A madrugada de domingo, 11 de janeiro, trouxe-nos mais do que a habitual sucessão de discursos, vestidos e estatuetas douradas. Os Golden Globe Awards de 2026 foram, acima de tudo, uma cerimónia de afirmação: de narrativas mais densas, de interpretações que não pedem licença e de um cinema cada vez mais atento ao mundo real, mesmo quando se refugia na ficção.

 

Desde cedo ficou claro que “Hamnet” seria um dos grandes títulos da noite. O filme, inspirado na obra de Maggie O’Farrell, confirmou o favoritismo ao conquistar o Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama, impondo-se pela sua delicadeza emocional e pela forma como transforma a dor íntima numa experiência cinematográfica universal. Jessie Buckley, absolutamente magnética, foi distinguida como Melhor Actriz em Drama, numa interpretação que fica connosco muito depois de o ecrã se apagar.

 

Mas se “Hamnet” trouxe o lado mais contemplativo da noite, “One Battle After Another”, de Paul Thomas Anderson, fez-se ouvir com força. O filme venceu na categoria de Melhor Filme – Musical ou Comédia e acumulou prémios-chave, incluindo Melhor Realização e Melhor Argumento, confirmando Anderson como um dos autores mais consistentes e inquietos do cinema contemporâneo.

 

Wagner Moura

Entre os momentos verdadeiramente históricos da noite, houve um que se destacou de forma especial e que merece ser sublinhado sem reservas. Wagner Moura venceu o Globo de Ouro de Melhor Actor em Filme Dramático por “The Secret Agent”, tornando-se o primeiro actor brasileiro a conquistar este prémio nesta categoria. Depois de, no ano passado, Fernanda Torres ter vencido o Globo de Ouro de Melhor Actriz em Filme – Musical ou Comédia, o Brasil afirma-se agora com ainda mais força em Hollywood.

 

A vitória de Wagner Moura ultrapassa largamente o mérito individual, que é imenso, e representa um reconhecimento tardio, mas decisivo, da vitalidade do cinema falado noutras línguas e de percursos artísticos que não seguem o caminho mais óbvio, nem mais confortável dentro da indústria americana. O seu discurso, contido e elegante, foi, justamente, um dos momentos mais aplaudidos e simbólicos de toda a cerimónia.

 

Nikki Glaser

A gala, conduzida novamente por Nikki Glaser, teve um tom mais solto e auto-consciente, com humor afiado e algumas provocações que dividiram opiniões, como deve acontecer numa noite destas. Houve espaço para discursos emotivos, para recados políticos subtis e para aquela sensação de que os Globes continuam a ser um termómetro imperfeito, mas revelador, do que aí vem na corrida aos Oscars.

 

Glen Powell

Hudson Williams

Chris Pine

Alicia Silverstone

Jennifer Lopez

Jennifer Lawrence

Kate Hudson
 

No tapete vermelho, a moda voltou a ser um espetáculo à parte. Silhuetas clássicas reinventadas, escolhas mais ousadas e uma beleza menos rígida, mais etérea, dominaram a noite. Não se tratou apenas de “quem vestiu quem”, mas de uma afirmação clara de estilo pessoal, longe do excesso e mais próxima da identidade. Uma tendência que tem vindo a consolidar-se nos grandes eventos internacionais.

 

Sarah Jessica Parker
 

No final, os Golden Globes 2026 deixaram essa sensação rara: a de uma cerimónia que, para lá do brilho, soube refletir o momento cultural que vivemos. Um cinema mais plural, uma televisão cada vez mais ambiciosa e artistas que não têm medo de ocupar espaço com histórias relevantes. E porque no meu blog gosto sempre de fechar o círculo, aqui fica o palmarés completo da edição deste ano:

 

Palmarés Golden Globes 2026

Timothée Chalamet

Cinema

Melhor Filme – Drama: “Hamnet”

Melhor Filme – Musical ou Comédia: “One Battle After Another”

Melhor Realização: Paul Thomas Anderson – “One Battle After Another”

Melhor Argumento: “One Battle After Another”

 


Melhor Actriz – Drama: Jessie Buckley – “Hamnet”

Melhor Actor – Drama: Wagner Moura – “The Secret Agent”

 

Rose Byrne

Melhor Actriz – Musical ou Comédia: Rose Byrne - “If I Had Legs, I’d Kick You”

Melhor Actor – Musical ou Comédia: Timothée Chalamet – “Marty Supreme”

Melhor Actriz Secundária: Teyana Taylor – “One Battle After Another”

Melhor Actor Secundário: Stellan Skarsgard - “Sentimental Value”

Melhor Filme de Animação: “KPop Demon Hunters”

 


KPop Demon Hunters

Televisão

Melhor Série – Drama: “The Pitt”

Melhor Série – Musical ou Comédia: “The Studio”

Melhor Minissérie ou Telefilme: “Adolescence”

Melhor Actriz em Série Dramática: Rhea Seehorn - “Pluribus”

Melhor Actor em Série Dramática: Noah Wyle - “The Pitt”

Melhor Actriz em Série Musical ou Comédia: Jean Smart - “Hacks”

Melhor Actor em Série Musical ou Comédia: Seth Rogen - “The Studio”

Melhor Actriz Secundária em Televisão: Erin Doherty - “Adolescence”

Melhor Actor em Série ou Filme em Televisão: Stephen Graham - “Adolescence”

Melhor Actor Secundário em Televisão: Owen Cooper - “Adolescence”



Prémios Honorários

Prémio Cecil B. DeMille: Helen Mirren

Prémio Carol Burnett: Sarah Jessica Parker

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Há filmes que nos fazem sorrir, cantarolar e sentir tudo ao mesmo tempo. “Song Sung Blue” é, para mim, uma dessas raras experiências cinematográficas que mistura drama, música e amor de uma forma deliciosamente inesperada. Fui à sua antestreia e aconselho vivamente.

 

Estreado no início de 2026, já em exibição nos nossos cinemas, “Song Sung Blue” é uma história baseada em factos reais: a vida do casal Mike e Claire Sardina, dois músicos de Milwaukee que decidiram formar uma banda de tributo a Neil Diamond chamada Lightning & Thunder. Este filme conquistou-me também pela verdade emocional que nasce de uma história real, simples e profundamente humana.

 

 

Inspirado na vida de um casal anónimo da classe trabalhadora americana, o filme parte de um ponto que, à partida, parece modesto: dois adultos comuns, com empregos instáveis, sonhos adiados e uma paixão partilhada pela música de Neil Diamond. Nada de palcos gigantes, nada de fama instantânea. Apenas a vontade, quase teimosa, de continuar a cantar juntos, a mostrar que nem todas as histórias de amor e de música precisam de grandes palcos para serem grandiosas...

 

Porque esta história existiu mesmo. Mike e Claire Sardina (nomes reais) formaram mesmo uma banda de tributo a Neil Diamond, actuando em bares, festas locais e pequenos eventos, encontrando na música não um atalho para a glória, mas uma forma de sobrevivência emocional. Antes de ser ficção, “Song Sung Blue” foi um documentário (o filme é uma adaptação do documentário homónimo de 2008), e tal sente-se. Sente-se na forma como o filme recusa o glamour fácil e prefere mostrar as rotinas, as frustrações, os acidentes de percurso e as pequenas vitórias que raramente chegam ao cinema.

 

 

E o que torna este filme tão especial? Primeiro, as interpretações de Hugh Jackman e Kate Hudson. A química entre eles é admirável: Jackman encarna Mike com coração de showman e vulnerabilidade, e Hudson é simplesmente radiante como Claire, trazendo uma honestidade emocional à personagem que é difícil de ignorar. Não é apenas a forma como cantam, pois, ambos os actores fazem parte da performance musical com uma entrega total, mas também o modo como carregam a narrativa nas costas.

 

 

Musicalmente, “Song Sung Blue” é uma celebração genuína das canções de Neil Diamond, que funcionam aqui como banda sonora emocional e narrativa. São momentos de “Sweet Caroline” e outros clássicos que nos lembram porque a música tem o poder de unir, levantar e emocionar, mesmo quando estamos a ver duas personagens às voltas com situações humildes, longe dos grandes holofotes. O ritmo da história oscila entre o doce e o agridoce. Por um lado, é um romance musical que nos conforta; por outro, explora choques e dificuldades reais: acidentes, frustrações, vidas que nem sempre correm como planeado e esse equilíbrio faz com que o filme ressoe profundamente com quem já viveu altos e baixos da vida real.

 

 

No entanto, como toda a grande obra, “Song Sung Blue” também divide opiniões. Há quem critique o filme por ser demasiado sentimental. Talvez seja. Mas, para mim, isso faz parte da sua honestidade. A vida real também é assim: imperfeita, repetitiva, por vezes melodramática e, ainda assim, cheia de momentos de uma beleza inesperada. “Song Sung Blue” não tenta transformar uma história comum num conto de fadas. Limita-se a dizer-nos que a dignidade das vidas anónimas merece ser celebrada e realça que estamos perante uma história muito humana, que sabe exatamente que emoções quer provocar.

 

 

É essa capacidade de nos fazer sentir como se estivéssemos numa pequena sala, a cantarolar com uma banda de tributo em Milwaukee, que torna “Song Sung Blue” tão memorável. É um filme sobre amor, música, segundas hipóteses e sobre como, mesmo nas vidas mais aparentemente comuns, há espaço para momentos extraordinários. Saí do cinema com a sensação rara de ter visto algo verdadeiro. Um filme que não acelera, não força. Apenas canta, baixinho, mas com convicção. E talvez seja isso que o torna tão especial: lembrar-nos que, mesmo longe dos holofotes, há histórias reais que merecem ser ouvidas. Se ainda não o viste, recomendo vivamente que o faças e, se fores como eu, provavelmente vais sair da sala a cantar o refrão de “Sweet Caroline” enquanto pensas nos teus próprios sonhos, grandes e pequenos.

 


 

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Engraçado... ontem, fui ao Ikea e percebi que as lâmpadas LED podem ser “branco quente”, “branco frio”, etc., ou seja, existem diferentes nuances de branco. Chego a casa e procuro pela cor Pantone para 2026 e descubro que se trata, também, de um certo
tipo de branco. Curioso, não?

 

Desde 1999 que a Pantone nos tem vindo a presentear, todos os anos, com uma cor que pretende captar e até antecipar o espírito cultural, social e criativo que vai marcar os meses seguintes. Para 2026, a escolha é audaciosa e, para muitos, inesperada: “Cloud Dancer” (PANTONE 11-4201). Este tom de branco etéreo e leve foi eleito Color of the Year pela primeira vez na história desta iniciativa.

 

Ao contrário das cores vibrantes ou profundamente pigmentadas que dominaram os anos anteriores: tome-se em consideração os mais recentes “Peach Fuzz”, “Mocha Mousse” ou “Viva Magenta”, este branco suave parece quase paradoxal como cor-símbolo. Mas é justamente aqui que reside a sua força e relevância. Segundo o Pantone Color Institute, “Cloud Dancer” não é apenas uma cor, mas uma declaração de simplicidade, tranquilidade e foco num mundo saturado de estímulos e ruído digital.

 

“Cloud Dancer” representa, assim, uma espécie de “tela em branco” emocional e criativa, um convite ao recomeço. Num momento em que a sociedade luta por atenção significativa, presença mental e um certo “reset” interior, esta tonalidade funciona como uma pausa e um sopro de serenidade. A ideia não é apenas estética: é profundamente simbólica. A escolha sugere que, no limiar de 2026, procuramos claridade, calma e espaço para respirar, para pensar e para imaginar.

O uso de um branco tão delicado vai muito além de decoração ou moda: trata-se de uma tendência cultural que ultrapassa fronteiras: desde ambientes interiores minimalistas a coleções de moda que privilegiam silhuetas “clean”, ou mesmo espaços de trabalho onde o excesso visual dá lugar à concentração e à criatividade pura.

 


Naturalmente, a escolha também gerou debate (gera sempre). Há quem veja a opção por um tom neutro como demasiado discreta, até “sem cor”, num mundo que continua a enfrentar desafios sociais, políticos e culturais complexos. Para alguns críticos, a elevação de um branco tão neutro levanta questões simbólicas e críticas sobre o papel da cor como forma de expressão cultural.

 

Mas talvez esteja aqui a grande subtilidade de “Cloud Dancer”: não gritar, mas “sussurrar”, convidar à reflexão e abrir espaço para que outras vozes e outras cores encontrem o seu lugar. É um desafio à saturação permanente, um gesto de pausa num ecossistema visual que, por vezes, nos cega mais do que nos esclarece.

 

No fundo, a Cor do Ano Pantone 2026 não é só uma tendência cromática, é um espelho do momento que vivemos e, talvez acima de tudo, um convite a olhar para o ano que vem com menos ruído e mais intenção. E, sendo este o meu último post de 2025, desejo a todos os que me seguem e me lêem, um feliz e muito prospero 2026!

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Nos últimos dias, dei por mim a ler, e reler, a notícia dos resultados dos World Travel Awards 2025, esses que muitos chamam os “Óscares do turismo”. E confesso: senti aquele aperto bom no peito, uma mistura de orgulho e admiração, ao saber que Portugal subiu 12 vezes ao palco da gala global no Bahrain. Doze vezes! Doze motivos para celebrarmos quem somos e aquilo que construímos enquanto destino turístico de excelência. Um deles e dos mais importantes, Portugal foi eleito o Melhor Destino da Europa 2025 (Europe's Leading Destination 2025). É fascinante como um país tão pequeno em território consegue ser tão grande no mundo. Tal como no passado e em outras circunstâncias. E estas distinções provam exatamente isso.


Algarve: onde o mundo inteiro confirma o que já sabemos

Uma das notícias que mais se destacou foi ver o Algarve novamente coroado como Melhor Destino de Praia do Mundo. Cada vez que regresso ao Algarve, aos pores-do-sol quente, às falésias que parecem pintar o horizonte, ao ritmo tranquilo das marés, percebo que não há prémio que faça realmente justiça à beleza daquela região. Mas é maravilhoso vê-la reconhecida internacionalmente.

E não ficou por aqui: hotéis como o Vila Joya, o Domes Lake Algarve e o Dunas Douradas Beach Club também foram distinguidos. Luxo, hospitalidade, serviço, tudo aquilo que compõe a verdadeira arte de bem receber, o que nós fazemos com uma naturalidade quase genética.

 

Madeira: o encanto eterno que o mundo insiste em aplaudir

Outro destaque foi a distinção da Madeira como Melhor Destino Insular do Mundo, pela 11ª vez consecutiva. A Madeira não é apenas um destino bonito; é um pedaço de magia suspenso no Atlântico, onde a natureza nos lembra constantemente do que é sublime. Das levadas aos miradouros, da hospitalidade ao espírito genuíno das pessoas, há ali uma alma que conquista todos os que chegam.


TAP, o nosso abraço ao mundo

Entre as distinções, a TAP Air Portugal foi também premiada como Melhor Companhia Aérea para África e para a América do Sul. Num tempo em que viajar é tão mais do que deslocar-se, este reconhecimento coloca-nos novamente no mapa das grandes ligações globais e dá-nos aquela certeza de que continuamos a ser ponte entre continentes, culturas e histórias.

 

Detalhes que contam e elevam Portugal

Houve ainda prémios que me deixaram particularmente sensibilizado.
Ver os Passadiços do Paiva distinguidos como Melhor Atração de Turismo de Aventura do Mundo faz-me recordar como conseguimos transformar natureza em experiência.
O Dark Sky Alqueva, reconhecido como Melhor Projeto de Turismo Responsável, reforça que sabemos cuidar daquilo que é nosso e que a sustentabilidade, em Portugal, não é moda, é visão. E claro, os Parques de Sintra – Monte da Lua, premiados como Melhor Empresa de Conservação, uma prova de que preservamos o nosso património com a mesma dedicação com que o celebramos.


Novo motivo para celebrar: Portugal conquista oito prémios nos World Tourism Film Awards

E quando pensamos que Portugal não podia brilhar mais, chega outra notícia que me deixou verdadeiramente orgulhoso: nos World Tourism Film Awards 2025, fomos o país mais premiado, arrecadando oito distinções, numa edição que, pela primeira vez, aconteceu em solo nacional, na belíssima cidade de Guimarães. Há algo de profundamente simbólico neste reconhecimento.

Se os prémios de turismo celebram os nossos destinos, estes distinguem a forma como contamos as nossas histórias ao mundo e isso toca-me de uma forma especial.
Ver Portugal a ser reconhecido pela qualidade e impacto dos seus filmes turísticos é perceber que conseguimos transformar emoção em narrativa, paisagem em cinema, identidade em mensagem universal. Estes prémios provam que não só temos lugares extraordinários, como sabemos comunicá-los com sensibilidade, criatividade e um sentido estético que nos coloca, cada vez mais, no mapa internacional do storytelling turístico. É, por isso, mais um motivo de orgulho, mais um capítulo belo nesta história de sucesso que o nosso país está a escrever.

 

O que tudo isto significa e o que me faz sentir

Ao ver Portugal ser celebrado desta forma, percebo que não é apenas o turismo que está a ser premiado, é a nossa identidade. Somos um país de luz, de maresia, de colinas e ilhas sublimes, sim. Mas somos, acima de tudo, um país de pessoas que sabem receber, criar, inovar e inspirar.

Estes 12 prémios, somados às oito distinções em cinema turístico. não são só conquistas; são histórias. São lugares onde já estive e que guardo comigo. São memórias que me lembram porque é tão fácil apaixonarmo-nos por Portugal e porque é tão difícil largá-lo.

E enquanto escrevo este texto, sinto que cada conquista é também uma celebração de quem somos. Porque quando o mundo inteiro nos olha assim, com admiração, aquilo que realmente se eleva é a nossa essência: autêntica, calorosa, resiliente e profundamente bela. Portugal voltou a brilhar. E eu, certamente, brilharei com ele.

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O ano de 2025 marca mais uma volta de reciclagem criativa para Madonna. Longe de entregar apenas nostalgia, a “Rainha da Pop” oferece-nos releituras conceituais, arquivos redescobertos e uma nova perspetiva sobre fases decisivas da sua carreira. Três lançamentos: “Veronica Electronica”, “Confessions on a Dance Floor (Twenty Years Edition)” e, mais recentemente, “Bedtime Stories: The Untold Chapter”, reavivaram o ano com elegância e consistência, convidando fãs novos e antigos, como eu, a revisitar (ou descobrir) camadas menos exploradas da discografia da artista.


Veronica Electronica — o nascimento tardio de um alter ego

 

“Veronica Electronica” nasceu no fim dos anos 90, como um projeto complementar ao álbum “Ray of Light” (1998), mas foi engavetado na altura. Em 2025, esse mistério finalmente vê a luz do dia. O álbum de remixes, lançado a 25 de julho, reúne versões raras e inéditas de faixas da era “Ray of Light*”, feitas por produtores como William Orbit, Peter Rauhofer, Sasha, BT e Victor Calderone, e inclui também a versão oficial de “Gone Gone Gone”, uma demo esquecida de 1997.

 

Para quem, como eu, viveu a explosão espiritual e eletrónica de “Ray of Light”, este álbum é quase um documento arqueológico da alquimia sonora de Madonna: beats eletrónicos, ambiências dream-pop / trip-hop, e uma voz distante, etérea, a emergir de um espaço sonoro de transição e reinvenção. “Veronica Electronica” não é um mero exercício de nostalgia, mas uma reinterpretação madura de uma era fundamental.

 


 

Confessions on a Dance Floor — duas décadas depois, a pista continua viva

 

Em 2025, celebra-se o 20.º aniversário de “Confessions on a Dance Floor”, um dos discos mais emblemáticos de Madonna e da pop/dance contemporânea. A edição comemorativa, “Twenty Years Edition”, relembra por que motivo este álbum se tornou um marco: um convite irresistível à pista de dança, com batidas pulsantes, energia contagiante e uma renovada vitalidade pop.

 

Para os fãs (como eu) que dançaram com “Hung Up”, “Sorry” ou “Jump”, esta edição funciona como cápsula do tempo e, ao mesmo tempo, como prova de que a música de Madonna continua a ressoar no presente. Mais do que reviver, é reafirmar: Madonna não é apenas legado, é atualidade.



Bedtime Stories: The Untold Chapter — segredos revelados e intimidade restaurada

 

Talvez a mais surpreendente das novidades de 2025 seja o EP “Bedtime Stories: The Untold Chapter”, lançado em 28 de novembro para assinalar os 30 anos de “Bedtime Stories” (1994). Mas este não é um simples relançamento: trata-se de “um novo capítulo”, com demos inéditas, versões alternativas e raridades que documentam o processo criativo da época, muitas delas arquivadas pela gravadora até agora.

 

Produzido com o contributo de Stuart Price, já associado ao trabalho dance de Madonna em “Confessions”, este EP oferece uma visão mais íntima, quase crua, de uma fase em que Madonna se afastava da polémica de “Erotica” para mergulhar numa sonoridade mais suave, R&B-influenciada, mas ainda carregada de estilo e emoção. A arte da capa recupera fotografias inéditas de 1994, reforçando a ideia de redescoberta e celebração de um passado que parecia esquecido.

 

Para os que sempre defenderam “Bedtime Stories” como um dos discos mais subestimados da artista, “The Untold Chapter” é um presente e um convite a revisitar essa Madonna sensível, vulnerável, criativa.

 


 

Por que 2025 é um ano especial na discografia de Madonna

 

2025 não foi apenas um ano de relançamentos; foi também um ano de pistas, sinais e promessas. A recuperação de três capítulos fundamentais da carreira de Madonna coincidiu com uma energia criativa renovada e com o anúncio, ainda nas entrelinhas, de um novo ciclo no horizonte.

 

Há mais de um ano que Madonna está em estúdio com Stuart Price, o arquitecto sonoro de “Confessions on a Dance Floor” e um dos produtores que melhor compreende o ADN rítmico e melódico da cantora. A parceria, confirmada por ambos ao longo de 2024 e 2025, deu origem à notícia que incendiou a fandom: Madonna prepara para 2026 um álbum novo, descrito informalmente como uma “espécie de Confessions on a Dance Floor – Part II”.

 

Não se trata de regressar ao passado, Madonna nunca funcionou assim, mas de revisitar a pista de dança com novas ferramentas, novas histórias e um novo corpo emocional. É a celebração da luz, do trabalho, do hedonismo e da reinvenção permanente, aquilo que sempre fez parte da sua linguagem artística.

 

Por isso 2025 tem sido tão simbólico: enquanto celebramos as eras que moldaram a música pop, pressentimos também o renascimento de uma Madonna futurista, energética, novamente pronta para incendiar pistas e redefinir géneros. O passado foi polido, restaurado e devolvido, mas o futuro já está a vibrar no subsolo das novas sessões de estúdio.

 

Para mim, enquanto fã confesso, 2025 revelou-se um ano de redescobertas apaixonantes. “Veronica Electronica” trouxe de volta a magia eletrónica dos anos 90 com nova urgência. A edição de “Confessions on a Dance Floor” provou que a pista de dança ainda pulsa. E “The Untold Chapter” devolveu a intimidade, o mistério e a criatividade de uma Madonna corajosa, a mesma que transformou baladas em hinos e dance-floors em santuários pop. E embora qualquer novo lançamento da Madonna seja sempre motivo de entusiasmo, é impossível não sentir que estamos a viver um momento de inflexão: um ano que honra os alicerces e prepara a explosão criativa que aí vem.

 


Madonna e a pista de dança: como a Rainha da Pop moldou o futuro da música eletrónica

 

E tudo isto leva-me também a esta reflexão. Há artistas que seguem tendências, outros que as reinterpretam, e depois há Madonna, que as dobra, torce e transforma em algo absolutamente seu. Quem me lê aqui no Liberio's Leisures sabe que sempre fui fã, desde adolescente, do seu universo mutável, eletrificado e, tantas vezes, provocador. Por isso, quando me deparei com o artigo da Billboard sobre as sete formas como Madonna mudou a música dance, senti que era o momento perfeito para refletir sobre o impacto colossal que ela teve (e continua a ter) na cultura de pista de dança e, claro, partilhar convosco.

 

Porque sim, falamos da artista pop mais influente de sempre… mas também de uma das arquitetas invisíveis da música eletrónica tal como a conhecemos hoje.

 

A reinvenção que nos puxou para a pista

 

Ao longo dos anos, Madonna fez muito mais do que lançar êxitos: redefiniu a estética e o som da pop, incorporando elementos de house, techno, disco revivalista, trance e até influências orientais, místicas e espirituais.

 

Quando "Ray of Light" (1998) explodiu, lembro-me perfeitamente da sensação de ouvir algo novo. Não era só pop. Era um mergulho eletrónico, quase transcendental, com William Orbit a orquestrar uma nova Madonna, luminosa, etérea e futurista. Para mim, foi ali que ela deixou claro que não tinha medo de romper fronteiras. O álbum foi praticamente um convite para abrirmos a mente e deixarmo-nos levar por uma nova linguagem da pista de dança.

 

A madrinha dos remixes (e de quem vive da noite)

 

A Billboard sublinha o que qualquer pessoa que goste verdadeiramente de música de dança sabe: Madonna abriu portas. Antes dela, os remixes eram um apêndice curioso; com ela, tornaram-se peças de culto.

 

Quantas noites de Lisboa, Barcelona ou Nova Iorque não foram embaladas por versões club de “Erotica”, “Deeper and Deeper”, “Vogue” ou “Nothing Really Matters”?

E, sejamos honestos, quem nunca se perdeu no remix de “Hung Up” que atira ABBA diretamente para o futuro?

 

A colaboração com produtores como Shep Pettibone, Stuart Price ou Orbit ajudou a legitimar a relação entre o mainstream e o underground. E, de certa forma, democratizou a pista de dança: Madonna trouxe a cultura clubbing para o centro da pop e, com ela, trouxe também liberdade, hedonismo, expressão de género, sexualidade e identidade.

 

Para muita gente (eu incluído), a pista de dança tornou-se um lugar onde se podia ser sem pedir licença. Madonna entendeu isso muito antes do mundo.

 

A pop eletrónica como luxo sensorial

 

Se lermos esta evolução sob uma lente mais contemporânea, essa mesma que me acompanha nos artigos de lifestyle de luxo, percebemos que Madonna criou um universo imersivo antes de isso ser “experiência premium”.

 

As tours transformaram-se em espetáculos de luz, projeção, neons, LED e energia cinética. O álbum “Confessions on a Dance Floor” (2005), com Stuart Price, no comando da produção é um caso perfeito: uma viagem contínua, sem pausas, como se fosse uma noite inteira condensada num só disco. Até hoje, para mim, é um dos álbuns mais perfeitos da história da pista de dança: elegante, contínuo, pensado milimetricamente.

 

Momentos que mudaram o jogo

 

Entre dezenas de temas que se poderiam citar, deixo três que, pessoalmente, representam esta metamorfose:

 

- “Ray of Light” (1998)

Uma catarse. Uma explosão eletrónica que mostrou ao mundo que a espiritualidade podia conviver com o techno. Sempre que oiço, sinto que estou a voar.

 

- “Music” (2000)

Aquele drop inicial lembra-nos porque o cowgirl cyber-pop se tornou tendência. Madonna dizia que a música nos unia e tinha razão.

 

- “Hung Up” (2005)

O casamento improvável que se tornou icónico: ABBA + disco + house + glitter + atitude. É impossível não dançar.



O impacto que não abranda

 

Passaram décadas, estilos, modas, plataformas. E, ainda assim, o ADN de Madonna continua presente em tudo: na pop hiper eletrónica, nas divas que apostam no tecno, nos remixes que se tornaram essenciais, no renascimento do disco sound… e na forma como a pista se assumiu como espaço cultural, e não apenas recreativo.

 

Ser fã de Madonna é isto: assistir à história a ser escrita em tempo real.

E é também reconhecer que, sem ela, a cultura da noite, e a música eletrónica, não seriam o que são hoje.

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