visibilidade recentemente, deve-se sobretudo ao efeito multiplicador das plataformas digitais. O interesse disparou em vários países e transformou-se rapidamente num debate público intenso, alimentado tanto pela curiosidade como pela crítica e pelo humor.
Este ciclo de “viralidade” revela algo fundamental sobre o nosso tempo: as redes sociais não apenas mostram fenómenos sociais, mas também os amplificam e, por vezes, simplificam-nos em excesso. Entre vídeos de jovens a correr em quatro patas e discussões polarizadas, corre-se o risco de reduzir um tema complexo a um espetáculo superficial.
Entre a empatia e o exagero
Especialistas em psicologia alertam para a importância de distinguir entre expressão simbólica saudável e situações em que possa existir sofrimento emocional ou necessidade de acompanhamento clínico. Nem tudo deve ser patologizado, mas também nem tudo deve ser romantizado.
Talvez a questão central não seja saber se alguém “é” ou “não é” um animal. Talvez a verdadeira questão seja: o que leva alguém a procurar essa identidade?
Solidão, necessidade de pertença, dificuldade de integração social, sensibilidade emocional intensa, influência cultural. Tudo isto pode desempenhar um papel.
Portanto, há quem olhe para o fenómeno com preocupação, sobretudo quando comportamentos extremos surgem associados à identidade “therian”. Outros defendem que patologizar automaticamente estas experiências pode aumentar o estigma e aprofundar o sentimento de exclusão de quem já se sente diferente.
Talvez a abordagem mais sensata esteja algures no meio. Nem romantizar tudo, nem ridicularizar. Nem negar o impacto psicológico possível, nem ignorar a necessidade humana de expressão e pertença.
Afinal, o que este fenómeno diz sobre nós?
Mais do que sobre pessoas que se identificam com animais, este debate fala sobre algo profundamente humano: a busca por identidade. Ao longo da história, o ser humano sempre procurou símbolos para se compreender, seja na religião, na arte, na cultura pop ou na natureza.
Talvez o fenómeno “therian” seja apenas mais uma forma contemporânea dessa procura. Uma tentativa de encontrar sentido num mundo acelerado, hiperconectado e, paradoxalmente, solitário.
No fundo, obriga-nos a olhar para uma pergunta essencial: até que ponto estamos realmente a escutar as novas formas de expressão das gerações mais jovens?
Porque antes de julgar qualquer fenómeno social, talvez seja mais importante compreender o vazio que ele tenta preencher.


