Na passada quarta-feira tive oportunidade de assistir à antestreia de “Digger”, o novo filme de Tom Cruise, realizado pelo oscarizado Alejandro G. Iñárritu. E começo pelo essencial: gostei. 

Não é um filme simples e estou convencido de que não irá reunir unanimidade. Mas é, precisamente, essa a sua força. Num tempo em que tantos filmes parecem seguir fórmulas seguras e previsíveis, “Digger” arrisca. Faz-nos rir, desconforta-nos e, acima de tudo, leva-nos a pensar... 

A história apresenta-nos Digger, interpretado por Tom Cruise, o homem mais poderoso do planeta. Depois de provocar uma catástrofe à escala mundial, vê-se confrontado com as consequências das suas próprias decisões e embarca numa corrida contra o tempo para tentar reparar os danos causados e recuperar a imagem de herói que construiu ao longo da sua vida. Pelo caminho, é obrigado a enfrentar não apenas os efeitos do caos que desencadeou, mas também questões muito mais profundas sobre responsabilidade, poder e consciência.


Uma sátira que leva assuntos muito sérios a sério 

Aquilo que mais me despertou a atenção foi a forma como o filme utiliza a sátira. 

Há momentos de exagero, ironia e até algum absurdo. Mas por detrás dessa aparência encontra-se uma reflexão bastante séria sobre o mundo em que vivemos. O ambiente, a utilização dos recursos naturais, as decisões tomadas pelos mais poderosos e o impacto que essas escolhas têm na vida de milhões de pessoas estão sempre presentes na narrativa do argumento. 

Gostei, particularmente, dessa abordagem. Em vez de fazer um discurso moralista ou excessivamente pesado, o filme prefere provocar o espectador através do humor e da caricatura. E, talvez por isso, a mensagem acabe por chegar com mais eficácia. 

É um daqueles casos em que a sátira não serve apenas para fazer rir. Serve para nos obrigar a olhar para problemas reais sob uma perspetiva diferente. 


Tom Cruise em grande forma 

Ao longo da sua carreira, Tom Cruise habituou-nos a personagens de ação e a grandes espetáculos cinematográficos. Aqui, continua a ser o centro das atenções, mas num registo diferente. 

A sua interpretação é intensa, segura e, em muitos momentos, bastante desafiante. Consegue transmitir simultaneamente a arrogância, a fragilidade e as contradições de uma personagem que se vê obrigada a confrontar os seus próprios erros. 

Ao seu lado encontramos nomes como Riz Ahmed, John Goodman, Sandra Hüller, Michael Stuhlbarg, Jesse Plemons, Sophie Wilde, entre outros, que ajudam a dar consistência a uma narrativa ambiciosa e repleta de momentos de tensão.


Um filme que continua connosco depois dos créditos 

Não saí da sala a pensar que tinha visto um filme perfeito. Mas saí com a sensação de ter visto um filme relevante. E isso, para mim, tem muito valor. 

“Digger” consegue entreter, impressionar visualmente e, ao mesmo tempo, levantar questões importantes sobre a forma como lidamos com o planeta e com as consequências das nossas ações. É um filme que não entrega respostas fáceis e talvez seja precisamente essa a sua maior qualidade. 

Quando as luzes da sala se acenderam, a história não ficou para trás. Continuou comigo durante o resto da noite. E os filmes que conseguem fazer isso merecem sempre a nossa atenção e respeito. Por isso, deixo a recomendação: vejam-no. Nem que seja para, depois, discutirem as perguntas que o filme nos deixa. Afinal, o bom cinema também serve para isso.

 


 

Etiquetas:

Comente este artigo