Janeiro ficou com a fama dos grandes recomeços. Mas talvez setembro seja o momento em que realmente estamos preparados para eles. Entre o regresso às rotinas e a sensação de que ainda há muito ano pela frente, existe uma segunda oportunidade para mudar, sem precisarmos de mudar tudo.
Há qualquer coisa de janeiro em setembro. Não há champanhe, passas, fogo de artifício ou contagem decrescente. Ninguém nos deseja um feliz ano novo à meia-noite. E, no entanto, quando agosto termina, instala-se aquela estranha sensação de que alguma coisa está novamente a começar. As férias acabam, as cidades recuperam o seu ritmo, as agendas voltam a encher-se, as escolas reabrem e regressamos às rotinas que o verão interrompeu.
E começam também as pequenas promessas. Agora vou organizar-me melhor. Vou voltar a fazer exercício. Vou comer melhor. Vou dormir mais cedo. Vou finalmente ler aquele livro. Vou tratar daquele assunto que tenho adiado. Vou recuperar o projeto que deixei parado. Reconhecem a sensação?
No meu caso, este setembro tem uma pequena ironia: quando grande parte das pessoas está a regressar de férias e a tentar reorganizar a vida, eu preparo-me precisamente para começar a minha única semana de férias.
Talvez nem seja mau. Porque antes de pensarmos em tudo aquilo que queremos mudar, existe uma coisa que também precisamos de reaprender a fazer: parar. O nosso cérebro também gosta de segundas oportunidades
A sensação de recomeço não é apenas uma invenção das revistas de lifestyle. Existe até um conceito estudado pela ciência comportamental: o fresh start effect, ou efeito do novo começo.
Num estudo publicado na revista Management Science, Hengchen Dai, Katherine Milkman e Jason Riis observaram que determinados marcos temporais: o início de uma semana, de um mês ou de um ano, um aniversário, umas férias ou o começo de um semestre, podem aumentar a motivação para perseguirmos objetivos. Os investigadores encontraram, por exemplo, aumentos nas pesquisas relacionadas com dieta, nas idas ao ginásio e nos compromissos assumidos em relação a objetivos pessoais depois desses momentos. É como se traçássemos mentalmente uma linha.
De um lado fica aquilo que não fizemos, os excessos, os adiamentos, as promessas que ficaram pelo caminho. Do outro, aparece uma versão de nós que ainda pode fazer diferente.
E setembro possui muitas dessas características. Para quem cresceu com um calendário escolar, o mês ficou associado desde muito cedo a cadernos novos, horários novos, reencontros, novas responsabilidades e aquela sensação muito particular de começar outra vez. Mesmo décadas depois de deixarmos a escola, essa memória parece permanecer connosco. O psicólogo Pádraig Walsh chama precisamente a atenção para esta associação entre setembro, o regresso às aulas e a vontade de estabelecer novas rotinas. Talvez por isso setembro seja uma espécie de janeiro emocional.
Mas há um problema com os recomeços…
Gostamos tanto da ideia de uma página em branco que frequentemente cometemos o mesmo erro: queremos escrever o livro inteiro no primeiro dia.
Em janeiro conhecemos bem o ritual. Este ano vou perder peso, fazer exercício cinco vezes por semana, poupar dinheiro, beber dois litros de água por dia, aprender uma língua, ler 30 livros, meditar todas as manhãs e tornar-me uma pessoa completamente diferente daquela que adormeceu a 31 de dezembro. E depois chega fevereiro...
Setembro pode cair exatamente na mesma armadilha. Talvez o verdadeiro reset não esteja em decidir quantas coisas vamos começar, mas em escolher aquilo que queremos conseguir continuar.
Porque uma caminhada de 20 minutos que fazemos regularmente provavelmente vale mais do que um plano extraordinário de ginásio abandonado ao fim de duas semanas. Dez páginas de um livro por noite podem levar-nos mais longe do que a resolução de “ler muito mais”. Deitar meia hora mais cedo pode ser uma mudança aparentemente insignificante e, ainda assim, alterar uma rotina inteira.
Até a construção de novos hábitos pode beneficiar dessa simplicidade. Uma estratégia conhecida como habit stacking consiste precisamente em associar um comportamento novo a uma rotina que já existe: alongar enquanto esperamos que a água do chá aqueça, por exemplo. Em vez de construirmos uma vida nova do zero, acrescentamos uma pequena peça à vida que já temos. Talvez mudar não precise de parecer uma revolução.
Setembro não precisa de uma nova versão de nós
Há algo na linguagem contemporânea do bem-estar que sempre me provoca alguma resistência: esta ideia permanente de que temos de nos transformar na nossa “melhor versão”.
Como se a versão atual estivesse constantemente aquém. Talvez setembro não tenha de servir para inventarmos outra pessoa. Pode simplesmente servir para perguntarmos à pessoa que já somos: o que é que me faria bem agora?
Dormir melhor? Mexer-me um pouco mais? Passar menos tempo agarrado ao telefone? Voltar a encontrar alguém de quem gosto? Retomar alguma coisa que me dava prazer e que fui deixando desaparecer da minha vida? Organizar melhor o dinheiro?
Ou simplesmente criar espaço para não fazer absolutamente nada de vez em quando? Nem todos os objetivos precisam de ser produtivos. E nem todas as mudanças precisam de poder ser medidas por uma aplicação.
Ainda faltam quase quatro meses
Há outra razão pela qual gosto da ideia de setembro como um segundo janeiro. O ano ainda não acabou. Temos uma tendência curiosa para chegar ao último trimestre e começar a falar do ano como se já pertencesse ao passado. Em breve aparecerão as retrospectivas, os melhores do ano, as listas de 2026 e inevitavelmente a pergunta sobre aquilo que queremos para 2027.
Mas setembro ainda nos deixa uma parte considerável do ano pela frente. Tempo suficiente para começar alguma coisa. Tempo suficiente para terminar alguma coisa. Tempo suficiente para abandonar alguma coisa que já percebemos que não nos faz bem. E, sobretudo, tempo suficiente para percebermos que não precisamos de esperar pela próxima passagem de ano para tomar uma decisão.
A investigação sobre os chamados marcos temporais sugere precisamente isso: não existe apenas um momento mágico para recomeçar. Uma segunda-feira, o primeiro dia de um mês, um aniversário ou o regresso de umas férias podem criar essa separação psicológica entre o “antes” e o “depois”. Na realidade, podemos criar muitos janeiros ao longo de uma vida.
Talvez o verdadeiro recomeço seja outro
Enquanto escrevo isto, penso na semana de férias que tenho pela frente. E talvez o meu recomeço de setembro comece precisamente por não recomeçar coisa nenhuma durante alguns dias.
Parar. Dormir. Conversar. Caminhar. Ler. Olhar para o mar. Não ter cada hora organizada em função daquilo que é preciso fazer a seguir. Depois, logo se vê. Porque também aprendi que há momentos em que acrescentar mais uma obrigação à vida, mesmo que venha disfarçada de “hábito saudável”, é exatamente o contrário daquilo de que precisamos.
Setembro pode ser o novo janeiro. Mas não precisa de trazer consigo a mesma ansiedade das resoluções de Ano Novo. Talvez seja suficiente escolhermos uma coisa. Uma coisa pequena que queremos fazer melhor. Uma coisa que queremos recuperar. Uma coisa que queremos deixar para trás. E começar por aí. Sem esperar pela segunda-feira perfeita, pelo primeiro dia do mês ou por 1 de janeiro. Porque, no fundo, talvez um recomeço não aconteça quando o calendário muda. Acontece quando nós decidimos que ainda vamos a tempo.




