Normalmente, para qualquer museu, entra-se por uma porta. Neste de que vos vou falar, entramos através de um ecrã. E acreditem: nem por isso a viagem é menos interessante.

 

Descobri, recentemente, o “Museu das Marcas, Artes Gráficas e Publicidade”, um projeto criado pelo Museu do Caramulo e inteiramente dedicado à história das marcas, dos produtos, do design e da publicidade que fizeram, e continuam a fazer, parte da vida dos portugueses.

 

E sim: apesar do nome, não vale a pena procurar a morada para planear uma visita. O museu é 100% digital, interativo e de acesso livre. Daí ter afirmado logo ao início que se entra através de um ecrã. Mas talvez seja precisamente aí que esteja uma das suas maiores virtudes.

 

Porque aquilo que encontramos é uma espécie de um enorme álbum da nossa memória coletiva. Embalagens que reconhecemos, anúncios que nos lembramos de ver, logótipos que, entretanto, desapareceram, rótulos, cartazes, objetos publicitários e produtos que, em muitos casos, fizeram parte das nossas casas sem alguma vez pensarmos que um dia poderiam tornar-se peças de museu.

 


 

Quando uma embalagem nos devolve ao passado

 

Quem nunca olhou para uma embalagem antiga e foi imediatamente transportado para outra época? Uma lata de bolachas em casa dos avós, um sabonete que estava sempre na casa de banho, um refrigerante das férias de verão, um anúncio que passava repetidamente na televisão, com um “jingle” que não nos saía da cabeça, ou um logótipo que já quase tínhamos esquecido. É também por tudo isto que torna este projeto tão interessante.

 


 

O “Museu das Marcas, Artes Gráficas e Publicidade” reúne mais de 10.000 objetos catalogados, relacionados com a história da publicidade e das artes gráficas em Portugal e no mundo. Há objetos de design industrial, embalagens, cartazes, rótulos, protótipos, maquetes, anúncios e muitas outras peças relacionadas com a comunicação visual.

 

Algumas pertencem a marcas que continuam connosco. Outras sobreviveram apenas na memória. E é curioso perceber que objetos originalmente criados para vender um produto acabam, décadas depois, por contar muito mais do que isso. Contam-nos como vivíamos.

 


 

A publicidade também é História

 

Sempre achei fascinante olhar para publicidade antiga. Não apenas pela criatividade, ou porque algumas campanhas hoje nos parecem deliciosamente ingénuas, mas porque a publicidade funciona quase como uma fotografia da sociedade no momento em que foi criada.

 

Mostra-nos aquilo que desejávamos, como nos vestíamos, o que comíamos, os automóveis que ambicionávamos, a casa que queríamos ter e até os papéis sociais que, em determinada época, eram atribuídos a homens e mulheres. Por isso, preservar a publicidade não significa apenas preservar anúncios. Significa preservar uma parte da nossa história social e cultural.

 

É precisamente essa uma das missões do “Museu das Marcas, Artes Gráficas e Publicidade”: conservar e divulgar a história das marcas, do consumo, das artes gráficas e do design, transformando materiais muitas vezes considerados efémeros em documentos disponíveis para as gerações futuras.

 


 

Do Caramulo para qualquer parte do mundo

 

Todas as peças são conservadas, fotografadas, digitalizadas e catalogadas por uma equipa multidisciplinar antes de serem disponibilizadas online. O projeto conta ainda com o apoio da Google através do Art Camera Loaner Program, que permite captar algumas peças em altíssima resolução e disponibilizá-las também através da Google Arts & Culture.

 

E não se pense que o museu se limita apenas aos objetos. Existem também histórias de marcas, artigos, vídeos e exposições digitais, num arquivo que continuará a crescer. O projeto reúne marcas portuguesas e internacionais que estiveram ou continuam presentes no nosso país, incluindo algumas que já desapareceram por completo.

 


 

Um museu onde todos temos uma memória

 

Talvez seja esta a parte de que mais gosto no projeto. Num museu tradicional podemos admirar um objeto extraordinário que nunca fez parte da nossa vida. Aqui acontece frequentemente o contrário: encontramos objetos absolutamente banais que, de repente, percebemos terem feito parte dela. Há nisto quase uma atitude “warholiana”. E basta uma imagem, uma embalagem, um anúncio, um logótipo, para nos lembrarmos de uma cozinha, de uma pessoa, de umas férias, de uma infância ou, simplesmente, de um tempo que passou e que já não existe.

 

É por isso que este “Museu das Marcas, Artes Gráficas e Publicidade” me parece muito mais do que um arquivo de publicidade. É, de certa forma, um arquivo de nós próprios. E a melhor parte é que a entrada é gratuita, não há filas e está aberto 24 horas por dia.

 


 

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