Todos os anos falamos do 25 de Abril. E, ainda assim, nunca é demais. Porque não é apenas uma data. É um símbolo. De liberdade. De conquista. De tudo aquilo que hoje tomamos como garantido, mas que, durante muito tempo, simplesmente não existia.

E talvez por isso me faça cada vez mais confusão ouvir aquela frase tão repetida:
“no passado é que era…” Eu olho para trás e penso: será mesmo?



Quando se percebe que… não, não era melhor

 

Antes do 25 de Abril, a liberdade não era um direito. Era uma exceção. Coisas que hoje nos parecem absolutamente normais eram, na altura, proibidas. E não estamos a falar de grandes actos de rebeldia. Estamos a falar da vida.

 

Beijar em público? Era proibido.
Usar minissaia no liceu? Impensável.
Ajuntamentos com mais de três pessoas? Não eram permitidos.
Entrar numa igreja com a cabeça descoberta, sendo mulher? Não, impossível.
Beber Coca-Cola? Também não.
Jogar às cartas num comboio? Ridículo, mas proibido.

 


E depois há aquilo que, hoje, talvez pese ainda mais quando pensamos: o controlo sobre o corpo das mulheres. Coisas tão simples como ir à praia implicava regras rígidas. O biquíni era interdito. O que vestir, como estar, como existir, tudo era condicionado. Não era só o país que não era livre. Eram as pessoas. Os corpos. As vozes.




A liberdade não é um detalhe

 

Contudo e preocupante, há uma tendência perigosa para romantizar o passado. Para confundir ordem com liberdade. Para esquecer o que significava viver com medo, com limites impostos, com censura. Sim, havia outras coisas. Outros ritmos. Outras formas de viver. Mas não havia escolha. E é precisamente isso que hoje temos.

 


 

E depois há um gesto simples que ficou na história

 

No meio de tudo isto, há algo que sempre me fascinou no 25 de Abril: a simplicidade com que um símbolo nasce.

 

Celeste Caeiro não tinha um cigarro para oferecer a um soldado. O que tinha eram flores, cravos, que estavam a ser distribuídas num restaurante que acabou por não abrir naquele dia. E foi isso que deu. O soldado colocou o cravo no cano da espingarda.
Outros fizeram o mesmo. E, sem planeamento, sem estratégia, nasceu um dos símbolos mais bonitos da nossa história. A chamada Revolução dos Cravos.



No fundo, é isto

 

Portanto, falar do 25 de Abril não é olhar para trás com nostalgia. É olhar com consciência.

É perceber que aquilo que hoje temos, e tantas vezes criticamos ou damos como garantido, vem de um lugar onde não havia voz, não havia escolha, não havia liberdade. E eu penso nisto tudo sempre que alguém me diz que “antes é que era”. Porque, afinal, antes… não era.

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