Engraçado... ontem, fui ao Ikea e percebi que as lâmpadas LED podem ser “branco quente”, “branco frio”, etc., ou seja, existem diferentes nuances de branco. Chego a casa e procuro pela cor Pantone para 2026 e descubro que se trata, também, de um certo
tipo de branco. Curioso, não?

 

Desde 1999 que a Pantone nos tem vindo a presentear, todos os anos, com uma cor que pretende captar e até antecipar o espírito cultural, social e criativo que vai marcar os meses seguintes. Para 2026, a escolha é audaciosa e, para muitos, inesperada: “Cloud Dancer” (PANTONE 11-4201). Este tom de branco etéreo e leve foi eleito Color of the Year pela primeira vez na história desta iniciativa.

 

Ao contrário das cores vibrantes ou profundamente pigmentadas que dominaram os anos anteriores: tome-se em consideração os mais recentes “Peach Fuzz”, “Mocha Mousse” ou “Viva Magenta”, este branco suave parece quase paradoxal como cor-símbolo. Mas é justamente aqui que reside a sua força e relevância. Segundo o Pantone Color Institute, “Cloud Dancer” não é apenas uma cor, mas uma declaração de simplicidade, tranquilidade e foco num mundo saturado de estímulos e ruído digital.

 

“Cloud Dancer” representa, assim, uma espécie de “tela em branco” emocional e criativa, um convite ao recomeço. Num momento em que a sociedade luta por atenção significativa, presença mental e um certo “reset” interior, esta tonalidade funciona como uma pausa e um sopro de serenidade. A ideia não é apenas estética: é profundamente simbólica. A escolha sugere que, no limiar de 2026, procuramos claridade, calma e espaço para respirar, para pensar e para imaginar.

O uso de um branco tão delicado vai muito além de decoração ou moda: trata-se de uma tendência cultural que ultrapassa fronteiras: desde ambientes interiores minimalistas a coleções de moda que privilegiam silhuetas “clean”, ou mesmo espaços de trabalho onde o excesso visual dá lugar à concentração e à criatividade pura.

 


Naturalmente, a escolha também gerou debate (gera sempre). Há quem veja a opção por um tom neutro como demasiado discreta, até “sem cor”, num mundo que continua a enfrentar desafios sociais, políticos e culturais complexos. Para alguns críticos, a elevação de um branco tão neutro levanta questões simbólicas e críticas sobre o papel da cor como forma de expressão cultural.

 

Mas talvez esteja aqui a grande subtilidade de “Cloud Dancer”: não gritar, mas “sussurrar”, convidar à reflexão e abrir espaço para que outras vozes e outras cores encontrem o seu lugar. É um desafio à saturação permanente, um gesto de pausa num ecossistema visual que, por vezes, nos cega mais do que nos esclarece.

 

No fundo, a Cor do Ano Pantone 2026 não é só uma tendência cromática, é um espelho do momento que vivemos e, talvez acima de tudo, um convite a olhar para o ano que vem com menos ruído e mais intenção. E, sendo este o meu último post de 2025, desejo a todos os que me seguem e me lêem, um feliz e muito prospero 2026!

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Nos últimos dias, dei por mim a ler, e reler, a notícia dos resultados dos World Travel Awards 2025, esses que muitos chamam os “Óscares do turismo”. E confesso: senti aquele aperto bom no peito, uma mistura de orgulho e admiração, ao saber que Portugal subiu 12 vezes ao palco da gala global no Bahrain. Doze vezes! Doze motivos para celebrarmos quem somos e aquilo que construímos enquanto destino turístico de excelência. Um deles e dos mais importantes, Portugal foi eleito o Melhor Destino da Europa 2025 (Europe's Leading Destination 2025). É fascinante como um país tão pequeno em território consegue ser tão grande no mundo. Tal como no passado e em outras circunstâncias. E estas distinções provam exatamente isso.


Algarve: onde o mundo inteiro confirma o que já sabemos

Uma das notícias que mais se destacou foi ver o Algarve novamente coroado como Melhor Destino de Praia do Mundo. Cada vez que regresso ao Algarve, aos pores-do-sol quente, às falésias que parecem pintar o horizonte, ao ritmo tranquilo das marés, percebo que não há prémio que faça realmente justiça à beleza daquela região. Mas é maravilhoso vê-la reconhecida internacionalmente.

E não ficou por aqui: hotéis como o Vila Joya, o Domes Lake Algarve e o Dunas Douradas Beach Club também foram distinguidos. Luxo, hospitalidade, serviço, tudo aquilo que compõe a verdadeira arte de bem receber, o que nós fazemos com uma naturalidade quase genética.

 

Madeira: o encanto eterno que o mundo insiste em aplaudir

Outro destaque foi a distinção da Madeira como Melhor Destino Insular do Mundo, pela 11ª vez consecutiva. A Madeira não é apenas um destino bonito; é um pedaço de magia suspenso no Atlântico, onde a natureza nos lembra constantemente do que é sublime. Das levadas aos miradouros, da hospitalidade ao espírito genuíno das pessoas, há ali uma alma que conquista todos os que chegam.


TAP, o nosso abraço ao mundo

Entre as distinções, a TAP Air Portugal foi também premiada como Melhor Companhia Aérea para África e para a América do Sul. Num tempo em que viajar é tão mais do que deslocar-se, este reconhecimento coloca-nos novamente no mapa das grandes ligações globais e dá-nos aquela certeza de que continuamos a ser ponte entre continentes, culturas e histórias.

 

Detalhes que contam e elevam Portugal

Houve ainda prémios que me deixaram particularmente sensibilizado.
Ver os Passadiços do Paiva distinguidos como Melhor Atração de Turismo de Aventura do Mundo faz-me recordar como conseguimos transformar natureza em experiência.
O Dark Sky Alqueva, reconhecido como Melhor Projeto de Turismo Responsável, reforça que sabemos cuidar daquilo que é nosso e que a sustentabilidade, em Portugal, não é moda, é visão. E claro, os Parques de Sintra – Monte da Lua, premiados como Melhor Empresa de Conservação, uma prova de que preservamos o nosso património com a mesma dedicação com que o celebramos.


Novo motivo para celebrar: Portugal conquista oito prémios nos World Tourism Film Awards

E quando pensamos que Portugal não podia brilhar mais, chega outra notícia que me deixou verdadeiramente orgulhoso: nos World Tourism Film Awards 2025, fomos o país mais premiado, arrecadando oito distinções, numa edição que, pela primeira vez, aconteceu em solo nacional, na belíssima cidade de Guimarães. Há algo de profundamente simbólico neste reconhecimento.

Se os prémios de turismo celebram os nossos destinos, estes distinguem a forma como contamos as nossas histórias ao mundo e isso toca-me de uma forma especial.
Ver Portugal a ser reconhecido pela qualidade e impacto dos seus filmes turísticos é perceber que conseguimos transformar emoção em narrativa, paisagem em cinema, identidade em mensagem universal. Estes prémios provam que não só temos lugares extraordinários, como sabemos comunicá-los com sensibilidade, criatividade e um sentido estético que nos coloca, cada vez mais, no mapa internacional do storytelling turístico. É, por isso, mais um motivo de orgulho, mais um capítulo belo nesta história de sucesso que o nosso país está a escrever.

 

O que tudo isto significa e o que me faz sentir

Ao ver Portugal ser celebrado desta forma, percebo que não é apenas o turismo que está a ser premiado, é a nossa identidade. Somos um país de luz, de maresia, de colinas e ilhas sublimes, sim. Mas somos, acima de tudo, um país de pessoas que sabem receber, criar, inovar e inspirar.

Estes 12 prémios, somados às oito distinções em cinema turístico. não são só conquistas; são histórias. São lugares onde já estive e que guardo comigo. São memórias que me lembram porque é tão fácil apaixonarmo-nos por Portugal e porque é tão difícil largá-lo.

E enquanto escrevo este texto, sinto que cada conquista é também uma celebração de quem somos. Porque quando o mundo inteiro nos olha assim, com admiração, aquilo que realmente se eleva é a nossa essência: autêntica, calorosa, resiliente e profundamente bela. Portugal voltou a brilhar. E eu, certamente, brilharei com ele.

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O ano de 2025 marca mais uma volta de reciclagem criativa para Madonna. Longe de entregar apenas nostalgia, a “Rainha da Pop” oferece-nos releituras conceituais, arquivos redescobertos e uma nova perspetiva sobre fases decisivas da sua carreira. Três lançamentos: “Veronica Electronica”, “Confessions on a Dance Floor (Twenty Years Edition)” e, mais recentemente, “Bedtime Stories: The Untold Chapter”, reavivaram o ano com elegância e consistência, convidando fãs novos e antigos, como eu, a revisitar (ou descobrir) camadas menos exploradas da discografia da artista.


Veronica Electronica — o nascimento tardio de um alter ego

 

“Veronica Electronica” nasceu no fim dos anos 90, como um projeto complementar ao álbum “Ray of Light” (1998), mas foi engavetado na altura. Em 2025, esse mistério finalmente vê a luz do dia. O álbum de remixes, lançado a 25 de julho, reúne versões raras e inéditas de faixas da era “Ray of Light*”, feitas por produtores como William Orbit, Peter Rauhofer, Sasha, BT e Victor Calderone, e inclui também a versão oficial de “Gone Gone Gone”, uma demo esquecida de 1997.

 

Para quem, como eu, viveu a explosão espiritual e eletrónica de “Ray of Light”, este álbum é quase um documento arqueológico da alquimia sonora de Madonna: beats eletrónicos, ambiências dream-pop / trip-hop, e uma voz distante, etérea, a emergir de um espaço sonoro de transição e reinvenção. “Veronica Electronica” não é um mero exercício de nostalgia, mas uma reinterpretação madura de uma era fundamental.

 


 

Confessions on a Dance Floor — duas décadas depois, a pista continua viva

 

Em 2025, celebra-se o 20.º aniversário de “Confessions on a Dance Floor”, um dos discos mais emblemáticos de Madonna e da pop/dance contemporânea. A edição comemorativa, “Twenty Years Edition”, relembra por que motivo este álbum se tornou um marco: um convite irresistível à pista de dança, com batidas pulsantes, energia contagiante e uma renovada vitalidade pop.

 

Para os fãs (como eu) que dançaram com “Hung Up”, “Sorry” ou “Jump”, esta edição funciona como cápsula do tempo e, ao mesmo tempo, como prova de que a música de Madonna continua a ressoar no presente. Mais do que reviver, é reafirmar: Madonna não é apenas legado, é atualidade.



Bedtime Stories: The Untold Chapter — segredos revelados e intimidade restaurada

 

Talvez a mais surpreendente das novidades de 2025 seja o EP “Bedtime Stories: The Untold Chapter”, lançado em 28 de novembro para assinalar os 30 anos de “Bedtime Stories” (1994). Mas este não é um simples relançamento: trata-se de “um novo capítulo”, com demos inéditas, versões alternativas e raridades que documentam o processo criativo da época, muitas delas arquivadas pela gravadora até agora.

 

Produzido com o contributo de Stuart Price, já associado ao trabalho dance de Madonna em “Confessions”, este EP oferece uma visão mais íntima, quase crua, de uma fase em que Madonna se afastava da polémica de “Erotica” para mergulhar numa sonoridade mais suave, R&B-influenciada, mas ainda carregada de estilo e emoção. A arte da capa recupera fotografias inéditas de 1994, reforçando a ideia de redescoberta e celebração de um passado que parecia esquecido.

 

Para os que sempre defenderam “Bedtime Stories” como um dos discos mais subestimados da artista, “The Untold Chapter” é um presente e um convite a revisitar essa Madonna sensível, vulnerável, criativa.

 


 

Por que 2025 é um ano especial na discografia de Madonna

 

2025 não foi apenas um ano de relançamentos; foi também um ano de pistas, sinais e promessas. A recuperação de três capítulos fundamentais da carreira de Madonna coincidiu com uma energia criativa renovada e com o anúncio, ainda nas entrelinhas, de um novo ciclo no horizonte.

 

Há mais de um ano que Madonna está em estúdio com Stuart Price, o arquitecto sonoro de “Confessions on a Dance Floor” e um dos produtores que melhor compreende o ADN rítmico e melódico da cantora. A parceria, confirmada por ambos ao longo de 2024 e 2025, deu origem à notícia que incendiou a fandom: Madonna prepara para 2026 um álbum novo, descrito informalmente como uma “espécie de Confessions on a Dance Floor – Part II”.

 

Não se trata de regressar ao passado, Madonna nunca funcionou assim, mas de revisitar a pista de dança com novas ferramentas, novas histórias e um novo corpo emocional. É a celebração da luz, do trabalho, do hedonismo e da reinvenção permanente, aquilo que sempre fez parte da sua linguagem artística.

 

Por isso 2025 tem sido tão simbólico: enquanto celebramos as eras que moldaram a música pop, pressentimos também o renascimento de uma Madonna futurista, energética, novamente pronta para incendiar pistas e redefinir géneros. O passado foi polido, restaurado e devolvido, mas o futuro já está a vibrar no subsolo das novas sessões de estúdio.

 

Para mim, enquanto fã confesso, 2025 revelou-se um ano de redescobertas apaixonantes. “Veronica Electronica” trouxe de volta a magia eletrónica dos anos 90 com nova urgência. A edição de “Confessions on a Dance Floor” provou que a pista de dança ainda pulsa. E “The Untold Chapter” devolveu a intimidade, o mistério e a criatividade de uma Madonna corajosa, a mesma que transformou baladas em hinos e dance-floors em santuários pop. E embora qualquer novo lançamento da Madonna seja sempre motivo de entusiasmo, é impossível não sentir que estamos a viver um momento de inflexão: um ano que honra os alicerces e prepara a explosão criativa que aí vem.

 


Madonna e a pista de dança: como a Rainha da Pop moldou o futuro da música eletrónica

 

E tudo isto leva-me também a esta reflexão. Há artistas que seguem tendências, outros que as reinterpretam, e depois há Madonna, que as dobra, torce e transforma em algo absolutamente seu. Quem me lê aqui no Liberio's Leisures sabe que sempre fui fã, desde adolescente, do seu universo mutável, eletrificado e, tantas vezes, provocador. Por isso, quando me deparei com o artigo da Billboard sobre as sete formas como Madonna mudou a música dance, senti que era o momento perfeito para refletir sobre o impacto colossal que ela teve (e continua a ter) na cultura de pista de dança e, claro, partilhar convosco.

 

Porque sim, falamos da artista pop mais influente de sempre… mas também de uma das arquitetas invisíveis da música eletrónica tal como a conhecemos hoje.

 

A reinvenção que nos puxou para a pista

 

Ao longo dos anos, Madonna fez muito mais do que lançar êxitos: redefiniu a estética e o som da pop, incorporando elementos de house, techno, disco revivalista, trance e até influências orientais, místicas e espirituais.

 

Quando "Ray of Light" (1998) explodiu, lembro-me perfeitamente da sensação de ouvir algo novo. Não era só pop. Era um mergulho eletrónico, quase transcendental, com William Orbit a orquestrar uma nova Madonna, luminosa, etérea e futurista. Para mim, foi ali que ela deixou claro que não tinha medo de romper fronteiras. O álbum foi praticamente um convite para abrirmos a mente e deixarmo-nos levar por uma nova linguagem da pista de dança.

 

A madrinha dos remixes (e de quem vive da noite)

 

A Billboard sublinha o que qualquer pessoa que goste verdadeiramente de música de dança sabe: Madonna abriu portas. Antes dela, os remixes eram um apêndice curioso; com ela, tornaram-se peças de culto.

 

Quantas noites de Lisboa, Barcelona ou Nova Iorque não foram embaladas por versões club de “Erotica”, “Deeper and Deeper”, “Vogue” ou “Nothing Really Matters”?

E, sejamos honestos, quem nunca se perdeu no remix de “Hung Up” que atira ABBA diretamente para o futuro?

 

A colaboração com produtores como Shep Pettibone, Stuart Price ou Orbit ajudou a legitimar a relação entre o mainstream e o underground. E, de certa forma, democratizou a pista de dança: Madonna trouxe a cultura clubbing para o centro da pop e, com ela, trouxe também liberdade, hedonismo, expressão de género, sexualidade e identidade.

 

Para muita gente (eu incluído), a pista de dança tornou-se um lugar onde se podia ser sem pedir licença. Madonna entendeu isso muito antes do mundo.

 

A pop eletrónica como luxo sensorial

 

Se lermos esta evolução sob uma lente mais contemporânea, essa mesma que me acompanha nos artigos de lifestyle de luxo, percebemos que Madonna criou um universo imersivo antes de isso ser “experiência premium”.

 

As tours transformaram-se em espetáculos de luz, projeção, neons, LED e energia cinética. O álbum “Confessions on a Dance Floor” (2005), com Stuart Price, no comando da produção é um caso perfeito: uma viagem contínua, sem pausas, como se fosse uma noite inteira condensada num só disco. Até hoje, para mim, é um dos álbuns mais perfeitos da história da pista de dança: elegante, contínuo, pensado milimetricamente.

 

Momentos que mudaram o jogo

 

Entre dezenas de temas que se poderiam citar, deixo três que, pessoalmente, representam esta metamorfose:

 

- “Ray of Light” (1998)

Uma catarse. Uma explosão eletrónica que mostrou ao mundo que a espiritualidade podia conviver com o techno. Sempre que oiço, sinto que estou a voar.

 

- “Music” (2000)

Aquele drop inicial lembra-nos porque o cowgirl cyber-pop se tornou tendência. Madonna dizia que a música nos unia e tinha razão.

 

- “Hung Up” (2005)

O casamento improvável que se tornou icónico: ABBA + disco + house + glitter + atitude. É impossível não dançar.



O impacto que não abranda

 

Passaram décadas, estilos, modas, plataformas. E, ainda assim, o ADN de Madonna continua presente em tudo: na pop hiper eletrónica, nas divas que apostam no tecno, nos remixes que se tornaram essenciais, no renascimento do disco sound… e na forma como a pista se assumiu como espaço cultural, e não apenas recreativo.

 

Ser fã de Madonna é isto: assistir à história a ser escrita em tempo real.

E é também reconhecer que, sem ela, a cultura da noite, e a música eletrónica, não seriam o que são hoje.

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Há filmes que chegam para cumprir uma promessa e outros que chegam para a ultrapassar. Para mim, “Wicked: Pelo Bem” pertence claramente à segunda categoria. Se a primeira parte já me tinha deixado rendido ao universo renovado de Oz, este segundo capítulo agarrou-me pela emoção, pela grandiosidade e, sobretudo, pelo modo como celebra duas mulheres que, juntas, são pura força transformadora. Saí do cinema a pensar: “é por isto que adoro musicais”.



A luz, a sombra e tudo o que existe entre as duas

 

Cynthia Erivo e Ariana Grande são, sem exagero, um acontecimento. A química entre ambas é daquelas que não se força, sente-se. Erivo, com aquela presença intensa e uma voz que arrepia, dá a Elphaba uma dignidade que transcende a personagem; Ariana, por sua vez, surpreende ao encarnar uma Glinda que não é só brilho, mas também fragilidade, crescimento e coragem. Sempre que as duas partilham o ecrã, tudo o resto desaparece. E confesso: houve momentos musicais em que senti o coração a bater mais depressa, como quando um musical em grande escala atinge aquela nota emocional perfeita.

 

O filme é um regalo visual. Há cenários que parecem pinturas, figurinos que poderiam muito bem sair de um editorial de alta-costura, e uma direção artística que abraça o “teatral” de forma intencional, elegante e arrebatadora. Percebe-se que houve um cuidado extremo em manter o espírito do musical original, mas também em modernizá-lo, torná-lo mais acessível, mais cinematográfico, mais… mágico.

 

 

E depois há a mensagem, tão mais adulta do que muitos imaginam. A forma como se fala de poder, de verdade manipulada, de como a sociedade escolhe quem idolatra e quem demoniza, é surpreendentemente atual. Elphaba continua a ser o espelho de todos aqueles que nunca se encaixaram, e Glinda representa o conforto sedutor de ser sempre “a boa”, mesmo quando isso exige silêncio. Esta dualidade dá ao filme uma profundidade que não vi discutida o suficiente e que, para mim, é uma das suas grandes forças.

 

 

O impacto de um final que fica connosco

 

Tenho lido várias críticas que apontam falhas ou desequilíbrios, mas, honestamente, para mim isso quase não importa, ou melhor, importa menos do que a sensação que levei comigo. Sim, talvez o foco narrativo oscile mais para a Glinda, talvez certas passagens se estendam um pouco, mas nada disso me tirou do encantamento. Pelo contrário: senti que o filme me deu exatamente aquilo que precisava: emoção, espetáculo, entrega e um desfecho que honra tudo o que veio antes.

 


Quando os últimos acordes soaram, percebi que estava ali a assistir não só ao fim de uma história, mas ao culminar de uma amizade que marcou o cinema recente. Saí a pensar em como ambos os filmes falam sobre sermos vistos, compreendidos e, acima de tudo, sobre termos o direito de criar o nosso próprio destino. E isso, quando dito através de canções poderosas e duas protagonistas brilhantes, ganha um significado muito especial.

 


No fim de contas, “Wicked: Pelo Bem” não é apenas um musical exuberante; é uma celebração da diferença, da coragem e da escolha de fazer “o bem” mesmo quando o mundo tenta empurrar-nos para o contrário. É a magia de acreditar no impossível. E eu adorei, mesmo. É o tipo de filme que levo comigo, que volto a pensar dias depois, e que me lembra porque é que continuo apaixonado por cinema.

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Há histórias que me deixam sempre maravilhado pela forma improvável como o mundo decide funcionar. A do Guia Michelin é uma delas, e talvez a mais improvável de todas. É delicioso pensar que aquilo que hoje decide carreiras, transforma cidades e mexe com o ego de chefs no mundo inteiro nasceu de uma inquietação muito simples: ninguém conduzia. E, se ninguém conduzia, ninguém gastava pneus.

 

No ano de 1900, havia menos de três mil automóveis em toda a França. A Michelin, que hoje associamos a inovação e estrada, enfrentava um problema quase cómico: como vender algo que ninguém tinha necessidade de substituir? Como lembra um artigo recente da Vogue, os irmãos André e Édouard Michelin perceberam que era preciso “galvanizar os motoristas a desenvolverem as suas viagens e, assim, aumentar as vendas de pneus”. Em vez de esperar que o mercado crescesse sozinho, decidiram criá-lo.

 


O imprevisto que mudou tudo

 

E assim nasceu um pequeno guia vermelho oferecido gratuitamente, pensado para ajudar motoristas a aventurarem-se pelo país. Trazia mapas, oficinas, dicas práticas e, quase como um gesto secundário, sugestões de restaurantes. O objectivo era tão pragmático quanto engenhoso: fazer as pessoas viajar. Quanto mais quilómetros, mais desgaste; quanto mais desgaste, mais pneus; e quanto mais pneus, mais Michelin.

 

Acontece que o que mais cativou os leitores não foram as oficinas nem os postos de combustível. Foram os restaurantes. Era naquela pequena secção que as pessoas dobravam páginas, deixavam notas, faziam debates e procuravam inspiração para uma escapadinha. Era ali, sem os irmãos Michelin se aperceberem, que viria a nascer um novo mundo.

 

 

O nascimento das estrelas

 

Com o passar do tempo, a Michelin percebeu que a gastronomia era mais do que um mero complemento. Em 1926, introduziu as primeiras estrelas. A ideia não tinha nada de glamoroso: era uma simples orientação para viajantes. Uma estrela, valia a paragem; duas, justificava o desvio; três, merecia a viagem inteira. Ainda hoje acho genial a subtileza deste raciocínio: cada estrela era, na verdade, um convite à estrada, um incentivo directo ao consumo do próprio produto da marca.

 

A partir daí, o Guia Michelin deixou de ser apenas um serviço ao viajante para se transformar numa instituição cultural. A Vogue resume isso de forma perfeita ao dizer que “a palavra do guia é evangelho e as suas estrelas as distinções mais cobiçadas da restauração”. E é impossível negar. Um restaurante que recebe uma estrela muda de vida. Dois, eleva-se. Três, entra na eternidade. E a pressão, essa, é tão intensa quanto o brilho.

 

 

Também gosto da anedota que marcou o momento em que o guia deixou de ser gratuito. André Michelin visitou um dia uma oficina e encontrou exemplares a serem usados como calço para uma mesa. Indignado, disse a frase que mudaria tudo: “o homem só respeita aquilo por que paga”. No ano seguinte, o guia tornou-se pago e o respeito apareceu com ele. O que antes era um folheto prático transformou-se num símbolo de autoridade.

 

Com o tempo, o Guia Michelin criou carreiras, fortaleceu destinos, aumentou o turismo gastronómico e também colocou uma pressão enorme sobre quem vive entre tachos e panelas. Surgiram lendas, episódios de glória e até alguns de renúncia: chefs que devolveram estrelas para recuperarem a liberdade. E, no meio disto tudo, nasceram também os inspetores Michelin, figuras quase míticas que avaliam anonimamente, pagam as próprias refeições e vivem em sigilo. São os agentes secretos da gastronomia, silenciosos e invisíveis, mas determinantes.

 


A explosão global

 

Hoje, o Guia Michelin está presente em dezenas de países, adapta-se, expande-se, inclui street food, celebra sustentabilidade através das estrelas verdes e continua a reescrever a geografia da gastronomia. Onde chega, transforma. Onde atribui estrelas, ilumina. Onde passa, deixa, sem dúvida, um rasto de expectativa.

 

E, ainda assim, não consigo deixar de pensar na ironia original. Porque tudo, absolutamente tudo, começou com uma tentativa de vender pneus. Não é incrível? Um truque de marketing tornou-se a bíblia da gastronomia. Uma necessidade comercial deu origem a um dos maiores símbolos de excelência que existem. Da borracha ao ritual, da estrada ao prato, do pragmatismo ao prestígio.

 

É por isso que esta história me fascina tanto. Lembra-nos que as ideias têm caminhos próprios, muitas vezes mais ambiciosos do que imaginamos. E que a criatividade, especialmente quando nasce de um problema, pode transformar o mundo de forma inesperada.

 

 

Hoje, sempre que entro num restaurante estrelado, penso que estou, de certa forma, a participar na mesma história que começou há mais de um século, com um livrinho vermelho nas mãos de dois irmãos visionários que queriam apenas que conduzíssemos mais. E conduzir, sobretudo quando nos leva a uma boa mesa, continua a ser uma das grandes delícias da vida.

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Há filmes que chegam envolvidos em expectativas, outros em nostalgia, e depois há aqueles que, mesmo antes de os vermos, já carregam o peso de uma discussão maior. “The Running Man”, o remake realizado por Edgar Wright e protagonizado por Glen Powell, pertence claramente à terceira categoria. Não é apenas mais uma adaptação de Stephen King; é um espelho cintilante e desconfortável de tudo aquilo que consumimos hoje, quando o entretenimento se mistura perigosamente com a crueldade e a manipulação.

 

Antes de avançar para o novo filme, vale recordar que esta história já tinha passado pelo cinema em 1987, numa versão muito diferente, com Arnold Schwarzenegger a vestir a pele de Ben Richards. Era um produto típico dos anos 80, cheio de ação estilizada, vilões exagerados e aquele futurismo de neon tão característico da época. Não tinha a sofisticação deste remake, nem a profundidade do romance original, mas deixou a sua marca como um clássico de culto e, curiosamente, já lançava as primeiras pedras da crítica ao espetáculo televisivo e à manipulação mediática. É interessante perceber como aquilo que parecia exagero naquela altura soa hoje quase premonitório.

 


Feito este regresso rápido ao passado, voltemos ao presente. O “The Running Man” de 2025 é uma máquina visual, pulsante, saturada de cor e energia, construída ao milímetro para nos colocar dentro de um futuro onde a audiência manda, as corporações decidem quem vive e quem cai, e a dor humana é convertida em conteúdo televisivo. A estética é frenética, cheia de ecrãs, luzes e ritmos que não deixam quase respirar, e essa é precisamente a intenção. Wright quer que sintamos o peso do espetáculo. Quer que nos vejamos ali. E o resultado surpreende: visualmente poderoso, acelerado, saturado de energia, como se o próprio ecrã estivesse permanentemente a piscar-nos o olho. Um futuro onde a audiência manda, onde a dor é espetáculo e onde a verdade é, no mínimo, maleável. E a sensação que fica é justamente a de que estamos perante algo demasiado próximo da realidade para ser apenas ficção.

 

O Ben Richards de Glen Powell, que tem aqui um dos papeis mais completos da sua carreira, é um protagonista mais vulnerável e mais humano do que o da versão dos anos 80. Aqui, ele é um homem empurrado para o limite: perde o emprego, vê a filha doente, e aceita participar num reality show que transforma seres humanos em caça televisiva. Ou seja, acaba por ser arrastado para um jogo televisivo onde se torna caça num tabuleiro dominado por interesses corporativos. Powell, um herói relutante, moldado tanto pela necessidade, como pela consciência de que o jogo está viciado desde o início, brilha como nunca, alternando entre o humor, a tensão e uma inquietação muito real que puxa a história para um lugar mais emocional.

 

 

A crítica tem sido unânime em destacar a estética vibrante e o ritmo quase implacável que Wright imprime ao filme e não posso deixar de concordar. Todo o universo é construído com uma intenção clara: somos nós, hoje, levados ao extremo. A avalanche de informação, a sensação de que tudo está a ser filmado, editado, manipulado e servido fresco no feed seguinte. Há momentos em que a distopia se dissolve e o que fica é uma impressão inquietante de familiaridade. Ao olhar para aqueles cenários hiperdigitalizados, não pude evitar pensar na forma como, todos os dias, consumimos microversões desta lógica: a indignação, o escândalo, a humilhação, o ódio, a violência subtil, tudo embalado para gerar cliques.

 


Quando o espetáculo engole a verdade

 

Mas o filme não vive apenas das interpretações. A crítica social está lá, explícita, ácida, quase desconfortável: a manipulação da verdade, a fabricação de narrativas falsas, o consumo voraz de sofrimento como entretenimento: tudo é demasiado familiar para nos provocar apenas como ficção. Ao vermos aquelas multidões hipnotizadas por ecrãs e aqueles produtores a moldar a realidade como quem edita um vídeo de TikTok, temos a sensação de que Wright não está a imaginar um futuro… está apenas a ampliar o presente.

 

O lado menos conseguido talvez seja o final, que aposta mais no espetáculo do que numa reflexão mais íntima. Sente-se, por momentos, que o filme quer dizer demasiado, demasiado depressa, e com tanto fulgor que parte da mensagem se perde um pouco no ruído. Ainda assim, o impacto não se dilui. Continua a ser uma obra que provoca, que se instala no pensamento e que nos acompanha depois de sairmos da sala.

 


No conjunto, “The Running Man” é um filme que não deixa ninguém indiferente. Pode não ser perfeito, mas é certeiro. Faz pensar sem abdicar do ritmo, diverte enquanto provoca, e obriga-nos a encarar a forma como consumimos imagens, e como elas, muitas vezes, nos consomem de volta. Saí da sala com aquela sensação agridoce de quem sabe que viu algo atual, urgente e estranhamente próximo. E é por isso que o recomendo: não só como entretenimento, mas como uma reflexão embrulhada em ação e crítica mordaz. Talvez seja esse o verdadeiro mérito do filme: a capacidade de nos acompanhar para lá dos créditos finais.

 

Se gostam de cinema que nos faz olhar de lado para o nosso próprio mundo, então este vale claramente a ida ao cinema. Mesmo que seja apenas para perceber até que ponto estamos dispostos a ser espectadores... ou cúmplices.

 

Na antestreia do filme, com a minha amiga Cidália (NOS Colombo - Sala Imax)

 

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