Fui assistir, em antestreia, ao espetáculo da UAU, “Sr. Engenheiro – Alegadamente um Musical”, no Teatro Tivoli BBVA, e saí com aquela sensação rara de não saber bem se estive a ver uma comédia… ou um espelho. Porque sim, ri muito. Ri bastante. Mas não foi um riso leve...

 

A peça parte de algo que todos conhecemos, ou pelo menos reconhecemos. Um dos casos mais mediáticos da política portuguesa serve de ponto de partida para um musical que nunca pretende ser uma reconstituição fiel, mas antes uma sátira assumida, exagerada, quase absurda. E é precisamente aí que reside a sua força.

 

 

Quando a realidade já parece ficção

 

Há uma ideia que não me saiu da cabeça durante todo o espetáculo: esta história já é, por si só, tão surreal que talvez só pudesse mesmo acabar num musical.

 

A narrativa percorre várias fases da vida de uma figura que nunca é nomeada diretamente, mas cuja identidade é evidente para todos. Da infância nas Beiras ao auge do poder, passando pelos episódios mais polémicos, tudo é reinterpretado com humor, música e um certo exagero quase caricatural. E, no entanto, aquilo que vemos em palco não é apenas sobre uma pessoa.

 


Mais do que política, é sobre nós

 

O que mais me surpreendeu foi perceber que o espetáculo não é apenas sobre o “Sr. Engenheiro”. É sobre Portugal. Sobre a nossa forma de ver o poder, de lidar com o sucesso, com o dinheiro, com a justiça… e, talvez acima de tudo, com aquela tendência tão nossa para o “chico-espertismo”.

 

Há momentos em que nos rimos pela genialidade das letras, pelo ritmo, pela energia em palco. E há outros em que o riso fica meio preso, porque percebemos que aquilo não está assim tão longe da realidade. E torna-se algo desconfortável. Mas é também isso que torna o espetáculo relevante.

 

 

Um musical tecnicamente impressionante

 

Há ainda um lado que não posso deixar de referir: a dimensão e a exigência do próprio espetáculo. Tudo acontece a um ritmo quase vertiginoso. Mudanças de cenário, coreografias, música ao vivo, múltiplas personagens… há uma energia constante que não deixa espaço para distrações. É daqueles espetáculos em que sentimos o esforço coletivo por trás de cada segundo. E isso vê-se. E sente-se.

 


Rir como forma de libertação

 

No final, fiquei a pensar que talvez este seja o verdadeiro papel da cultura. Não apenas entreter, mas provocar. Questionar. Obrigar-nos a olhar para aquilo que, muitas vezes, preferimos ignorar.

 

“Sr. Engenheiro – Alegadamente um Musical” consegue fazer isso com inteligência, humor e uma certa irreverência que, honestamente, já fazia falta. E talvez seja esse o maior mérito deste espetáculo: mostrar-nos que, às vezes, a única forma de lidar com certas realidades… é rir delas. Mesmo quando esse riso nos diz mais sobre nós do que gostaríamos.

 

 


 

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