Desde os meus 13 anos que acompanho a Madonna. Cresci com a
sua música, vi-a reinventar-se vezes sem conta e, passadas mais de quatro
décadas, continuo a admirar exatamente a mesma coisa: a sua recusa em ficar
parada no tempo.
Na passada sexta-feira, 3 de julho, lançou “Confessions II”, o seu 15.º álbum de estúdio. Confesso que aquilo que mais me impressiona não são tanto as canções, que são óptimas, mas a mensagem que o álbum transmite.
Vivemos numa época em que se espera que os artistas de uma determinada idade vivam das memórias. Que façam novas versões dos grandes êxitos, que celebrem aniversários de álbuns históricos e que alimentem a nostalgia dos fãs. Madonna nunca aceitou esse papel. Ela não se conforma.
Ao longo da sua carreira, acertou muitas vezes e, noutras, dividiu opiniões. “Hard Candy”, “MDNA”, “Rebel Heart” ou “Madame X” são álbuns que provaram precisamente isso. Mas há uma diferença fundamental: nunca deixou de experimentar. Nunca fez música apenas para agradar ou para repetir fórmulas que sabia resultarem.
Madonna não pára de me maravilhar
É precisamente isso que sinto em “Confessions II”. O álbum não tenta transformar “Confessions on a Dance Floor” numa peça de museu. Pelo contrário, parte desse universo de pista de dança para construir algo novo, sem viver refém dele. O passado não desaparece por completo, mas também não lhe dita o caminho.
Outra das ideias que mais me marcou prende-se com a forma como Madonna continua a desafiar a relação entre idade, liberdade e criatividade. Às mulheres continua, muitas vezes, a ser pedido que envelheçam discretamente, que aceitem tornar-se figuras de referência, mas deixem de ocupar o centro do palco. Ela passou a vida inteira a recusar essa expectativa, a combater esse estigma.
Certamente, é por isso que continua a ser uma artista única, sem igual. Nunca permitiu que a definissem apenas pela idade, pelo género ou pelo momento da carreira em que se encontrava. Preferiu sempre redefinir-se pelas suas próprias regras.
Depois, há as letras. Falam de amor, de perda (do irmão), de família (a filha Lola), de fé, de identidade e até da morte. Daí voltar-se a chamar-se exatamente de “Confessions”. Não como alguém que olha para trás, com saudade, mas como quem reorganiza a própria história para conseguir seguir em frente. Trata-se de uma perspetiva madura, mas nada conformada.
Talvez seja essa a maior força de “Confessions II”. Não é um álbum sobre o passado, é um álbum sobre o presente. Sobre continuar a criar quando tantos esperam que apenas recordes aquilo que já fizeste.
Continuo a acreditar que é por isso que Madonna permanece relevante. Não porque tem sido uma das maiores protagonistas da história da música pop, mas porque continua a comportar-se como uma artista que ainda tem tudo para provar. E isso, para mim, é muito mais inspirador do que qualquer exercício de nostalgia.

